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Comissão de Serviço V

por Fernando Sousa, em 21.02.11

CELESTINO I

 

- Cabrão do puto! Já viste isto? JÁ VISTE ISTO?

O homem estava fulo. Mostrava-me uma camisa verde, onde, na zona do peito, no lugar onde às vezes aparecem nódoas de um azar de comida, ou de falta de cuidado, saltava à vista uma mancha esbranquiçada e um pequeno rasgão. Fora o mainato.

- Então não é que o sacana do preto, para tirar uns pinguitos de azeite esfregou, esfregou, esfregou com uma pedra?

Porrada de criar bicho, despedimento.

O miúdo, um magricela de 11 anos, estava na parte de fora da flat, sentado dentro de uns calções a desfazerem-se, tudo o que vestia, encostado à parede. Chorava, com a cabeça entre as mãos e os joelhos sujos. Chamava-se Celestino, era macua, não tinha ninguém e a sua casa eram as ruas de Nampula.

- Queres trabalhar para mim?

Em troca do dobro do que o sargento lhe pagava, de roupa e da promessa de aprender a usar o sabão, aceitou, secando os olhos. Seria o meu mainato. Fiel, leal, disponível, cúmplice. Até ao fim. Fi-lo rir-se. Só nunca lhe tirei os olhos tristes.

 

 

(Notinhas de uma guerra engolida)


10 comentários

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De zeparafuso a 21.02.2011 às 14:10

Há gente capaz de tudo!!! Mas convem lembrar que nem todos eram assim. Como em todo o lado, há boas e más pessoas. Pessoas como a da historia são aqueles que também batem nas mulheres, são os cobardes.
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De Fernando Sousa a 21.02.2011 às 14:50

Quando as pessoas já não estão bem, uma guerra pode torná-las piores.
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De zeparafuso a 21.02.2011 às 15:16

Também passei por lá e nem por isso fui assim. Já sei que vão dizer que depende dos sítios em que se guerreou, é verdade, depende dos sítios. Qualquer das formas uma guerra é sempre mau e afecta as pessoas que por lá passam, que em alguns casos, serve também de desculpa para actos menos próprios. No comentário anterior apenas quis dizer que nem todas as pessoas eram como a da história, porque escrito assim parece que todas eram repressivas.
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De Fernando Sousa a 21.02.2011 às 21:35

Não estamos em desacordo, zeparafuso. Mas repare que a historinha fala só daquele sargento, não da tropa inteira e das três frentes. Virão outras histórias com gente saudável. Agora que uma guerra pode entortar ainda mais quem vai para lá torto, ou às vezes entortar quem vai para lá direito, lá isso pode.
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De Cristina Torrão a 21.02.2011 às 19:13

É isso mesmo. Em situações excepcionais (como é a da guerra), os violentos, os cobardes e outros (incluindo psicopatas) aproveitam para dar vazão aos seus instintos e realizar as suas megalomanias. Basta pensar na Alemanha. Hitler e os que lhe eram próximos não passavam de anormais, de gente sem escrúpulos, catapultados para o poder nas circunstâncias estranhas que se criaram.

Episódio comovente, pôs-me lágrimas nos olhos.

O que será feito do Celestino?
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De Fernando Sousa a 21.02.2011 às 21:42

O que foi feito do Celestino? Não sei, Cristina. Não sei.
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De Cristina Torrão a 22.02.2011 às 11:15

Sim, foi mais uma pergunta retórica. Quando vejo coisas destas, pergunto-me o que será feito das pessoas.

É ele na fotografia, ou o Fernando, à falta de uma, usou uma fotografia que combina com a história?
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De Fernando Sousa a 22.02.2011 às 11:44

É ele mesmo. Tínhamos ido às compras, buscar roupas e livros. Adorou a camisa! Mas isso é outro episódio.
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De Virgínia a 22.02.2011 às 08:43

Durante os quatro anos que vivi em Moçambique, tivemos um mainato para ajudar a minha mãe e levar a minha irmã mais nova à escola.
Chamava-se Pereira. Foi para nossa casa com cerca de dez anos.
A minha mãe pô-lo na escola, em casa fazia com que ele lesse para a minha irmã os livros infantis.
Em troca ele ensinava landim à minha mãe.
À noite ia dormir à palhota da família só para poder levar comida lá de casa para ajudar a família.
Andava sempre bem vestido com as fardas que se usavam na altura.
Ao domingo vestia roupa à civil, que a minha mãe lhe comprava, e ia ao cinema e bebia uma coca-cola, era a mesada. Um dia disse que o dinheiro do domingo não chegava porque tinha convidado uma menina. Bem, a minha mãe lá lhe aumentou a mesada.
Quando em Agosto de 1972 viemos embora, ele chorou imenso, também queria vir connosco, mas não era possivel.
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De Fernando Sousa a 22.02.2011 às 10:29

Uma pessoa cria laços, não é? E depois, desatá-los? Às vezes é impossível. Este foi um dos motivos porque chamei a estas historinhas pedaços de uma guerra engolida.

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