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Quando o Óscar chega tarde de mais

por Pedro Correia, em 27.02.11

 

Em cada temporada dos Óscares, lembro-me sempre de Howard Hawks. Foi um dos gigantes da arte de realizar filmes. E também um cineasta que nunca recebeu um Óscar em competição. Não por falta de obras-primas no seu currículo. Mas porque, por algum motivo obscuro, a Academia de Hollywood sempre o considerou um realizador “menor”. Algo muito estranho, já que raros cineastas produziram tantos filmes memoráveis como Hawks, que iniciou a sua actividade ainda no tempo do cinema mudo. Filmes como As Duas Feras (1938), Paraíso Infernal (1939), Sargento York (1941), À Beira do Abismo (1946), Rio Vermelho (1948), A Culpa foi do Macaco (1952), Rio Bravo (1959) e El Dorado (1967). Foi ele quem reuniu pela primeira vez Humphrey Bogart e Lauren Bacall, em Ter e Não Ter (1944). Foi ele quem juntou Marilyn Monroe e Jane Russell, em Os Homens Preferem as Louras (1953).

O reconhecimento foi tardio – e só surgiu por efeito de ricochete da crítica francesa, que idolatrava Hawks. Hollywood deu-lhe enfim um Óscar honorário em 1974 quando Hawks, de 78 anos, já deixara de filmar. A consagração surgiu demasiado tarde, tal como sucedeu, por exemplo, com Charles Chaplin e Groucho Marx (Óscares honorários de 1971 e 1973, quando tinham 82 e 83 anos, respectivamente).

O génio é muitas vezes reconhecido tarde de mais. Lá como cá.

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10 comentários

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De João Campos a 27.02.2011 às 20:31

Bem lembrado. Numa potencial lista de Óscares nunca atribuídos teríamos também Stanley Kubrick, que apenas ganhou um, pelos efeitos especiais de 2001: A Space Odyssey (também se não ganhasse esse...). No resto, foi um cineasta revolucionário, com quatro ou cinco filmes a merecer a distinção, e... nada.

E temos um contemporâneo que parece ir praticamente na mesma senda: Quentin Tarantino. Venceu o Óscar de Melhor Argumento Original com Pulp Fiction, e, vá lá, viu Christoph Waltz ganhar a distinção de Melhor Actor Secundário com uma das melhores interpretações dos últimos anos em Inglourious Basterds. É muito pouco para quem fez, não só este último, como também Reservoir Dogs, Pulp Fiction e Kill Bill.
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De Pedro Correia a 27.02.2011 às 20:38

Isso mesmo, João. Com a agravante, no caso do Kubrick, de ele merecer o Óscar pelo menos desde 1957, ano em que rodou 'Paths of Glory', candidato a um dos melhores filmes de guerra de sempre. Já para não falar também nessa fabulosa sátira que é 'Dr. Strangelove'. O Tarantino ainda está muito a tempo de ganhar. Ele, infelizmente, já não.
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De João Campos a 27.02.2011 às 21:16

Paths of Glory e Dr. Strangelove são as minhas duas grandes lacunas de Kubrick. Mas entre 2001, Full Metal Jacket e A Clockwork Orange, para não falar em Barry Lyndon, que era sempre um óscar de Melhor Realizador de caras, enfim...

O Tarantino vai muito a tempo, sem dúvida. Mas considerando Pulp Fiction, fico a pensar no que terá o homem de fazer para ganhar o prémio.
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De Pedro Correia a 28.02.2011 às 01:20

Assim que puderes vê 'Dr. Strangelove', João. É um dos melhores filmes de sempre, seja qual for o rótulo que lhe queiramos atribuir.

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De Teresa Ribeiro a 27.02.2011 às 22:04

Então e Hitchcock? Foi nomeado, sim, mas oscar... nada.
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De Pedro Correia a 28.02.2011 às 01:00

Sim, Teresa, mas o Hitchcock ao menos viu um filme dele (Rebecca) vencer o Óscar de melhor filme. O Hawks nem isso. Ou o Welles. E os Óscares honorários ao Chaplin e ao Groucho, já muito tarde, só confirmaram a má consciência da Academia. Raio de miopia. Nem se percebe que o Cary Grant, por exemplo, nunca tenha sido sequer nomeado para um Óscar.
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De 1qaz a 27.02.2011 às 22:15

Resta saber o que premeia o oscar: a indústria ou a arte ?

fica a pergunta.
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De Pedro Correia a 28.02.2011 às 01:03

A sua pergunta é excelente. Acho que premeia muito mais a indústria do que a arte. Lamentavelmente.
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De João André a 28.02.2011 às 09:22

Fossem esses exemplos os únicos e não estaríamos mal de todo. Hollywood vai preferindo premiar coisas como o Discurso do Rei, Shakespeare in Love, Slumdog Millionaire, Titanic, etc, a filmes que de facto abrem novos caminhos.

Uma nota sobre Chaplin: se não me engano, ganhou um outro óscar anos antes: um honorário por ter sido realizador, produtor, actor principal, argumentista e autor da música para O Circo. Não é o ideal, mas é alguma coisa. No caso dele creio que o exílio forçado pós-MaCarthismo foi causa de muitos esquecimentos...

PS - dois casos curiosos de oscares que quase surgiram tarde: Paul Newman e Henry Fonda. Ambos receberam oscares honorários no ano antes de ganharem o de melhor actor (The Color of Money e On the Golden Pond, resp.). Às vezes a simples qualidade consegue contornar a "academia de hollywood".
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De Pedro Correia a 28.02.2011 às 13:28

Não defendo que o Oscar premeie sempre novos caminhos, até porque nem sempre novos caminhos são abertos. Gostaria que detectasse os 'Casablancas' de cada ano, mas também é verdade que nem sempre surgem 'Casablancas'. Trata-se, não o esqueçamos e um prémio corporativo - e talvez isso explique quase tudo. Mesmo assim, é-me difícil perceber por que motivo Chaplin e Groucho - dois dos mais geniais actores de sempre - não receberam prémios de interpretação em carreiras tão longas. Ou que um Cary Grant não tenha recebido sequer uma nomeação. Ou que um ícone do cinema como John Wayne só o tenha recebido muito tarde, em jeito de prémio de consolação (e, sim, os casos de Newman e sobretudo de Fonda aplicam-se aqui muito bem).
Apesar de tudo, o júri do Óscar tem acertado mais vezes do que o do Nobel, por exemplo. O que já é alguma coisa.

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