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O drama da Guiné-Bissau

por Pedro Correia, em 12.03.09

 

Cansei-me de ouvir o discurso da nossa responsabilidade histórica perante os morticínios que continuam a cometer-se em África. Três golpes de Estado, um presidente assassinado, três chefes militares abatidos e um primeiro-ministro executado em menos de 35 anos, a Guiné-Bissau em estado de insolvência, uma esperança média de vida baixíssima, o poder nas malhas do narcotráfico internacional - e há ainda quem venha explicar tudo isto com a Conferência de Berlim, de 1885, e a colonização portuguesa. É o caso do João Tunes, uma das pessoas que mais respeito na blogosfera. Os argumentos que invoca merecem-me reflexão. Mas não me convencem. Pela mesma lógica, poderíamos sempre culpabilizar a conferência de Viena, de 1815, que redesenhou o mapa da Europa, como causa da I Guerra Mundial um século depois e as imposições do Tratado de Versalhes, em 1919, como chave de ignição da II Guerra Mundial - e neste caso atenuando desde logo as responsabilidades históricas do impulso totalitário de Adolf Hitler.

Num mundo interdependente, a causa do progresso é a construção de grandes blocos regionais com fronteiras diluídas. João Tunes fala na Conferência de Berlim, mas esquece que os movimentos progressistas que tomaram o poder em África, no final dos anos 50, impuseram como dogma a intocabilidade das fronteiras coloniais, assumindo-as na plenitude. Precisamente na mesma época em que Jean Monnet e outros visionários lançavam os alicerces de uma Europa unida.

A União Europeia como aglutinação voluntária de povos que travaram batalhas milenares é uma causa progressista. A multiplicação de estados "étnicos" nos Balcãs ou a edificação de um País Basco "independente" à força da bomba, tudo em nome do nacionalismo, são causas reaccionárias, que nada deviam ter a ver com a esquerda. Lamento que haja tanta gente de esquerda a dar-lhes caução política, tão equivocada como quando via em Nkrumah ou Sékou Touré, nos anos 60, os estadistas iluminados de uma nova era. Tudo isso era um logro, como aqui já sublinhei.

O drama da Guiné-Bissau não é filho de pai incógnito: tem rostos, tem nomes, tem protagonistas. Quase todos do PAIGC, a força política que durante tanto tempo foi erigida como símbolo da nova África e afinal era apenas uma erupção da África velha. Sei que este é um facto incómodo. Mas é tempo de o deixar escrito com todas as letras.

 

Ler também:

- Guiné-Bissau, um olhar moçambicano. Editorial do jornal Savana, transcrito na Estrada Poeirenta.

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