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"Caça aos pombos"

por Ana Sofia Couto, em 06.03.11

O jornal Expresso oferece esta semana o livro Fernando Pessoa – Ensaio Interpretativo da sua Vida e da sua Obra, de João Gaspar Simões. Não é o monumental Vida e Obra, com quase 700 páginas, mas apresenta a mesma tese freudiana. A propósito disto, lembrei-me de um texto sobre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós que li há pouco tempo. Procurando questionar uma certa interpretação (que começou com Gaspar Simões) do namoro, a autora, Anna M. Klobucka, comenta a carta em que Pessoa escreve ao seu ‘bebé’: «Sabes? Estou-te escrevendo mas não estou pensando em ti. Estou pensando nas saudades que tenho do tempo da caça aos pombos, e isto é uma coisa, como tu sabes, com que tu não tens nada…». Enquanto outros exegetas da obra de Pessoa tinham lido nestas palavras a repetição da nostalgia da infância, e encontrado na carta mais uma prova da negatividade da relação entre os namorados, o ensaio mostra, pelo confronto com as cartas de Ofélia, que os «pombos» eram, exactamente, o peito dela.

 

O ensaio de Anna M. Klobucka, “Finalmente Juntos”, está incluído em O Corpo em Pessoa: Corporalidade, Género, Sexualidade (Assírio & Alvim, 2010).


10 comentários

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De Ana Vidal a 06.03.2011 às 11:12

É que a metáfora usada para isso, na época, era "rolas". Até nisso Pessoa tinha de ser diferente...

Boa malha, Ana Sofia.
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De Ana Sofia Couto a 06.03.2011 às 11:35

Até nisso, Ana. A metáfora fazia parte de um vocabulário privado, que só a leitura das cartas de Ofélia permitiria perceber, e foi isso que iludiu os críticos.
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De Ana Vidal a 06.03.2011 às 11:44

Mesmo assim, tenho sempre dificuldade em imaginar o Pessoa como um ser sexuado, confesso. Mas todos temos as nossas gavetas secretas, e as dele eram muitas.
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De Pedro Correia a 06.03.2011 às 12:33

Com tanto autor subsidiado por fundações privadas e pelo próprio estado, custa-me entender por que motivo a monumental (uso o mesmo termo que tu, pois parece-me de facto o mais adequado) biografia do Pessoa feita pelo Gaspar Simões há mais de meio século seja ainda hoje a maior obra de referência do género. Isto diz muito sobre a literatura portuguesa, onde existem cem "romancistas" por cada ensaísta. O romance (dizem) "vende", o ensaio não. Lamento que o 'Expresso' tenha desperdiçado uma excelente oportunidade de fomentar o aparecimento de novas biografias em vez de se limitar a reeditar obras já conhecidas e muito datadas. As teses 'freudianas' de Gaspar Simões, que influenciaram muito do olhar colectivo sobre Pessoa, são muito limitadas, devido ao seu estrito determinismo - tal como as que lançou sobre Eça, condicionando toda a vida e obra do autor d'«Os Maias» ao facto de ter sido aparentemente rejeitado pela mãe nos primeiros anos de vida.
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De Ana Sofia Couto a 06.03.2011 às 12:41

O Richard Zenith está a preparar a sua biografia do Pessoa. Eu aguardo com expectativa. Vamos ver quando sai.
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De Ana Vidal a 06.03.2011 às 12:51

Esse é o perigo de ver tudo com um olhar freudiano, tão na moda na época da biografia de Gaspar Simões. Falta a abrangência, o inesperado, o inexplicável. O Pessoa (e o Eça também, ainda que menos) era uma malha demasiado complexa para ser "lida" de uma forma tão redutora.
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De Laura Ramos a 06.03.2011 às 14:20

E havia outras 'columbofilias', de que me lembro, assim por alto:
«minha pombinha de leque»...
Quase tão bom como
«minha almofadinha pregadeira de alfinetes»
(idem, ibidem)
:-)
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De Ana Sofia Couto a 06.03.2011 às 14:59

Delicioso, Laura:)
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De Alberto Matos a 06.03.2011 às 14:32

Como se o Pessoa gostasse de coisas desse género... Quando é mais que sabido que gostava era do outro (género, é claro). E fez ele muito bem.
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De João Carvalho a 06.03.2011 às 20:26

Confesso e sujeito-me a apanhar nas orelhas: nunca fui um incondicional do Pessoa. Defeito meu, mas assumido. Por outro lado, interessa-me a vida e obra dele (de preferência, inseridas na época, como convém). Boa achega a tua, Ana Sofia.

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