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Igual a todos nós

por Pedro Correia, em 22.04.11

 

É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:

Eloí, Eloí, Lama sabachtami?

Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus - as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo. Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:

Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?

 

Texto reeditado 

Quadro: Gólgota, de Edvard Munch (1900)


8 comentários

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De Carlos Faria a 22.04.2011 às 21:42

Fortíssima a frase que até a mim me causa arrepios ao pensar na solidão que Jesus devia estar a sentir e em todos os seus significados magnificamente expostos no texto.
Estranhamente, João, o mais profundo dos evangelistas, não a diz, talvez porque estava mais preocupado em dar o testemunho da transcendência de Jesus.
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De Núncio a 22.04.2011 às 23:11

Que esta Páscoa seja uma passagem para um tempo mais ético e mais solidário.
"Pai, não abandones este povo!"
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De Anónimo a 23.04.2011 às 00:03

A frase é: "Eli, Eli, lemá sabacthani?"

Em todas as versões da Bíblia desde a Vulgata:

Et circa horam nonam clamavit Iesus voce magna dicens: "Eli, Eli, lema sabacthani?", hoc est: "Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me?".

Mas é preciso continuar a ler a passagem para perceber que o Pai, afinal, não o havia abandonado - coisa que até o centurião romano foi forçado a constatar:

Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.
Então, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo. A terra tremeu e as rochas fenderam-se. (...) O centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram apavorados e disseram: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus!»

Quantas vezes, confesso, já me aconteceu, do mesmo modo, pensar que o Pai me havia abandonado para vir a constatar mais tarde que Ele nunca tinha deixado de estar comigo. Nunca o Pai poderá ficar "indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência", tal como nunca nenhum de nós que é pai fica indiferente ao destino trágico do mais louco dos filhos - e são muitos os que vêem os filhos destruir-se sem poderem fazer nada para os salvar.

Deus só "permanece teimosamente deconhecido" para aqueles que não querem procurá-Lo nem conhecê-Lo.

Uma Santa Páscoa.
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De macarvalho a 23.04.2011 às 09:55

Querido Pedro,
Tenho andado um pouco mais distante do Delito, para poder sequer comentar.
Há dois dias que penso qual seria o seu texto pascal, pois este marcou-me muito na primeira vez que o li, fortíssimo no seu conteúdo, belíssimo no seu todo.

Já o li seguramente mais de dez vezes, encontrando nele sempre motivos para o querer voltar a ler.
Tenho-o enviado a alguns amigos mais chegados e continuo a pensar que é insuperável.

Esta noite pensei que nada poderia ser tão feliz e tão bonito quanto colocá-lo aqui de novo.
Continua a emocionar-me.
Não clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ..., mas por um Pai que não alcançamos, que não vemos, mas em que acredito com todas as minhas forças, que caminha ao meu lado.

Continua a ser maravilhoso este texto!
Parabéns por ele, Pedro e pela emoção que sempre me traz!

Desejo-lhe uma Santa Páscoa.
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De Ana Vidal a 23.04.2011 às 22:29

Faço minhas as palavras da MACarvalho, Pedro. Este teu texto emociona-me desde a primeira vez em que o li, e não poderia vir mais a propósito. Gostava que a minha fé fosse tão forte como as de quem leio aqui, mas não é. E no entanto sinto sempre intensamente a Páscoa e o seu significado profundo, e é sempre nestes dias do ano que sinto mais falta de um Deus que cuide de nós e não nos abandone.
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De macarvalho a 24.04.2011 às 12:28

Ana,
Sou, de facto, uma pessoa com muita fé. Essencialmente de fé mas também de resignação, sem nunca parar de acreditar.
Nem sempre tudo corre bem, não. Mas nada abala a minha fé, porque tudo tem um motivo, que nem sempre vislumbramos. Tudo tem também o seu tempo.

Às dúvidas que se levantam constantemente em minha casa, costumo responder com uma frase que há muito li e continua presente no meu espírito.
Frase de um texto que o meu saudoso Pai tinha na mesinha de cabeceira e é também oportuna na sequência deste texto fantástico, que só o Pedro saberia escrever, que continua a comover-me:
- Pai, porque me deixaste sozinho, logo nos momentos mais difíceis da minha vida?
- Enganas-te, meu filho. Nos dias em que vias apenas um par de pegadas na areia, são exactamente aqueles em que Eu te carreguei nos meus braços.
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De Ana Vidal a 25.04.2011 às 14:54

Pois é essa fé inabalável que eu lhe invejo, MaCarvalho. Não a perca, que é preciosa.
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De Helena Ferro de Gouveia a 24.04.2011 às 23:29

Uma Santa Páscoa aos "delitantes". E um obrigada ao Pedro Correia pelo post.

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