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Delito de Opinião

Quem fala assim não é gago

Teresa Ribeiro, 20.02.11

 

Li há dias numa notícia que a Beyoncé recorre à dieta do limão e que a Gwyneth Paltrow faz uma combinação especial de sopas de legumes para se manter em forma. Destinava-se a mim, essa notícia. Sou o público alvo. O meu género faz de mim uma pessoa tendencialmente obcecada com o envelhecimento. Os media estão repletos de noticiário destinado a mim sobre mulheres que se cortam, enchem de silicone, de algas e de dietas. Homens, há poucos. Quando aparecem é como uma nota exótica de rodapé. Porque este assunto é de mulheres. A vulnerabilidade e insegurança que a obsessão com a idade implicam são femininos - lê-se nas entrelinhas do abundante noticiário que as revistas femininas e até as mais sérias reservam para mim.

Se não fosse tão banal mulheres imolarem-se em peelings e passarem fome com dietas maravilha, pareceria doentio, mas os media, que nos explicam todos os dias o que são assuntos de homens e assuntos de mulheres, dão uma caução de normalidade a tudo isto. É claro que a normalidade feminina é sujeita a ciclos, como se sabe, por isso não é uma normalidade linear. Há que ser condescendente com os seus excessos e saber contextualizar as coisas. Afinal, não podemos esquecer que a culpa é dos mercados. Os mercados estão a pressionar as mulheres cada vez mais cedo (já ouvi miúdas de 20 anos queixarem-se de que estão velhas e homens de 40 a desdenharem de mulheres de 30).

Portanto e resumindo isto do envelhecimento é sarna para mulher se coçar. Dizem. Dizem os media. E o que os media não dizem, não existe. Presume-se.

Mas há dias luminosos. Há dias em que uma mulher pega num jornal e lê, em letra de forma que Colin Firth, 50 anos, está incomodado com o seu envelhecimento. A confissão - lamento, mas não consigo fazer link - soou-me a música celestial. E lembrou-me uma entrevista feita a Martin Amis (60 anos) pelo Expresso que guardei e passo a transcrever: (falava-se do seu romance, recém lançado, "A Viúva Grávida"):

- Keith, o protagonista, tem uma manifesta dificuldade em lidar com o processo de envelhecimento.

M.A. - Conhece alguém que não tenha?

- Eu, por exemplo, não tenho. Mas talvez seja demasiado novo (38 anos).

M.A. - Nesse caso prepare-se. Vai ter uma surpresa muito desagradável. Acredite.

- Fale-me dessa surpresa que me espera.

M.A. - Só posso falar do que se passou comigo. Nunca supus que fosse tão humilhante. E também tão cómico, num certo sentido. Experimente reler o livro quando tiver 60 anos. Algumas das coisas só se tornarão nítidas quando as experimentar por si mesmo.

Refrescantes, estes dois. Devia aparecer nos media mais informação desta. Se lhes perguntarem - a questão é que provavelmente nem se lembram de lhes perguntar - talvez os homens também revelem os seus truques anti-aging. Ajudava a perspectivar a realidade.

Colin, dear, na noite dos oscares vou torcer por ti.

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