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Teerão sem motivos para sorrir

por Pedro Correia, em 12.02.11

 

 

Por estes dias, algumas Cassandras de turno têm atrasado o calendário 32 anos para apontarem um dedo cheio de suspeições ao movimento popular egípcio. Lembrando que a chamada revolução islâmica que derrubou o xá do Irão em 1979 também prometia muito mas terminou da pior maneira, com a instalação de uma ditadura ainda mais feroz. Por que motivo nenhum outro exemplo de uma revolução falhada é invocado por estes dias? Talvez porque não haja mais nenhum para mostrar. Nos últimos 40 anos, dezenas de ditaduras deram lugar a sistemas democráticos nos mais diversos pontos do planeta – de Portugal às Filipinas, da Polónia a Moçambique, da Rússia ao Brasil – sem que nenhum vaticínio catastrofista se concretizasse. Caiu o Muro de Berlim, foi desmantelado o apartheid na África do Sul, as tiranias de caserna foram substituídas por estados de direito na América Latina, Timor-Leste alcançou enfim a liberdade. Sem convulsões, sem retrocessos históricos, sem o cumprimento das habituais promessas negras dos profetas da desgraça. No Irão, de resto, a clique teocrática não tem motivos para se congratular com as manifestações no Egipto, um país onde 20 milhões de pessoas – cerca de um quarto da população – utilizam regularmente a Internet. No Cairo, por estes dias, foi possível ver muçulmanos e cristãos orar em conjunto. Ali não se queimou uma só bandeira americana nem se gritaram palavras de ódio contra Israel.
O fracasso da “revolução islâmica”, há 32 anos, serve aliás de aviso e de vacina a novos movimentos destinados a destituir ditaduras: podem não saber ao certo por onde vão nem para onde vão, mas todos sabem que não irão por aí.

 

Publicado no DN

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10 comentários

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De Teresa Ribeiro a 13.02.2011 às 00:06

Gostei muito de ler o teu texto. Foi... refrescante. Reconheço que há motivos para apreensão, mas tanto pessimismo já me cansa. À maioria dos analistas políticos só falta lamentar abertamente que esta revolução tenha acontecido. E afinal, como recordaste aqui, há muitos e bons exemplos onde podemos fundamentar as nossas melhores expectativas.
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De Pedro Correia a 13.02.2011 às 00:42

Também eu não dou para o peditório do 'mundo cada vez mais perigoso', Teresa. Nem faço parte do Sindicato dos Velhos do Restelo. Nunca fiz, jamais farei.
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De João Carvalho a 13.02.2011 às 01:07

Carregado de razão, não podias ser mais claro. Creio que não faltará muito para vermos as cassandras enroladas como minhocas em exercícios de retórica estafada.
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De Pedro Correia a 13.02.2011 às 01:21

Amanhã (hoje) volto ao assunto, que me parece inesgotável, compadre. Choca-me ver tanto choro e tanto ranger de dentes perante a queda de uma ditadura. Como se o bom fosse o Mubarak e os maus fossem os populares pacíficos que exigiram na rua a partida do ditador.
Faz-me lembrar a atitude do PCP em 1989, quando as ditaduras de Leste iam caindo uma após outra.
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De Paulo Sousa a 13.02.2011 às 01:39

Notei que a revolução egípcia fez dividir a blogosfera que me merece atenção em dois lotes. Os que por um lado se identificam com o sistema democrático e que o consideram desejável para o ocidente, mas têm medo da vontade popular do mundo árabe, que podemos designar por cépticos, e os que acreditam na democracia como um estádio civilizacional que todos as sociedades merecem e aspiram. Estes são os belivers.
Churchill disse-nos a democracia era o pior sistema excluindo todos os demais, mas Hitler mostrou-nos como é possível ser eleito democraticamente e em seguida destruir um país e deixar um rasto de destruição na história da humanidade.
O DO é um blog de belivers e é também por isso que não passo sem cá passar.
Sinto-me no entanto dividido. Seria fantástico ver os egípcios darem uma lição de democracia ao mundo em geral e aos cépticos em particular, mas neste momento nada está garantido e tudo pode ainda acontecer. O nosso PREC durou um ano e meio e até ao 25 de Novembro todos os cenários estiverem em aberto. Não sabemos quanto tempo durará o PREC egípcio nem qual será o seu próximo ponto de equilíbrio político. Até lá resta-nos apenas torcer para que os cépticos sejam contrariados.
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De João Carvalho a 13.02.2011 às 09:22

Torcer já é um bom princípio. Foi o que faltou na mensagem de Obama. A verdade é que, na revolução egípcia, a primeira parte já está. E bem, em todos os seus sinais.
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De Nicolina Cabrita a 13.02.2011 às 04:01

Nada há de mais assustador que a mudança, sobretudo quando não eram esperadas. Indiciam que o que tínhamos por seguro não era seguro e que, no fundo, não sabemos nada. Os acontecimentos recentes no Magrebe e no Médio Oriente parecem-me ser um bom exemplo disto mesmo.
Tenho gostado, em particular, de ler o que tens escrito sobre este assunto pela seguinte razão: quando a realidade muda tão drasticamente é importante saber olhá-la, não em função do que ficou para trás, mas do que se vislumbra. O que tenho lido ultimamente leva-me a pensar que são poucos os que estão a fazer isto, ou seja, há por aí muitos comentadores/analistas e poucos (cada vez menos) jornalistas...
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De Pedro Coimbra a 13.02.2011 às 07:18

Saber qual é o caminho que não se pode trilhar é uma enorme vantagem.
Algo que muitos poucos conhecem, convenhamos.
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De Pedro Correia a 13.02.2011 às 11:53

É isso mesmo, Pedro. Não faltam, por estes dias, os 'egiptólogos' a clamar contra os riscos de repetição da «revolução islâmica» de 1979 sem perceberem que o simples facto de isso ter ocorrido serve de prevenção a que se repita.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 13.02.2011 às 15:01

É verdade que nos ultimos 30-40 anos houve muitas ditaduras que se transformaram em regimes mais ou menos democraticos, como os que enumerou no seu post, e ainda bem.
Mas no Egipto a coisa fia mais fino, e pôr algumas reticencias ao que lá se está a passar para além da euforia popular, é no minimo prudente.
Há uns anos atrás foi tornado publico um estudo sobre as forças armadas do Egipto, que diz que cerca de 70% dos oficiais de capitão para cima são simpatizantes, ou pertencem à Irmandade Muçulmana.
Estando o regime agora entregue às forças armadas, e se isto for verdade, é para mim no minimo preocupante.
Mas se os Egipcios que são 80 milhões conseguirem implantar uma verdadeira Democracia no seu país, isso só nos pode encher de satisfação, como aconteceu com os antigos paises da "Cortina de Ferro".

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