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A inveja

por Marta Caires, em 11.03.09

Há uns anos, quando a crise ainda não tinha tomado conta dos espíritos, José Gil escreveu um livro sobre o medo de existir, esse terror português que pede desculpas por respirar, por ter ideias, por andar e viver. O filósofo avançava razões para este atavismo histórico, recuava à ditadura, ao que a revolução não fez e, por último, à essência da sociedade. E, lá, por detrás dos debates, foruns e antenas abertas nas televisões, na Internet e nas rádios, o investigador detectava a raiz do mal na inveja que despreza o mérito, deprecia a criatividade e condena ao silêncio tudo o que possa florescer e ter sucesso.

A inveja, ainda que feia, é humana, até os santos a sentem. Inveja por alguém mais bonito, pela abundância, pela alegria, mas aquilo que mina as relações sociais não é este imponderável, essa fraqueza de querer a felicidade dos outros. O impulso é como a espuma na areia, desfaz-se e não deixa rasto. A inveja - a que se instituiu entre os portugueses - é patológica, obssessiva. Corre sinuosa nas apreciações negativas, na troça de pequenos nadas. O rapaz do 2º esquerdo é entrevistado na televisão, diz coisas inteligentes e, quando sai à rua na manhã seguinte, depara-se com o risinho irónico a bailar na cara do vizinho da frente.

Não sabe, mas pressente que, no café, na bica antes de ir trabalhar, a inveja fez a festa. O parvalhão armado em doutor, arrogante, um barriga de vento. O rapaz do 2º esquerdo, que é sério, que pediu polícia no bairro e um baloiço novo para o parque infantil, deixou de ser quem sempre foi, o amigo, o bom vizinho que emprestou cinco euros à velhinha do 5º direito e defendeu o estroina do último andar na reunião de condomínio. Segue a rotina de todos os dias sem saber ainda que, no bairro, subiu ao Olimpo do despeito. Por lá, na mesma galeria de indesejados, está a jeitosa do 3º andar.

O cabelo castanho claro, as pernas altas, a roupa a condizer e o Mazda desportivo no estacionamento. Foi por essa porta que a inveja passou a galope. As mulheres porque era bonita; os homens porque o Mazda os esmagou, o bairro inteiro porque era a jeitosa e tinha dinheiro. Em pouco tempo, passou de bonita a antipática, ninguém deu que era apenas tímida, a hostilidade no elevador não ajudou. Quando deixou de dar os bons dias, corria veloz - como só a má-língua consegue ser - a história que subira na empresa onde trabalhava com favores sexuais. As 12 horas no escritório, a solidão dos domingos, o esforço, aquelas olheiras que enegreciam o rosto ainda jovem? A inveja só vê a mulher bonita ao volante do Mazda verde.

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21 comentários

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De João Carvalho a 11.03.2009 às 21:46

Discordo em absoluto da inveja intrinsecamente portuguesa. Adiante. O Mazda desportivo verde da pequena é um MX-5 dos últimos? Ela trabalha 12 horas por dia e fica sozinha aos domingos? Hum... esse escritório deve pagar bem... Ou ela é que se faz pagar bem. O carro não lhe caiu do céu. Com aquelas olheiras... está-se mesmo a ver... Farta-se de trabalhar... Com aquelas pernas até eu já estava reformado...
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De J.M. Coutinho Ribeiro a 11.03.2009 às 22:03

Até eu, que não sou dado a essas coisas, gostava de conhecer a moçoila...
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De João Carvalho a 11.03.2009 às 22:28

Uma antipática que não interessa a ninguém...
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De J.M. Coutinho Ribeiro a 12.03.2009 às 00:50

No fundo, no fundo, não sei se será...
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De João Carvalho a 12.03.2009 às 00:52

Bem, parece que só andas a fazer-te ao piso à jeitosa do MX. Nem ligaste àquela parte do rapaz do 2.º esquerdo. Se calhar é porque ele falou foi à TVI...
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De Cristina Ferreira de Almeida a 11.03.2009 às 22:25

Nem mais. É um atavismo clássico.
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De João Carvalho a 11.03.2009 às 22:54

Foi o que ela disse ao patrão. Num daqueles momentos a sós com o velhote, não se conteve:
- Vê lá se t'avias, ó clássico!
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De Ana a 11.03.2009 às 23:52

Que más-linguas, chiça!!
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De Nini a 11.03.2009 às 23:44

Eu não sou nada invejosa mas sempre ouvi dizer que «quem cabritos vende e cabras não tem de algum lado lhe vem»
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De A. Nabais a 12.03.2009 às 00:26

Muito bem escrito
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De Ana Vidal a 12.03.2009 às 01:07

Bah, essa jeitosa do Mazda deve ter subido a pulso mas foi para a cama do chefe...
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De João Carvalho a 12.03.2009 às 01:10

É o que consta. Eu já soube de tudo (ver mais acima).
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De Nini a 12.03.2009 às 01:18

Ela é um ganda coiro!
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De Ana Vidal a 12.03.2009 às 01:24

E vai-se a ver, tem os dentes podres!
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De Ana Vidal a 12.03.2009 às 01:23

Logo vi... galdéria!
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De João Carvalho a 12.03.2009 às 01:34

E eu nem contei tudo o que me disseram dela... Cala-te boca...
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De TalvezTeEscreva a 12.03.2009 às 07:26

" A inveja - a que se instituiu entre os portugueses - é patológica, obssessiva" [...]

[...] "a raiz do mal na inveja que despreza o mérito, deprecia a criatividade e condena ao silêncio tudo o que possa florescer e ter sucesso".

Absolutamente de acordo.

(Estranhos comentários, esses anteriores...)



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De Luís Reis Figueira a 12.03.2009 às 08:59

Marta:
Estou perdido de riso, depois de ter lido todos os comentários jocosos dos nossos bloggers ao seu magnífico post. Assim, vou (tentar) dizer qualquer coisa séria.
Como o José Gil bem refere, os portugueses têm medo da própria sombra e, constantemente, pedem desculpa de existir. É já ancestral entre nós, este tremelicar constante perante tudo e todos. Dantes, atribuía-se este comportamento à duração da «longa noite fascista». Porém, o que se constata acualmente, é que mais de 30 anos volvidos, agora em democracia, tudo continua como dantes, se não pior. O mal da nossa(s) sociedade(s), da nossa politiquice, é que têm investido muito mais no ter do que no ser, nos tais "Mazdas" e em todo o género de bugigangas semelhantes que, no fim de contas, não só não o enriquecem como não acrescentam nada à verdadeira dimensão do homem. E a inveja é exactamente isto: eu invejo-te porque gostava de ter mais do que tu, não porque quisesse ser humanamente melhor do que tu. Tenho (sempre) esperança que uma nova ordem mundial esteja a caminho e que as coisas comecem realmente a mudar...
Como escreveu o John Lennon, "You can say I'm a dreamer, but I'm not the only one...»
Are you a dreamer, Marta?
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De João Carvalho a 12.03.2009 às 11:49

Querias uma nova ordem mundial? És um invejoso, é o que tu és...
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De Once a 12.03.2009 às 09:07

"é este imponderável, essa fraqueza de querer a felicidade dos outros" - fantástico texto Marta .. e tão real quanto o ensinamento desta pequena frase. Tristes os que acham que de alguma forma conseguem viver vidas alheias.
Perdem a própria e nunca o conseguirão :)

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