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Convidado: ANTÓNIO PEDRO NETO

por Pedro Correia, em 28.03.11

 

Os Melhores, os Piores e os Piores dos Piores

 

O artigo chama-se “Empire at the end of decadence” e pretende ser um “wake up call” para todos os americanos. Debruça-se sobre vários aspectos dos ditos países industrializados que vivem sob a alçada do FMI (ao que tudo indica o próximo partido a coligar-se com o PSD), citando fontes como o “World Factbook” da CIA e estatísticas da OCDE.

Os scores estão distribuídos pelas seguintes categorias: “Melhor”, “Pior” e “Pior dos Piores”. Portugal está entre os “piores dos piores” em 4 das 9 analisadas, sendo que está entre os “piores” noutras duas. Sem grandes surpresas, Espanha e Grécia acompanham-nos, sendo que a Irlanda se consegue colocar, apesar de tudo, melhor na generalidade. Este último país é, curiosamente, dos que não enfermam de uma série de características comuns aos restantes três PIGS (um trocadilho que é a sigla pela qual são conhecidos Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha na comunidade internacional, para grande desgosto do professor Cavaco), a saber: enormes desigualdades na distribuição do rendimento (já sabem dos novos multimilionários portugueses?); taxas de desemprego galopantes; má performance dos estudantes em Matemática e Ciências, contradizendo todos os dados divulgados recentemente pelo Ministério da Educação.

Debruçando-nos sobre o “nível de democracia”, verificamos estar razoavelmente bem posicionados, sendo ultrapassados, no entanto, por uma série de países. Os países que obtêm a classificação de “melhor” neste aspecto são, curiosamente, os que estão melhor posicionados nos restantes parâmetros.

 

O que podemos concluir através da análise deste ranking? Nada de especial, dirá o leitor mais incauto. Mas não deixa de ser interessante que não seja este país que abre os telejornais da RTP, mas sim aquele em que o primeiro-ministro distribui Magalhães sorridente. O país negado por uma classe política inteira: por José Sócrates e todos os seus ministros, principalmente por aqueles que surgem sempre empertigados com as perguntas dos “senhores jornalistas”: Maria de Lurdes Rodrigues (e agora Isabel Alçada); o país negado por Augusto Santos Silva, saudoso ministro da propaganda (substituído nestes últimos tempos pelo líder da bancada do PS, Francisco Assis); o país negado por Teixeira dos Santos (e reafirmado na trilogia PEC, a caminho de mais uma sequela); o país negado por Helena André, que com um grande sorriso nos vai dando conta das mais recentes invenções da senhora Merkel e do senhor Sarkozy no que diz respeito à “flexibilidade”. Todos os dias nos negam este país. Os colunistas pró-governo denunciam o “pessimismo” reinante na comunicação social e exibem em grande-plano todas as notícias que de algum modo suavizam a verdade crua e dura (aquelas que dizem maravilhas do cartão do cidadão, da modernização da administração pública e do carro eléctrico): Portugal não tem uma economia competitiva, não tem empresas que criem empregos e não tem trabalhadores qualificados (como é bem sabido, trabalhadores licenciados não significam necessariamente trabalhadores qualificados), mas fazer referência a este facto é embarcar “no pessimismo” ou, melhor ainda, no “bota-abaixismo”.

Nada disto é novo mas parece que foi necessário o surgimento (ou a revelação) de uma “geração à rasca” (nas ruas, na internet, na comunicação social) para que se volte a falar do porquê de Portugal não conseguir, ao contrário de países como a Bélgica ou Itália, sobreviver e afirmar-se independentemente dos seus políticos (tópico que desenvolverei mais abaixo).

 

 

 

Muitos respondem com o facto de o Estado ter habituado mal as pessoas, e é uma hipótese provável (a mais provável até). Podemos também lamentar o facto de a liberalização do ensino (levada a cabo pelo mesmo Presidente que hoje sugere “sobressaltos cívicos”) ter servido apenas para concretizar virtualmente a sua “universalidade”, tendo criado nas universidades (e também nas “universidades”) um monstro de licenciados que não consegue arranjar emprego. Pois bem: estes licenciados (predominantemente ligados ao Estado/serviços) não conseguem arranjar empregos porque o mercado de trabalho não lhes consegue arranjar utilidade nem valor. A utilidade que o Estado lhes foi criando e mantendo mas que se vê obrigado hoje a retirar; o valor que existe numa economia evoluída e competitiva mas que não existe numa que se limita a sobreviver (não estamos a falar obviamente das grandes empresas) a uma máquina tributária sôfrega que serve essencialmente para resolver problemas criados pelo próprio Estado e principalmente pela banca.

Tudo isto parece caricato num país conhecido pelo seu bom clima, pelos seus vinhos, pelos seus móveis, pela sua simpatia, pela sua cultura, pela sua gastronomia, até mesmo pela sua moda. Num país que não é assim tão diferente de Itália, por exemplo. Já vi perguntar por que razão se vende o mobiliário italiano em todo o mundo, da mesma forma que se vendem os seus vinhos, da mesma forma que se vendem os seus carros.

E por que diabo não acontece isto connosco?

