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A revolta das mulheres árabes

por Pedro Correia, em 28.02.11

 

"Nas imagens das manifestações, onde estão as mulheres da Líbia, da Tunísia, do Bahrein, do Iémen?", questionava há dias Inês Serra Lopes, na sua habitual coluna de opinião da terceira página do i. Lembrando, e com razão, que "sem mulheres não há revolução". Por saboroso acaso, a resposta vinha logo na página seguinte da mesma edição, em texto assinado por Nicholas Kirstof, escrito em Manama, capital do Bahrein, para o New York Times (de que o i tem o exclusivo em Portugal). "Não se deixe levar pela campanha maliciosa lançada pelos ditadores segundo a qual um Médio Oriente mais democrático será fundamentalista, anti-americano ou opressivo para as mulheres. Para começar, têm-se visto muitas mulheres nas ruas a exigir mudanças (mulheres de uma força impressionante, vem a propósito lembrar!)", escreve este jornalista galardoado duas vezes com o Pulitzer.

Espero que a Inês fique mais tranquila com estas palavras escritas por quem tem acompanhado os protestos ao vivo. E a Maria João e a Joana também.

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12 comentários

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De o puma a 28.02.2011 às 18:43

Pois - já estão a ser escolhidos
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De João Carvalho a 28.02.2011 às 18:59

Um dos pontos que já no DO tem sido destacado nestas revoluções é precisamente a forte presença das mulheres. A Inês e companhia devem andar confundidas pelos diplomas legislativos do Vale de Almeida e companhia.
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De Pedro Coimbra a 01.03.2011 às 04:32

O fantasma do fundamentalismo.
Agora na versão feminista.
Que tal deixar tudo como está?
As muleres até são tão respeitadas nos seus direitos.....
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De bluesmile a 01.03.2011 às 04:55

Contimuo a não ver as mulheres nas manifestações. E não é por acaso. Estão em casa fechadas. O risco que correm de serem violadas e agredidas caso saiam para as ruas a reivindicar direitos ( ou liberdades) é bem real.
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De Pedro Correia a 01.03.2011 às 11:51

Blue Smile, no tempo da ditadura é que se estava bem. O que eles lá precisam (e elas) é de dois ou três Salazares - ou melhor, de Mubaraques.

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De Ana Vidal a 01.03.2011 às 12:26

Não percebo que se diga que não há mulheres nas ruas. Justamente o que mais me surpreendeu - e alegrou! - nas imagens que temos visto das manifestações no mundo árabe, foi a presença de mulheres, e até algumas de véu! São menos do que os homens? Claro que sim, mas ainda há pouco tempo era impensável vê-las assim, com voz activa e cartazes na mão. As mudanças de fundo não se fazem num dia, mas já são visíveis. Se não houver recuo, o que infelizmente é sempre possível, as mulheres árabes estão no bom caminho.
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De temposevontades a 01.03.2011 às 20:25

Ana Vidal,

"... mas ainda há pouco tempo era impensável vê-las assim, com voz activa e cartazes na mão. As mudanças de fundo não se fazem num dia, mas já são visíveis."

Algum conhecimento que tenho dos países do norte de África, sobretudo da Argélia, levam-me a dizer-lhe que - infelizmente - está enganada. Já há muito que não se viam tantas mulheres com o "véu" (aquele horroroso lenço, preto às vezes, que lhes cobre o cabelo e pescoço) nos países do Magrebe (onde esse lenço nunca foi tradição) como agora. O mesmo se pode dizer da Turquia, Irão, Afeganistão e até das muçulmanas em países como a França ou o Reino Unido. Espero escrever com algum tempo sobre o assunto quando recuperar o meu computador, e deixar de ter acesso limitado à internet.
Joana

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De Ana Vidal a 02.03.2011 às 01:37

Joana, eu não ando exactamente a dormir nem me deixo obnubilar pela primeira balela que me impingem. Sei bem que tem havido um retrocesso de fundamentalismo no Islão nos últimos anos, e sei bem que as mulheres são, invariavelmente, as grandes vítimas de um estatuto consagrado no próprio Corão. Talvez a nossa diferença de opinião tenha que ver com a palavra "agora". O que eu disse foi que o tenho visto nas últimas semanas é qualquer coisa que há um mês ainda era impensável: mulheres árabes numa manifestação, lado a lado com os homens, gritando e empunhando cartazes. Será por pouco tempo e tudo voltará ao mesmo, ou pior? Não sei, ninguém sabe ainda. Mas não vejo razão para não ficar contente por elas, pelo menos para já. Aplaudo nelas a coragem e tenho esperança de que vão fazendo as suas penosas conquistas com algum ganho. Pior do que estavam, é impossível ficarem. Ou acha que era melhor ficarem quietas e caladas?
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De temposevontades a 01.03.2011 às 20:46

"Não se deixe levar pela campanha maliciosa lançada pelos ditadores segundo a qual um Médio Oriente mais democrático será fundamentalista, anti-americano ou opressivo para as mulheres. Para começar, têm-se visto muitas mulheres nas ruas a exigir mudanças (mulheres de uma força impressionante, vem a propósito lembrar!)".

