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Delito de Opinião

Convidado: HELDER ROBALO

Pedro Correia, 10.02.11

 

Um povo de mansos

 

"É preciso mudar isto, já não se aguenta." A frase, com mais ou menos variação, corre de boca em boca com frequência. Emocionamo-nos com os Deolinda e aplaudimos de pé Ana Bacalhau enquanto entoa "que mundo tão parvo que para ser escravo é preciso estudar". Saímos do Coliseu e, pela rua fora, comentamos para o lado que "os gajos estão cheios de razão", que "isto era preciso outro 25 de Abril".

Ligamos a televisão e procuramos avidamente as notícias da revolução no Egipto, o povo na rua a exigir a mudança e, invejosos, logo disparamos que "era preciso algo assim mas era cá".

E, distraídos com os incêndios na Rússia, as cheias na Austrália, a revolução na Tunísia ou o ataque terrorista em Estocolmo, deixamos que o Governo nos vá ao bolso e nos tire ao salário mais dois pontos percentuais para pagar o IVA. Entretidos com a constante gatunagem da malta das gasolineiras, vamos dando graças aos sócrates por impedirem que o FMI entre por aí dentro e mande na nossa vida. Enquanto festejamos as goleadas às espanhas, patrões e governantes, sentados à mesma mesa, vão combinando como tirar mais um pouco do salário aos trabalhadores e até como os obrigar a subsidiar a sua própria indemnização. Mas com limites que isto está mal para as empresas e elas não podem andar aqui a dar indemnizações chorudas a esses malandros que só se preocupam com o tacho deles. “Vais para o desemprego aos 45 e agora, se quiseres trabalhar amanha-te, que ainda não tens idade para a reforma.”

Embalados pelos jornais e televisões com os crimes cometidos pelos renatos desta vida e pelas tricas e intrigas dos partidos à esquerda e à direita, nem reparamos que, nos intervalos, os proenças deste Portugal deram o seu aval para que os trabalhadores deixem mais de metade do seu salário nos recibos que têm a cor que devia ser de esperança.

E, no meio disto tudo, distraídos pelos bancos que não fecharam e deviam fechar, continuamos a reclamar que nos estão a ir ao bolso e que era preciso era o povo vir para a rua outra vez. Mesmo que, quando ele sai à rua, os olhemos de lado e digamos que são "uma cambada de malandros que não querem trabalhar". 

No meio disto tudo, na verdade, continuamos a reclamar por um novo levantamento de Abril. De preferência com os capitães a darem a cara por nós outra vez. Queremos a revolução na rua, sonhamos com uma mudança de vida, mas aceitamos de bom grado o salário de 400 euros a troco de doze horas de trabalho e, no final, ainda damos graças porque temos trabalho e há muitos que até o faziam de borla.

Afinal, ambicionamos por um futuro melhor e nem reparamos, ou fingimos não reparar, que nos estão a roubar o presente. Aplaudimos o aumento da escolaridade, lamentamos a subida do preço da gasolina e fingimos não reparar que a cada ano ganhamos menos. 

Queremos uma revolução, mas esquecemos que ela tem de começar em cada um de nós, que não podemos ficar à espera que outros a façam. Os outros que a façam que eu agora não posso.

Cantem os Deolinda odes ao "mundo parvo onde para se ser escravo é preciso estudar". Povo de doutores. E de engenheiros. Povo de mansos que tem medo de lutar.

 

Helder Robalo

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