Arrisco a seguinte tese: Portugal não consegue sobreviver apesar dos seus políticos. As empresas estão demasiado dependentes do Estado, o Estado está demasiado dependente das empresas. Pois parece-me, então, que a sobrevivência da “geração à rasca” (e de todas as que ficaram “à rasca”) só vai acontecer se e quando as pessoas deixarem de criar expectativas relativamente aos seus políticos e derem como adquirido o facto de o Estado já não conseguir assegurar as prestações que assegurou outrora. Claro que é imoral que o dinheiro dessas prestações seja esbanjado a salvar bancos de gente amiga, em compras inúteis, ordenados de gestores públicos que não produzem resultados, empresas públicas que nada têm de empresas nem de públicas, fundações e um sem fim de peças dadas como engrenagens que nos fazem crer que o Estado já não pode funcionar de outra forma. Pergunto: não terá chegado a altura de haver uma geração que crie valor fora do Estado? Que tome conta das empresas, que lhes mostre o porquê de  serem elas a perder por não a empregarem; que invente novas e que revolucione as existentes? Valerá a pena continuarmos a lamentar um Estado moribundo, uma política desprovida de pessoas competentes, um país de comentadores que subsumem o debate público às últimas declarações de um qualquer líder partidário, e nem sequer tentarmos chegar perto da “vida pública” (só lá estão os que deixámos que se mantivessem e que legitimámos sentados em casa)? Não terá chegado a altura de voltarmos às universidades e de procurarmos melhor aquilo que o país precisa (mais do que licenciados “em cursos com nomes de hobby”), de lermos sobre o que de melhor se faz lá fora e em último caso de mudarmos de ramo (sendo que ainda vamos a tempo)?

 

Chegou a altura de vivermos apesar da política e não por causa da política. De interrompermos a espera pelo próximo boy que nos vai prometer, obviamente, tudo aquilo que sabe que nunca vai conseguir cumprir mas que sabe ser essencial prometer para lá chegar (assustador é ver que líderes como Passos Coelho já nem se dão ao trabalho de prometer o que quer que seja). Não é preciso confiar no governo para se criar valor: é preciso acreditar no país.

Eu não garanto que esta perspectiva optimista resolva o problema (nem sequer parte dele). Mas sem emprego e sem futuro chegou a altura de tentar novas armas: a rua foi um importante começo; o debate e o empreendedorismo são naturalmente o próximo passo. Se mesmo isto não resultar... há sempre um ou outro voo barato para o Canadá ou para a Noruega.

Pescar bacalhau soa, ainda assim, melhor que trabalhar a recibos verdes.

 

António Pedro Neto

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9 comentários

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De Laura Ramos a 28.03.2011 às 13:02

Um belo post! (Mas já agora promete-me que não vais acabar a pescar bacalhau na Noruega... o que seria de mim sem poder trocar aquelas picardias sobre a Tia Manuela?!)
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De Rui Rocha a 28.03.2011 às 13:04

Ora aqui está uma posta bem demolhada.
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De Pedro Correia a 28.03.2011 às 13:16

Muito bem, meu caro. Uma excelente e oportuna reflexão. Obrigado pela visita.
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De António P. Neto a 28.03.2011 às 13:54

Devo agradecer ao Pedro Correia a simpatia e amabilidade e fazer notar que este texto foi escrito antes da queda do governo, poucos dias depois da manifestação do "país à rasca", pelo que algumas coisas já não farão tanto sentido. De resto, agradeço uma vez mais a oportunidade!

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De Luís M. Jorge a 28.03.2011 às 16:14

Bom texto, António.
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De André Miguel a 28.03.2011 às 18:19

Subscrevo e assino por baixo.

Por acaso há pouco tempo atrás escrevi algo semelhante no meu tasco:
http://cronicasdealemtejo.blogspot.com/2011/03/deixem-trabalhar-quem-quer.html

Venho de um região completamente ignorada de quem nos governa, e como tal, onde o cenário económico é completamente desolador, tal a dependência das suas populações para com o Estado.
Estado esse que quando não dá esmolas para adiar o problema (com medidazinhas e programinhas ocupacionais) dedica-se a complicar a vida a quem quer investir como troco de protagonismos politiqueiros.
Está realmente nas nossas mãos a iniciativa de darmos a volta a este cenário, mas para isso precisamos que tal seja permitido e que este Estado não nos coloque umas algemas sob a forma de taxas, taxinhas, impostos, alvarás, licenças, eligibilidade de investimentos e o diabo a quatro.
Espero sinceramente que o próximo governo assim o permita, pois na falta de paciência para aturar este estado de coisas, não me dediquei à pesca do bacalhau, mas vim para aquele país que até Sócrates gosta muito: Angola. E não se está mal de todo, mas não há nada como a nossa casa...
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De André Miguel a 29.03.2011 às 09:02

As desculpas pelo pontapé na gramática: onde se lê "eligibilidade" deve ler-se "elegibilidade"...
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De lucklucky a 29.03.2011 às 02:03

"a uma máquina tributária sôfrega que serve essencialmente para resolver problemas criados pelo próprio Estado e principalmente pela banca."
.
Onde é que o Estado gasta o dinheiro?
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De António P. Neto a 29.03.2011 às 20:56

Se eu fosse gestor de uma empresa pública explicava-lhe com maior detalhe, caro Lucklucky.

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