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Troca de rins

por Jorge Assunção, em 12.03.09

Um post muito interessante do economista Al Roth sobre a evolução do mercado de troca de rins [via Freakonomics]. A existência de um mercado de compra e venda de rins nos Estados Unidos é uma impossibilidade legal (coisa com a qual não concordo, mas isso é assunto para outro post), contudo existe a possibilidade de alguém doar o seu rim a outro. Um problema que surge frequentemente nestes casos é o da incompatibilidade do possível doador em relação ao receptor do rim (e, como é óbvio, o possível doador muitas vezes só existe perante um receptor específico - motivado por laços de amizade, familiares, etc...).

Dado isto, Al Roth desenhou um programa que visa pôr os diferentes pares incompativeis em contacto uns com os outros, sendo que com este cruzamento dos dados é possível criar combinações que de forma indirecta satisfaçam a condição que leva à existência da doação do rim.

Qual é o problema deste sistema? É o de que após alguém doar um rim para outro que não o receptor inicialmente pretendido a reciprocidade da troca seja garantida (ou seja, que quando um dos pares incompativeis já tenha recebido o rim pretendido, o doador de tal par não desista de doar o seu rim ao receptor de outro par). Dado que também é uma impossibilidade legal o estabelecimento de contratos com condições obrigatórias relativas a troca de orgãos humanos, a única forma de evitar este problema é fazer as operações de trocas de rins entre os diferentes pares envolvidos simultaneamente. Daqui, como se depreende facilmente, surge uma limitação ao sistema.

Mas o que Al Roth dá conta agora no seu post é de uma possível alteração com impacto no sistema. A simples existência de um doador altruista, ou seja, alguém que está disposto a doar o seu rim sem indicar um receptor específico, permite desenhar o sistema de forma a que o custo da desistência de um doador cujo parceiro já tenha recebido o seu rim seja reduzido.

O processo é simples de entender: se o primeiro elemento da corrente for alguém que não estabelece condição nenhuma para doar o seu rim, daí para a frente alguém só doa o seu rim após o parceiro ter recebido o rim compatível. Com isto as operações simultâneas deixam de ser necessárias e desaparece uma limitação forte ao actual sistema. Claro que é sempre possível, perante operações não simultâneas, a desistência de um doador com respectiva quebra da corrente, mas o que deixa de ser possível é verificar-se qualquer incumprimento das condições que levaram à participação dos restantes elementos da corrente.

E é assim que um único doador altruista pode ter um impacto muito significativo na vida de várias pessoas.

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3 comentários

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De António de Almeida a 12.03.2009 às 21:33

-Também não concordo com limitações de mercado desde que os intervenientes sejam maiores, mentalmente sãos, e o acto tenha aprovação médica, para evitar situações absurdas, do género o vendedor ficar com a saúde em risco, passando a depender dos sistemas de saúde.
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De João Carvalho a 12.03.2009 às 21:37

Parece-me certo.
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De Jorge Assunção a 12.03.2009 às 22:38

Caro António,

"para evitar situações absurdas, do género o vendedor ficar com a saúde em risco"

contudo a aprovação médica nunca evitará isso por completo. O risco da doação nunca é zero (para ficar-me pelo risco maior, a morte, a probabilidade é de 1 em cada 3000 operações*). Claro que a aprovação médica será muito relevante, não para eliminar todo o risco, mas para reduzir ao máximo o risco. Contudo, apesar dos riscos inerentes, eu sou a favor do mercado de compra e venda de rins desde que, para além das condições que o António evoca, seja acompanhado da obrigatoriedade de informar o doador de todos os riscos que corre. E, fora outras considerações, dada a escassez de rins no sistema de saúde e o número considerável de mortes de pacientes em lista de espera, a permissão de um mercado desse género parece-me trazer claramente mais beneficios que custos**.

* fonte:
https://www.uktransplant.org.uk/ukt/how_to_become_a_donor/living_kidney_donation/questions_and_answers.jsp

** a propósito dos custos, o autor do post que cito, Alvin Roth, faz referência aos custos da repugnância, por exemplo aqui:
http://online.wsj.com/article/SB118901049137818211.html?mod=Leader-US

Com isto ele justifica ou, direi melhor, depreende que nem tão cedo o mercado de compra e venda de rins será instituido legalmente. Mas nesse aspecto concordo muito mais com a visão do Alex Tabarrock:
http://www.marginalrevolution.com/marginalrevolution/2007/11/repugnance-is-r.html

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