Pedro,
O jornalista em causa pode ter ganho muitas mãos cheias de Pulitzers, é-me indiferente, pois com esta frase que pouco diz para além de uns lugares comuns sobre "campanhas maliciosas" (quais delas, pergunto eu?) e poucos factos, a minha dúvida só aumenta. Duvido também que tenha lido o Corão, que perceba o que é a religião para os muçulmanos, que conheça minimamente os mecanismos de como se faz lei (e aplica) nos países islâmicos, não entre a "elite" culta, informada e viajada (onde muitas mulheres são poderosas, sim), mas nos subúrbios, no campo, entre o "povo".

A condição da mulher parece ser um denominador comum entre os vários países islâmicos. Para nosso (mulheres) mal.
Joana

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De Pedro Correia a 02.03.2011 às 00:31

Joana: o Pulitzer credencia qualquer jornalista que o tenha ganho e qualifica o seu trabalho - não pode ser chutado para canto como se fosse o prémio Nova Gente. O facto de ele escrever lá, numa das capitais dos protestos, torna-o uma testemunha presencial - e, como tal, digna de atenção.
Lugares-comuns tenho eu lido e ouvido, na nossa imprensa e nos nossos blogues, desde o início deste ano, sobre os perigos do "fundamentalismo islâmico": como se tudo quanto mexe, nos países onde se professa a fé muçulmana, fosse um terrorista em potência.
Qual seria a alternativa às mudanças políticas em curso no Magrebe e na península arábica? Tudo continuar na mesma? Ben Ali, que estava há 23 anos no poder, continuar mais 20 anos? Mubarak, que estava há 30 anos, continuar até à morte? Kadhafi, que está (ainda) há 41 anos, continuar até morrerem mais uns largos milhares de líbios?
'O vosso livro sagrado é incompatível com sociedades avançadas' - será esta a mensagem que devemos, daqui do Ocidente, lançar aos jovens que se revoltam nesses países em vez de os apoiarmos e os encorajarmos? Como se não houvesse sistema democrático na Turquia islâmica ou na Indonésia muçulmana, por exemplo. Dir-me-ás: são sociedades imperfeitas. Respondo-te: que democracia conheces sem imperfeições? "Perfeitas", só as ditaduras.
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De Maria N a 02.03.2011 às 14:39

Pedro,
Julgo que muito deste pessimismo resulta de uma preocupação genuína por elas, receio ampliado pelo horrível ataque a Lara Logan. Pareceu-me ser esse o sentido do texto da Joana. Mas uma coisa é o receio por elas porque queremos muito que a sua situação melhore, outra coisa é não as ver e daí concluir que não estiveram lá e que não querem a mudança.

Inês Pedrosa não viu mulheres, nem no Egipto, e no entanto elas participaram, com ou sem véu, porque esta é também a oportunidade delas. E foram cruciais para o seu sucesso, tanto nas redes sociais como na rua. Entre os que foram agredidos e assassinados também há mulheres, como podemos ver nas listas das vítimas.

Não fazemos favor nenhum à causa delas ao insistir que a revolução lhes passou ao lado. Para além de não ser verdade, serve que nem uma luva aos sectores conservadores para as excluírem do processo democrático, como aconteceu na Argélia e no Irão (que elas não esqueceram). Sabemos, e elas sabem, que vão tentar excluí-las. É por isso que não se cansam de dizer – nós estivemos lá, a nossa voz também tem de ser ouvida e respeitada; e se enfurecem quando de cá, do conforto das nossas salas de estar, sem arriscar um cabelo ou uma unha, lhes dizemos que não as vimos na televisão. Com razão, porque o pior que podemos fazer é não lhes reconhecer essa voz.

Lutaram por ela. Merecem esse reconhecimento.
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De Pedro Correia a 03.03.2011 às 01:46

Revejo-me nas suas palavras, Maria. E subscrevo-as, naturalmente.

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