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Convidado: TOMÁS BELCHIOR

por Pedro Correia, em 26.04.11

 

O Estado Social fez de nós umas bestas quadradas

 

O Estado Social sempre foi uma construção absurda. Só assim se pode descrever uma tentativa de aperfeiçoar a natureza humana através de um sistema que não faz mais do que dar aos políticos a possibilidade de comprarem os seus cargos com o nosso dinheiro. O que é espantoso é o facto de, durante muito tempo, termos vivido bem com este esquema. Não questionámos sequer os seus resultados, quanto mais os seus métodos ou os seus pressupostos. Até ao dia em que a realidade veio enguiçar as coisas.
Termos ficado sem dinheiro para manter a máquina a funcionar está a revelar-se ser uma espécie de epifania. De repente descobrimos que só no papel existem benesses universais e tendencialmente gratuitas e que a única coisa real entre o lirismo é a cavalgada furiosa da conta que pagamos anualmente em impostos. Mas mais patético do que este nosso momento de revelação só mesmo as respostas dos políticos ao estertor do Estado Social.
À esquerda, agora que o chamado economicismo nos impede de gastar dinheiro público precisamente no momento em que ele seria mais necessário, só sobra a revolta primária contra os bancos, os ricos e o FMI. À direita, vende-se ao povo a solução do menos do mesmo. No meio de tudo isto, estamos nós, de boca aberta, à espera que nos devolvam as últimas gotas do dinheiro que pagámos, depois de este ter sido devidamente lavado no Orçamento de Estado, sem nos apercebermos do que aí vem. Sem nos apercebermos que o fim do Estado Social é uma boa notícia.  

 


Porquê uma boa notícia? Porque o Estado Social é um subsídio para nos tornarmos umas bestas. Porque o Estado Social não nos protege, isola-nos uns dos outros. Porque o Estado Social não nos salva de nós próprios, salva os políticos de quem vota neles. E, sobretudo, porque a verdadeira liberdade só existe quando podemos não só decidir mas também enfrentar as consequências dessas decisões. Quando podemos assumir a responsabilidade pelas famílias que criamos, pelos empregos que temos, pelas opiniões que emitimos, pelo sal que comemos.
Há uns anos, o Mark Steyn resumiu bem o problema: “O maior crime do Estado Social não é o desperdício de dinheiro, é o desperdício de pessoas”. Foi precisamente este desperdício de pessoas que nos trouxe até aqui e é o fim deste desperdício que vai acabar por nos salvar.
Se não formos livres para fazer o que está certo, nunca saberemos o que isso significa. Lembrem-se disto quando estiverem na fila do centro de emprego."

 

Tomás Belchior

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19 comentários

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De Miguel Madeira a 26.04.2011 às 19:26

"E, sobretudo, porque a verdadeira liberdade só existe quando podemos não só decidir mas também enfrentar as consequências dessas decisões."

Isso só acontece numa sociedade de pequenos produtores auto-suficientes - a partir do momento em que surge a divisão do trabalho, as nossas decisões afectam outras pessoas e nós somos afectados pelas decisões de outros.
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De Tomás Belchior a 26.04.2011 às 23:10

Miguel,

Não percebo porque razão só se formos produtores auto-suficientes é que podemos decidir e sermos responsabilizados por essas decisões. Estarmos dependentes uns dos outros é bem diferente de sermos obrigados pelo Estado a comportarmo-nos como se estivéssemos dependentes uns dos outros, quando no fundo, a nossa relação (no âmbito do Estado Social) não é com os que nos rodeiam mas com o Estado.
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De l.rodrigues a 27.04.2011 às 09:56

E não lhe parece que estarmos dependentes uns dos outros, numa estrutura social desigual à partida, perverte qualquer noção de liberdade?

A utopia liberal presume um estado perfeito, uma espécie de Éden, onde cada um é dono e senhor do seu destino e dos seus meios e negoceia em pé de igualdade, munido de informação perfeita, com os seus pares.

Basta olhar para qualquer sociedade real para perceber que se o colectivo não coartar o poder dos mais fortes e defender os mais fracos, aquela vai descambar na tirania dos que têm (o poder, as armas, os meios de produção) sobre os que não têm.

O Estado Social tem esse papel.
E por isso deve ser aperfeiçoado, não destruído.

A solidariedade "privada" de que se fala encerra precisamente essa relação de poder, entre quem tem e não tem.

Um generoso filantropo dificilmente foge à tentação de impor os seus valores e a sua versão de redenção aos que auxilia:
"O amigo quer ajuda? Ok, mas então reze aqui ao meu Deus, ou vote em mim, ou qualquer outra coisa, mas sobretudo não questione porque é que eu tenho tudo e você não tem nada."

O bom Estado Social, faz bem sem olhar a quem.

De novo, concedo que o nosso estado não é exemplo em muitos aspectos. Mas o seu mal nem está no que faz pelos mais pobres, mas sim no que faz pelos mais ricos, e mais encostados ao poder.
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De Ana A. a 26.04.2011 às 20:20

"E, sobretudo, porque a verdadeira liberdade só existe quando podemos não só decidir mas também enfrentar as consequências dessas decisões."

