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Famosa por negligência

por Teresa Ribeiro, em 10.02.11

  

 

Não se tivesse ela esquecido de fechar a janela e tudo seria diferente. Tê-la-iam levado, aliviada, de um túmulo para o outro, passados poucos dias, sem constrangimentos. Os sobrinhos - parece que eram cinco - reclamariam, enfim, os seus despojos. A vizinhança meditaria, por uns instantes, na tristeza que é ser-se velho e sozinho e tudo voltaria à santa paz do Senhor. O cão, a única pessoa que a amava, seria liberto ou talvez, por uma questão de higiene urbana, fosse eutanasiado no canil municipal. Mas um dos problemas dos velhos é que se esquecem de tudo. Um bico de gás, uma vela tombada, uma janela aberta e pode ser um transtorno para a comunidade. Eu, por exemplo, fiquei muito chocada quando li aquela notícia no jornal. Até dormi mal.

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22 comentários

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De Pedro Correia a 10.02.2011 às 10:41

Percebo muito bem o que escreves, Teresa. E partilho cada uma das tuas palavras. Também fiquei muito impressionado com esta história tão triste da senhora que morre só num apartamento que no fundo lhe servia de prisão. Numa das freguesias 'urbanas' mais povoadas da Europa, num prédio cheio de inquilinos, ninguém detectou qualquer odor estranho, ninguém quis saber. Morreu-lhe o cão que lhe fazia companhia, numa agonia que podemos imaginar, e continuou toda a gente indiferente - a começar pelos familiares da senhora. Excepto uma vizinha, que podemos apontar como exemplo de cidadania. Mas nenhuma 'autoridade' se demoveu. Ninguém quis saber. E só quando o banco revendeu o apartamento, por falta de pagamento da hipoteca, é que a macabra realidade se tornou conhecida de todos.
Impossível não ficar com um nó na garganta perante isto. Que sociedade é esta em que vivemos, com o maior número 'per capita' de telemóveis e computadores portáteis, enquanto andamos cada vez mais indiferentes aos seres humanos que vivem a escassos metros de nós?
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De Teresa Ribeiro a 10.02.2011 às 11:03

É isso, Pedro. E enquanto nos dedicamos com paixão aos telemóveis e portáteis esquecemo-nos de que o tempo passa e se não formos entretanto colhidos por uma dessas doenças modernas, chegaremos também a velhos.
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De Susana A. a 10.02.2011 às 12:17

Ao que sei o cão morreu na varanda. Não me venham com tretas - os vizinhos podem não ter sentido o cheiro da senhora dentro de casa, podem não ter havido manifestações óbvias da morte da idosa, mas que o cão deve ter feito imenso barulho, disso não tenho dúvidas, e mesmo assim ninguém fez nada. Nem pelo animal, que sem mais informações, se poderia pressupor estar a ser maltratado. As pessoas demitem-se, mais do que do simples exercício da cidadania, de sentir a mais básica compaixão pelo Outro.
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De Teresa Ribeiro a 10.02.2011 às 21:25

Também pensei nisso, Susana. O pobre animal não pode ter passado despercebido.
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De Fernando Sousa a 10.02.2011 às 12:23

Foi aqui ao lado, a poucos quilómetros de mim, e vejo-me agora a tentar dividir culpas... Mas é grande a factura para tão poucos voluntários. Como foi possível?...
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De Teresa Ribeiro a 10.02.2011 às 21:26

Também senti que esta cena é um espelho em que podemos ver a nossa cara. Todos.
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De cr a 10.02.2011 às 12:42

E os policias que se riram das desconfianças da vizinha? como fica?
Esta noticia também me perturbou e me permitiu pensar que algo aqui não vai mesmo nada bem, provavelmente existem falhas de ambos os lados. É possível também que a senhora idosa não tenha incrementado o desenvolvimento de laços, assim como é possível que do outro lado a tenham esquecido, na verdade o que não é mesmo permitido num prédio é que alguma porta de habitação de pessoa só, se encerre por 9 anos sem que ninguém faça nada.
Temos que registar com tristeza esta noticia e prometer a nós próprios que vamos estar atentos aos nossos vizinhos, especialmente os que vivem sós.
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De Teresa Ribeiro a 10.02.2011 às 21:33

Aí está uma atitude... como se diz agora? Proactiva. Que a proactividade nos dê também para a solidariedade para com os outros, a começar pelos que vivem ao nosso lado.
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De Luís Lavoura a 10.02.2011 às 13:06

Se ela deixou a janela da cozinha aberta, enquanto que a porta da cozinha estava fechada, isso explica que não se tenha sentido cheiro.

O cão deve ter ladrado e, como a janela estava aberta, deve-se ter feito ouvir. Mas não por muito tempo. Sem água, o bicho terá morrido depressa.

A questão é: por mais que as pessoas vizinhas se preocupassem, as autoridades não podiam fazer nada, porque em Portugal, constitucionalmente, o domicílio é inviolável. Ou seja, as autoridades não podem forçar a entrada numa casa sem ordem judicial. E a ordem judicial só vem na sequência de um processo-crime...

Podemos supôr o caso alternativo em que uma velhota decidisse repentinamente, sem avisar ninguém, ir viver na companhia de um familiar longínquo, algures na província. Seria legítimo invadir-lhe a casa lá porque as vizinhas não tinham sido avisadas da partida?
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De cr a 10.02.2011 às 16:46

Desculpe Luis li com atenção o que escreveu , provavelmente com conhecimento sobre as leis, mas sendo assim o que sugere?
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De Luís Lavoura a 10.02.2011 às 17:01

Não sugiro nada, ou antes, sugiro que a senhora, prevendo o que lhe poderia acontecer, deveria ter dado a chave da casa à vizinha, e pedido para ela entrar se deixasse de a ver.

