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Delito de Opinião

Leituras

Pedro Correia, 29.04.11

 

«Os seres humanos são tangíveis. São dotados de corpos e, como esses corpos sentem dor e padecem de doenças e terminam na morte, a vida humana não sofreu nem a mais ínfima alteração desde os primórdios da Humanidade. Sim, a descoberta do fogo permitiu ao homem gozar o calor nos dias frios e acabou com o regime de carne crua; a construção de pontes permitiu-lhe atravessar rios e riachos sem molhar os dedos dos pés; a invenção do avião permitiu-lhe galgar continentes e oceanos ao mesmo tempo que criou novos fenómenos como o jet lag e os filmes que passam nos voos - porém, se bem que tenha transformado o mundo à sua volta, o homem em si não mudou. Os factos da vida são constantes. Uma pessoa vive e depois morre. Nasce do corpo de uma mulher e, se conseguir sobreviver ao nascimento, a mãe terá de a alimentar e cuidar dela a fim de assegurar a sua sobrevivência, e tudo o que acontece a uma pessoa desde o momento do seu nascimento até ao momento da sua morte, todas as emoções que vão crescendo dentro dela, todas as explosões de raiva, todas as vagas de desejo, todos os acessos de choro, todas as rajadas de riso, tudo o que essa pessoa - seja ela um homem das cavernas ou um astronauta, viva ele no Deserto de Gobi ou no Círculo Polar Árctico - alguma vez sentirá ao longo da sua vida já foi também sentido por todas as outras pessoas que vieram antes dela.»

Paul Auster, Sunset Park

(Edições ASA, 2010. Tradução de José Vieira de Lima)

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