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Convidado: NUNO COSTA SANTOS

por Pedro Correia, em 28.02.11

 

Todos nós

 

A Otília só vem na quinta. Mas sei – anteouço já – a primeira conversa que vamos ter na cozinha, enquanto ela pousa a sua tralha e eu passo a manteiga light na torrada. Ela vai-me perguntar sobre os “meus meninos” e, logo que eu disser que estão bem, irá rematar a frase com a sentença: “Ah, isso é que interessa!”. Isso é que interessa. Eles estarem bem é que interessa.

 

Sei que não faz por mal – faz por bem até. Mas o que a minha empregada, mulher de 60 anos que veio de uma povoação junto ao Douro e se farta de trabalhar aqui e ali para sustentar uma família com dramas vários (como todas as outras), diz representa um vício de pensamento das nossas e de outras sociedades – ouve-se por todo o lado, sob diferentes formulações. A de que se as crianças estiverem bem o resto das pessoas também estará – a de que elas são o referencial para a felicidade de todos. O que, antes de mais, é injusto para as próprias. Não interpretem isto como uma desvalorização desses seres que dão à vida uma boa parte do significado que a vida tem e pode ter – e, para citar o Miguel Ângelo, toda a gente sabe que amo os meus filhos, com as toneladas de baba que isso implica. Apenas acho que chegou a altura de, além das crianças, se valorizar também os (utilizemos o habitual termo pesado) adultos.

 

Se calhar o problema está nisto: nesta divisão entre “crianças” e “adultos”. Devíamos, digo eu, não tratar as crianças como adultos mas sim tratar os adultos como crianças. Como os seres frágeis que ainda somos, apesar de nos quererem integralmente responsáveis por tudo o que fazemos e dizemos. O problema talvez esteja algures por aí: nessa divisão tão grande entre as crianças e os adultos. Se formos metidos todos, novos e velhos, no mesmo saco – o saco de pessoas frágeis, amorosas e birrentas – a coisa torna-se pelo menos mais justa. Ainda no outro dia pensei nisso ao topar na rua um gesto de ternura de um senhor para com os meus filhos. Se ele estendesse esse gesto de ternura para os adultos (falsos adultos, verdadeiras crianças) com quem se cruza na repartição, no supermercado ou na sala de espera, estaria a contribuir para a vida ser bem mais fácil neste país demasiado refém dos seus instintos de medo, rezinguice e desconfiança. Se nos tratássemos todos como crianças este seria não só um mundo melhor – mas sobretudo um mundo mais justo.

 

Não, Otília, não é só isso que interessa. Não são só os meus filhos e os seus netos que interessam. Todos nós interessamos. A começar pela Otília.

 

Nuno Costa Santos

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3 comentários

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De Pedro Correia a 28.02.2011 às 15:20

Excelente texto, Nuno. Tens razão, também já dei por mim tantas a vezes a pensar nisto: «Devíamos não tratar as crianças como adultos mas sim tratar os adultos como crianças. Como os seres frágeis que ainda somos, apesar de nos quererem integralmente responsáveis por tudo o que fazemos e dizemos. O problema talvez esteja algures por aí: nessa divisão tão grande entre as crianças e os adultos.»
Se calhar isto explica por que motivo ainda hoje me comovo ao (re)ver a 'Mary Poppins' - o meu primeiro filme...
Gostei de te ver por cá. Um grande abraço.
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De João Carvalho a 28.02.2011 às 16:20

Gostei de ler. Muito interessante, o tema. Parabéns.
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De ana a 01.03.2011 às 12:36

Nem mais Nuno, nem mais...bom texto e visão.

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