As autoridades é que não tinham poderes para agir.

É sempre imprudente uma pessoa viver sozinha numa casa e não ter ninguém de confiança que tenha a chave e lhe possa acudir em caso de necessidade.
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De Teresa Ribeiro a 10.02.2011 às 21:37

Não diga mais: portanto o Luís acha isto tudo normal. Se quer que lhe diga, não me surpreende.
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De João André a 10.02.2011 às 13:26

Eu faço de voz (um pouco) discordante. Imaginemos a senhora. Não era casada (pelo menos nada o refere) nem parece tê-lo sido. Não tinha filhos (não referidos). Aparentemente também já não teria irmãos ou cunhados. Não se dava com os sobrinhos. Poderia ser culpa deles, talvez, mas o facto é esse. Tinha apenas um primo com quem se dava para poder ir ao médico. Dos vizinhos, apenas uma parecia ligar-lhe. Era alguém, em suma, que também se parecia ter desligado do mundo. Não ligava ao mundo e este não lhe ligava.

Um dia já lá não está. Decide ir de férias para aproveitar o que lhe resta da vida. Não importa se ganhou a lotaria ou se se voluntariou para ser copeira num navio. Desapareceu sem passar cavaco a ninguém porque também ninguém dela se iria despedir. Algum tempo mais tarde, uma vizinha, que não tem qualquer grau de parentesco com a senhora, avisa a polícia que ela desapareceu, que não sabe dela. A polícia regista, mas que mais pode fazer perante alguém que pode simplesmente querer arrombar a porta à senhora para lhe ver a casa? Há cada história por aí. A polícia deixa o caso registado: se houver alguma novidade já sabem onde procurar informação.

Há muitos casos de pessoas abandonadas, mas também não há poucas de pessoas que decidiram, elas próprias, abandonar o mundo de que não gostam. Há pessoas que são, simplesmente, muito pouco sociais. A polícia, o estado, deve proteger todos, sem dúvida, mas inclusivamente daqueles que também o quererão fazer. Nisto, a única coisa que me deixa curioso é como o condomínio não tinha uma chave do apartamento e não ligou após a senhora não pagar nada ao fim de tanto tempo.

Não nos iludamos: se amanhã o estado decidisse criar um sistema em que as pessoas teriam de fazer prova de vida (pelo menos após uma certa idade), o país caminharia para o fascismo.

Infelizmente o mundo não é perfeito e casos destes causar-me-ão sempre menos impressão que os dos vivos que vivem como mortos. A senhora, no período de 2003 a 2011, era apenas um pedaço de carne em decomposição.

Lamento a crueza, mas é como vejo a situação...
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De Teresa Ribeiro a 10.02.2011 às 21:42

A questão, João André, é que mesmo sem família se o tipo de relações que se estabelecem na comunidade fossem de uma natureza diferente, a senhora teria deixado, certamente, uma cópia da chave da sua casa a alguém da vizinhança. Provavelmente não se fecharia ao mundo, porque não sentiria o mundo como hostil. A questão de fundo é esta.
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De Carlos Faria a 10.02.2011 às 15:11

À excepção da vizinha, ninguém moveu uma palha para descobrir a senhora, mas foram capazes de lhe vender a casa sem ver o recheio de que a senhora fazia parte.
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De Ana Vidal a 10.02.2011 às 15:25

Isto deixa-nos amarfanhados, Teresa. Como é possível que durante 9 anos - 9 ANOS!!! - ninguém tenha dado pela falta da senhora, sobretudo a família? E como é possível que ninguém tenha ligado ao que a vizinha dizia? Entre os nossos próprios problemas e o medo dos desconhecidos, estamos a ficar uns perfeitos zombies. Que tristeza.
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De Teresa Ribeiro a 10.02.2011 às 21:44

Arrepia, Ana. E envergonha-nos.
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De Virgínia a 11.02.2011 às 09:28

Teresa, só agora vim ao Delito e não posso deixar de comentar este assunto tão chocante.
Depois de tudo o que ouvi e li também penso como foi possível a "Insegurança Social" com tantas "Técnicas" não ter averiguado depois de ver que a senhora não levantava a reforma.

O meu pai ficou tetraplégico com uma queda no quintal, que é bem grande e arborizado. Os nossos cães é que deram o alarme senão nós só davamos conta passadas duas horas quando ele não viesse almoçar. Se ele estivesse sózinho quanto tempo aguentava?

Eu penso, quanto tempo é que a senhora agonizou sózinha? Horas? Dias? Ou teria tido a benção de ter uma morte fulminante? E os pobres animais? É muito triste. Morreu em 2002, ano em que eu deixei de trabalhar para me dedicar a cuidar dos meus pais.


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De Teresa Ribeiro a 11.02.2011 às 13:10

Virgínia, também me interroguei sobre as condições em que a senhora terá morrido. Melhor nem pensar. Hoje li nos jornais que o sobrinho dela diz que foi por 13 vezes ao tribunal dar conhecimento do desaparecimento da sua familiar. Tudo isto é espantoso. Como a cr já aqui disse, o sistema só funcionou quando passou a estar em causa o incumprimento de uma dívida. Fale-se de dinheiro e tudo passa a funcionar.
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De Teresa Ribeiro a 11.02.2011 às 13:16

Correcção: não foi cr, mas Carlos Faria que chamou a atenção para o facto de o sistema só ter funcionado quando esteve em causa uma dívida por pagar.

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