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Os valores acima dos interesses

por Pedro Correia, em 07.05.11

 

A Líbia constitui "o pior pesadelo" dos dias que correm. A opinião, sem rodeios de qualquer espécie, foi ontem expressa por Mohamed ElBaradei nas Conferências do Estoril, que encerraram esta segunda edição com chave de ouro ao darem o palco ao ex-director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Prémio Nobel da Paz de 2005. Durante cerca de hora e meia, que pareceu pouco a quem assistia no Centro de Congressos do Estoril, o candidato à próxima eleição presidencial no Egipto defendeu uma intervenção mais activa da comunidade internacional para impedir a continuação dos massacres da população civil às ordens dos esbirros de Muammar Kadhafi, o ditador que permanece no poder desde Setembro de 1969, cego e surdo às aspirações de liberdade dos líbios.

Voz autorizada na defesa dos direitos humanos, participante activo na revolução de Fevereiro que levou à queda do regime despótico de Hosni Mubarak no Cairo, ElBaradei foi claro: "Não podemos aceitar que os ditadores massacrem os seus povos. Gostaria de ver uma intervenção internacional mais robusta, mais activa na Líbia." Na sua perspectiva, as relações internacionais contemporâneas são indissociáveis do respeito permanente da dignidade humana. "Temos de agir como mebros da mesma família global. A Líbia é um grande teste. Temos de espalhar esta mensagem: não continuaremos quedos e mudos, não assistiremos impávidos ao massacre de civis."

'A natureza das revoluções no Magrebe e no Médio Oriente' foi o tema abordado nesta excelente conferência, acompanhada com atenção por uma vasta plateia, em que se integravam muitos jovens. Baradei afirmou que o mundo "pode e deve ajudar" as populações do mundo islâmico que lutam pela liberdade - contribuindo para o "desenvolvimento económico, a coesão social e a promoção dos direitos humanos" em países como o Egipto, onde os militares estão com "demasiada pressa" em devolver o poder aos civis. Na sua perspectiva, a elaboração de uma nova Constituição devia ser o primeiro passo para fundar um regime democrático no Cairo - de preferência com um artigo basilar inspirado na primeira norma da lei fundamental da Alemanha: "A dignidade humana é inviolável."

Esta foi a grande mensagem que deixou no Estoril: "Não podemos pôr os interesses antes dos valores." Uma mensagem que contraria os cultores da realpolitik, sempre prontos a estabelecer relações cordiais com os piores tiranos contemporâneos. "Os EUA e a Europa apoiavam as ditaduras [na Tunísia e no Egipto] recorrendo ao argumento da estabilidade. No segundo dia das revoltas populares, Hillary Clinton chegou a dizer que o governo de Mubarak era estável. Como pode um regime que governa durante 30 anos com lei marcial ser um modelo de estabilidade? Nunca há estabilidade quando os governos não são livremente eleitos pelo povo."

Estive entre a assistência que o aplaudiu com entusiasmo ao fim da tarde de ontem. Gosto de ouvir um Nobel da Paz falar assim.

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5 comentários

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De Anónimo a 08.05.2011 às 05:47

Yeah let's pretend que os rebeldes líbios não representam hoje mesmo interesses americanos.
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De Pedro Correia a 08.05.2011 às 15:28

Os 'americanos' como chave para interpretar tudo quanto se passa no mundo. Os resistentes de Misrata, cidade-mártir, devem adorar essa lógica enquanto levam com as bombas do ditador, novo herói de uma certa "esquerda" portuguesa.
Ah, como é bom analisar a geopolítica com a lógica primária da história da carochinha...
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De Anónimo a 08.05.2011 às 16:42

explique-me geopolítica que não sirva os direitos dos EUA. irão/iraque, afeganistão, iraque outra vez - isto não contando com as ditaduras que agora caem, que foram instauradas pelos EUA. pior, muitas destas coisas acontecem para servir os direitos dos EUA contra os interesses europeus (ex: saddam queria negociar melhor o petróleo com empresas espanholas, russas e francesas, do que com americanas9. é assim que funciona a história da carochina, meu caro.
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De Pedro Correia a 09.05.2011 às 00:23

E você, meu caro, acaba de perder uma segunda oportunidade de se mostrar aqui solidário com as vítimas da ditadura líbia.
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De Anónimo a 09.05.2011 às 00:51

Se fosse vivo na época em que a URSS "libertou" o leste dos nazis, que diria, Pedro Correia? Era internacionalismo humanitário ou antes imperialismo comunista, o que libertava os pobres coitados do mau destino dos seus pobres países?

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