Mas decidir o quê?! E sobre o quê?!

Não seria melhor responsabilizarmos os políticos pela má gestão, e "obrigá-los" a servir-se dos referendos para nos dar voz?!

É que enquanto os governos prometerem umas coisas nas campanhas e depois fazerem outras, sem que sejam penalizados (pois o povo vota em programas e não em partidos), não sei de que responsabilidade fala?!
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De Tomás Belchior a 26.04.2011 às 23:13

Ana,

Não seria melhor não nos tirarem a voz, logo à partida? Darem-nos a oportunidade de cuidarmos uns dos outros, de pouparmos para a nossa reforma, para a nossa saúde, de ajudarmos quem precisa, antes de assumirmos que. se não formos obrigados, não o vamos fazer?
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De Teresa Ribeiro a 26.04.2011 às 21:51

Bem-vindo ao Delito, Tomás Belchior.
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De Tomás Belchior a 26.04.2011 às 23:14

Obrigado, Teresa. Foi um prazer passar por cá.
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De Manuel Xavier a 26.04.2011 às 22:44

Fico verdadeiramente triste por ler opiniões destas. Talvez seja um jovem ingénuo, mas acredito profundamente na solidariedade social. Somos minimamente civilizados (e sim, sei que é difícil lidar com o paradoxo) porque lutamos há muito contra este nosso instinto egoísta. Não creio que a lei do mais forte se deva impor como lema da conduta social.

Em relação aos nossos políticos estou inteiramente de acordo. A promiscuidade existente entre política e negócios é um flagelo da nossa governação. Mas não identifico aí uma patologia inerente ao conceito de estado social. Não é por os ovos que usámos para cozinhar o bolo estarem estragados uma vez, que não repetimos a receita. Talvez da próxima saia apetitoso... Eu espero que sim.
Cumprimentos
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De Tomás Belchior a 26.04.2011 às 23:36

Manuel,

A minha tese é precisamente essa: o Estado Social não tem nada a ver com solidariedade social. Diga-me uma coisa, se o Estado deixasse de lhe cobrar (uma parte dos seus) impostos e lhe desse a oportunidade de ajudar quem precisa com esse dinheiro, o Manuel ajudava ou ia de férias para as Caraíbas? Acha que a sua ajuda, mesmo que reduzida, seria mais ou menos eficaz do que essa mesma ajuda canalizada através de um qualquer ministério?

Eu conto muitas vezes uma história que ilustra bem o que eu quero dizer. Há uns tempos num centro comercial assisti a um episódio eloquente. Uma senhora que estava a fazer uma recolha de fundos para um instituição de caridade, levou com a seguinte resposta quando se dirigiu a uma das pessoas que estava comigo na fila: "eu pago os meus impostos e a minha segurança social, tenho as minhas contas com o Estado em dia, por isso o Estado é que tem a obrigação de vos ajudar". Isto é o Estado Social a funcionar. Quer mais egoísmo do que isto?

O Estado Social pode ser essencial para muitas pessoas, mas os custos dessa ajuda são astronómicos e vão muito para além dos números do Orçamento do Estado. Acho que está na altura de experimentarmos outra via.
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De Manuel Xavier a 27.04.2011 às 02:32

Continuo a não o compreender Tomás. A ideia do estado social não deverá ter como guia estrutural os princípios do altruísmo social? Se no contexto português em particular, ou noutro qualquer, a prática tem falhado, não é por isso que devemos desistir de insistir.

Parece-me que o estado social deverá sempre surgir como um objectivo da sociedade democrática moderna. Aliás existe mais alguma razão para nós pagarmos os nossos impostos se não a de manter uma sociedade de pé? Qual é a sua crítica? Acha que estamos a obrigar as pessoas a serem solidárias ao fazer com que paguem os seus impostos? Qual é a alternativa para si? Gostava que a explicitasse.

Por um lado começa por evidenciar que o drama é financeiro, que ficámos "sem dinheiro para manter a máquina a funcionar ". Sim é verdade. Mas quem falhou foram os políticos, que, como Sampaio disse, não têm estado à altura das suas responsabilidades. É esse um dos problemas do nosso país mas não me parece que seja esse um problema da sustentabilidade do estado social.

Mais grave, ataca o mérito moral do estado social. Acha que, paradoxalmente, ele nos leva ao egoísmo. Acusa-o de nos tornar irresponsáveis quando escreve que "a verdadeira liberdade só existe quando podemos não só decidir mas também enfrentar as consequências dessas decisões." Aqui, por ventura, quem falhou fomos nós, os cidadãos. E é precisamente aí que surge a importância do respeito pelo próximo. Não nos podemos continuar a orgulhar do nosso tão famoso chico-espertismo ...

