Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O diagnóstico

por Teresa Ribeiro, em 10.03.11

Ontem ouvi aplausos a Cavaco Silva porque através do seu discurso soube fazer o diagnóstico da situação. Achei extraordinário como alguém ainda consegue fazer esta afirmação sem se rir. Fazer o diagnóstico? Nesta altura dos acontecimentos até o Zé Maria Pincel sabe fazer o diagnóstico. Há anos que está feito. Qualquer político que tenha assumido funções em qualquer governo que se tenha formado nestes últimos dez anos - e estou a fazer as contas por baixo - sabe qual é o diagnóstico.

Quando vejo o PSD afanosamente a reunir especialistas para encontrar soluções para a crise também não consigo evitar o espanto. Se o diagnóstico está feito, também há muito se conhece o "tratamento". Sócrates, quando foi eleito primeiro ministro pela primeira vez claro que também já sabia o que era preciso fazer. Conseguiu uma maioria porque por essa altura os portugueses estavam fartos da política de combate ao défice do PSD, que se saldou no aumento dos impostos - um clássico - e na venda não isenta de polémica de algumas jóias da coroa e não numa tentativa séria de resolução dos tais problemas estruturais que nos impedem de convergir com a UE.

Já nesse tempo as estatísticas europeias nos fustigavam o amor-próprio com resultados deprimentes para Portugal. Os portugueses deram a maioria a Sócrates porque se sentiam a viver num país disfuncional. Lembro-me da expectativa que o animal feroz criou. Com o tal diagnóstico bem feito e o respectivo tratamento detalhado no programa eleitoral, muitos acreditaram que tinha finalmente chegado ao poder o homem com a coragem necessária para fazer as reformas que há décadas nos tolhiam, impedindo mais que o desenvolvimento, a própria sustentabilidade do país.

Arrogante e ambicioso, com um pouco de sorte talvez ousasse arriscar o seu futuro político e enfrentar os lobbies não para salvar o país - a ingenuidade tem limites - mas para se tornar no special one, o único em décadas capaz de fazer as reformas difíceis e resgatar Portugal do pântano.

Mas como se sabe o nosso putativo jogador de poker na hora da verdade não foi a jogo. Entre inscrever o nome na História e gozar das mordomias do poder enquanto durasse, preferiu a segunda hipótese. A que fez dele apenas uma enorme decepção.

Há dias António Barreto disse: "Façam viagens ao interior dos partidos e ficam aterrados", e o que ele diz escreve-se. Sócrates, convém aqui lembrar, foi feito por um deles.

Ao ver passar primeiro-ministros atrás de primeiro-ministros arrisco a dizer que aquele qualificativo também se aplica à governação. O país dos interesses deve ser mesmo assustador. Se calhar só um louco o desafiaria. Um louco megalómano, capaz de arriscar o pescoço político para deixar obra. Um louco de extracção democrática, bem entendido, que da outra casta já experimentámos e não correu bem. Só que isto que eu estou para aqui a dizer é sebastianismo puro, não é? Pois é.


11 comentários

Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 10.03.2011 às 15:28

É claro que o diagnóstico está feito, mas as prioridades invertidas. Toda a logica da austeridade assimétrica (e as pessoas vão para a rua por causa da assimetria....) apenas tem como objectivo garantir que os compradores de divida a valores de usura ganham o seu. Não pretende contribuir para crescimento, desenvolvimento ou seja lá o que for que contribua para o progresso e bem estar do país.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 10.03.2011 às 22:13

Agora farão o que Bruxelas ditar, depois se verá, sendo que o voo será sempre baixinho. Falta-lhes dimensão para fazer o que é necessário. Nem tentam.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 10.03.2011 às 16:01

Parabés a quem escreveu !
Sem imagem de perfil

De torcato guimaraes a 10.03.2011 às 16:05

EXCELENTE TERESA,

Este País tem, para além de inteligência curta, a memória travada. Esta gente impostora que NÓS da SOCIEDADE CIVIL deixamos que invadisse os Partidos TOMOU conta disto.

... o facto de as novidades desde há uns 12 anos serem eivadas de folclore, de virtual e assim receber o aplauso e apoio da populaça habituada às procissões e luzinhas da ruela ilustra tudo.

... o facto de se atacar pessoalmente classes profissionais, recebendo a iliteracia nacional e invejosa as boçalidades reinantes como verdadeiras...

... a fraca aptidão das elites mediáticas e politicas (nascidas do mediatismo) portuguesas em distinguir opinião de acontecimento (factos), levando ao comentário da opinião e assim até ao infinito...significa o cultivo do raciocínio simplório, binário, tam-tum, ...em vez da metodologia do conhecimento, da preparação prévia para fazer...

...o facto de qualquer bicho careta ter opinião sobre tudo...sem saber, sem conhecer...

...enfim, este cultivo do imediato fez com que uma certa juventude de outrora se encaminhasse pelo partido...até ao poder.

...dizer coisa ruim ao Povo, nem pensar! O POVÃo quer coretos, tambores, auto-estradas para passear os seus bólides do leasing, coisas modernas para gastar, o Povão quer subsídio para nao trabalhar e claro...o politico para manter a taça...tem de dar.

É uma mediocridade pegada! ...e tem de ser um Professor a fazer um "diagnóstico", e é a romaria nacional a venerar a sã novidade
...só mesmo nesta horta à procura de fazendeiro!
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 10.03.2011 às 22:14

Obrigada, Torcato.
Sem imagem de perfil

De Rogerio Pereira a 10.03.2011 às 17:39

Texto certeiro e quase enxuto. Pena a citação a António Barreto, ele próprio carecido de uma viagem ao interior de si mesmo...
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 10.03.2011 às 22:01

O António Barreto passou pela política activa há tantos anos, Rogério. Já teve tempo para mais que uma viagem de circum-navegação.
Imagem de perfil

De António Simões a 10.03.2011 às 17:41

Tendo em conta que os políticos padecem todos de incompetentia horribilis, porque não dar a oportunidade a todos. De x em x tempo governaria cada um à sua vez. Desse modo também se poderia fazer uma dieta para reduzir a gordura acumulada em que se tornou a Assembleia de República, e enviar o excedente para se fazer sabonetes, cumprindo as metas de reciclagem impostas pela comunidade.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 10.03.2011 às 21:53

E já agora, que estamos a reflectir sobre soluções radicais, por que não experimentar uma democracia modelo belga? Assim como assim...
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 10.03.2011 às 18:05

A edição de hoje do DO é para coleccionador. Excelente texto, Teresa. Infelizmente, no nevoeiro que nos envolve o único vulto que se adivinha é o da intervenção externa. Para aplicar as medidas que nos vão impor o perfil adequado é o de um feitor.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 10.03.2011 às 21:51

Obrigada, Rui. Quanto ao perfil, concordo. Apesar do nevoeiro vislumbro um feitor ao fundo do túnel...

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D