O problema não está no estado social. Está naquilo que
as pessoas fazem dele.
Ele não é intrinsecamente mau, nem é intrinsecamente defeituoso. Muitos têm beneficiado com a sua construção e não me parece que o possa negar. Funciona na perfeição? Não. Deve ser melhorado? Sem dúvida que sim.
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De Tomás Belchior a 27.04.2011 às 10:22

"Parece-me que o estado social deverá sempre surgir como um objectivo da sociedade democrática moderna. Aliás existe mais alguma razão para nós pagarmos os nossos impostos se não a de manter uma sociedade de pé? Qual é a sua crítica? Acha que estamos a obrigar as pessoas a serem solidárias ao fazer com que paguem os seus impostos? Qual é a alternativa para si? Gostava que a explicitasse."

Manuel, o objectivo de uma sociedade democrática, na minha opinião, deve ser o de criar condições para que o maior número possível de pessoas possa escolher livremente a vida que levam. Para isso acontecer, lá pelo meio, precisamos do Estado a funcionar mas não do Estado Social.

Como o Rui Ramos disse há uns tempos no Expresso: "O contrário da pobreza tem de ser esta dependência, esta versão burocrática da sopa de Arroios? É isto decente? É isto a igualdade? Não, o Estado social não é alternativa ao trabalho, como base da cidadania, nem alternativa a uma sociedade civil solidária, como base da coesão. Porque o Estado nunca poderá ser 'social'. O negócio do Estado é o poder. Falar de 'Estado social' faz tanto sentido como falar de uma Inquisição tolerante ou de uma Máfia honesta - é uma contradição nos próprios termos. O Estado é o Estado. Não pode ser outra coisa. Nunca será outra coisa. "

A alternativa ao Estado Social somos nós. Cada um de nós. A alternativa é a família, são os amigos, são os vizinhos, são as instituições de caridade, é a Igreja, etc. Já estamos tão habituados a delegarmos no Estado as nossas responsabilidades que nos esquecemos disto.
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De Tiago a 27.04.2011 às 13:11

o problema está no Estado Social que de solidário nada tem. O sistema que vivemos baseia-se em coerção.

A solidariedade forçada (estado social) não desencadeia uma relação entre pessoas,pelo contrário, une-as sem nunca se estabelecer um contacto físico. Esta solidariedade assenta na ausência de relações humanas e na coerção do estado sobre as pessoas.

O estado social é imoral e deve ser combatido. A solidariedade natural (diferente de estado social) entre pessoas teria uma eficiência melhor e criaria um melhor espírito de comunidade, para além de que se baseia em princípios éticos. O problema do estado social não é apenas financeiro, é ético.
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De lucklucky a 26.04.2011 às 23:55

A "solidariedade social" não é social: um loja da esquina é mais social que todos os socialistas juntos e não é solidariedade, é obrigado.
E a solidariedade corrompe.

Um País que se define pelo social destrói-se a si próprio.Cria um clientelismo assistencialista.
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De Afonso Arnaldo a 27.04.2011 às 00:36

Manuel,

Parece-me que não entendeu totalmente o que diz o texto. É por acreditar totalmente na solidariedade social que, parece-me, o Tomás escreveu este texto. A liberdade de todos, a solidariedade livre é melhor que a solidariedade obrigada (que é o que o Estado Social impõe!!).

Cumprimentos
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De Tomás Belchior a 27.04.2011 às 10:07

Exactamente, Afonso. É um bom resumo.
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De Paulo Sousa a 26.04.2011 às 23:46

Gostei do texto, porque me pôs a pensar sobre novos aspectos daquilo em que já acreditava. Há demasiado estado.
O debate sobre o Estado Social que temos e teremos, tem de ser lançado na sociedade portuguesa, sob pena de que este acabe sem chegar a ser debatido. Mas esse debate seria mais fácil e razoável se a liberdade no nosso país não fosse refém da esquerda.
Ninguém de direita pode apelar por mais liberdade sem ser apelidado de 'neo-liberal', palavra que há muito deixou de ser um substantivo para ser um adjectivo de depreciação.
Olhando para a nossa história, dá vontade de classificar a esquerda que insiste em viver anestesiada no paradigma do 'dinheiro dos outros', como neo-miguelistas.
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De André Miguel a 27.04.2011 às 09:21

Concordo em absoluto.
O Estado, pelas funções que lhe estão inerentes, é sempre social. Mas a expressão em Portugal é completamente vazia, porque o que se criou foi um Estado assistêncialista que nos algema a todos, na forma de contribuir para o suposto bem comum, retirando-nos a liberdade de escolha.
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De Pedro Correia a 27.04.2011 às 22:47

Caro Tomás, bem-vindo ao Delito: os textos que suscitam polémica fazem jus ao próprio título deste blogue. Um grande abraço - e até breve.
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De João Mateus a 28.04.2011 às 13:21

Estado Social em Portugal? Que é isso?

Um Estado onde existem reformas de miséria ( o meu pai recebe 280 € de reforma e trabalhou mais de 60 anos, começou aos 8) onde as crianças são das mais pobres da OCDE?

Se isto é estado social, vou ali e já venho!


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