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O "vazio" depois de Mubarak

por Pedro Correia, em 09.02.11

 

 

Da esquerda à direita, não faltam por aí certos opinion makers apostados em transmitir à plebe a noção de que a conquista de direitos fundamentais no Egipto é matéria de somenos, devendo moldar-se a critérios de natureza geoestratégica ou ao medo perante a possibilidade de vir aí "algo pior" do que Hosni Mubarak. Para o efeito, agita-se a todo o momento o cenário da revolução islâmica de Khomeini para demonizar as manifestações populares que estão a varrer parte do mundo islâmico. Confundindo deliberadamente o Irão de 1979 com o Cairo de 2011.

Estas considerações desembocam no puro relativismo político: procuram submeter a instauração de estados de direito a critérios culturais ou geográficos. Como se certos povos ou determinadas regiões não merecessem ascender à democracia.

Entre os comentadores a que me refiro destaca-se José Pacheco Pereira, mais bem informado que a maioria dos restantes mas tão preconceituoso como eles. Basta reparar numa prosa muito preocupada que publicou na última edição da revista Sábado. Passo a transcrevê-la com a devida vénia:

 

«No Egipto, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Mubarak, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, o Egipto foi a pátria ideológica da Al-Qaeda, e a organização que individualmente mais moldou o fundamentalismo islâmico é a Irmandade Muçulmana, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Nasser, Sadat e Mubarak, e representa uma presença activa contra o secularismo e a modernização da sociedade egípcia.

A queda de Mubarak significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um militar que sempre foi um travão à influência fundamentalista. Para haver democracia no Egipto não basta derrubar Mubarak, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda a Irmandade Muçulmana.»

 

É assombrosa, esta noção de que à eternização de um ditador no poder deverá seguir-se o vazio político. Imagine-se agora o que anotaria um observador norte-americano da mesma escola de pensamento de Pacheco Pereira escrevendo sobre Portugal no dia 28 de Abril de 1974 (três dias após a Revolução dos Cravos e no auge da Guerra Fria, portanto), adaptando apenas ligeiramente as suas palavras actuais à realidade portuguesa daquela época (os sublinhados, naturalmente, são da minha responsabilidade):

 

«Em Portugal, tudo pode ainda vir a correr bem, sem Caetano, e com mais democracia, mas o que se está a passar é ainda demasiado confuso para se começar a bater palmas. Na verdade, Portugal foi a pátria de diversos movimentos revolucionários, e a organização que individualmente mais moldou esses movimentos é o Partido Comunista Português, que, sabe-se, não teve até agora papel fundamental nos protestos. Mas o grupo existe, tem força e uma longa história de perseguições por parte de Salazar e Caetano, e representa uma presença activa contra a democracia e a liberalização da sociedade portuguesa

A queda de Caetano significa o fim de uma ditadura, mas também tira do poder um político que sempre foi um travão à influência comunista. Para haver democracia em Portugal não basta derrubar Caetano, é preciso impedir que, no vazio do poder, ascenda o Partido Comunista

 

Por outras palavras: podemos supor sempre o pior para justificar o injustificável. Também houve uma época em que não faltava quem garantisse que Portugal precisava do seu Mubarak para conter a expansão do comunismo.

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18 comentários

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De Álvaro Pereira da Silva a 09.02.2011 às 16:14

O seu visceral ódio ao Pacheco Pereira obnubila-lhe a mente.
Eu também não gosto do homem, mas não chego tanto, caramba!
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De Pedro Correia a 09.02.2011 às 17:01

Parece a experiência de Pavlov com o cão: fala-se em Pacheco Pereira e aparecem de imediato uns peões de brega, sempre anónimos, a lamentar o «ódio» contra o antigo líder parlamentar do PSD, como se fosse crime de lesa-majestade contestar tão eminente vulto. Nada se refere aqui de pessoal contra PP: limito-me a discordar dele e a rebater as teses dele com argumentos politicos. Não foi a primeira vez, nem será a última. Ao menos este blogue está aberto ao debate e à polémica. Ao contrário do que sucede com o blogue de Pacheco Pereira.
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De Álvaro Pereira da Silva a 09.02.2011 às 18:12

Olhe, não sou anónimo (apenas não tenho blog no sapo, o que me parece que, por enquanto, não é obrigatório...), não defendo o JPP (de quem até nem gosto, como disse) e concordo consigo quanto ao facto de o abrupto não admitir comentários.
Mas não posso deixar de lhe dizer que acho abusivo o exercício do seu post, exercício esse que me parece dever-se em grande parte à aversão que nutre pela pessoa em causa e frequentemente manifesta.
Quanto ao resto, estou-me nas tintas, entendeu?
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De Pedro Correia a 09.02.2011 às 19:02

Você insiste em ser o João Tiago Silveira do Pacheco Pereira. Lamento informá-lo mas o antigo líder parlamentar do PSD tem tido melhores porta-vozes nestas caixas de comentários.
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De Álvaro Pereira da Silva a 09.02.2011 às 20:09

Comparar-me a esse Silveira é um insulto que, evidentemente, jamais lhe perdoarei.
Podia, é claro, devolver-lhe a afronta, mas não estou para isso.
De qualquer modo, devo dizer-lhe: tomara qualquer dos "porta-vozes" a que se refere chegar-me aos calcanhares, seja em que matéria for.
Fiquemos, então, por aqui. Saúde!
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De Pedro Correia a 09.02.2011 às 22:45

Concedo-lhe razão: fui longe de mais. Retiro, pesaroso, o insulto que lhe dirigi.
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De Joana Lopes a 09.02.2011 às 19:09

Vasco Graça Moura, hoje no DN, consegue ser ainda pior do que JPP.
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De Pedro Correia a 09.02.2011 às 20:29

Vou ler, Joana. E provavelmente voltarei ao assunto. Nunca é de mais.
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De Teresa Ribeiro a 09.02.2011 às 21:38

Pois, não é a preocupação que se expressa quando se refere a possibilidade de o fundamentalismo islâmico usurpar o poder que constitui o problema, mas o desejo mal disfarçado de que tudo fique na mesma... Interessante, o exercício que propuseste. Dá que pensar.
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De Pedro Correia a 09.02.2011 às 22:45

Pois, Teresa. E se tudo deve ficar na mesma no Magrebe e Médio Oriente devido a considerações geoestratégicas, já sem Guerra Fria, por que motivo não deveria ter ficado também na mesma em Portugal e Espanha em 1974-75 por considerações igualmente de ordem geo-estratégica tanto mais que nessa altura o mundo atravessava o auge da Guerra Fria? É a este raciocínio que nos conduz a linha de pensamento expressa por JPP. Como é sempre possível imaginarmos o pior dos cenários - porque «o mundo está perigoso», como dizia o outro - o ideal é nada mudar.
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De Dylan a 09.02.2011 às 23:19

Da mesma maneira que o Pedro aponta a dedo quem confunde "deliberadamente o Irão de 1979 com o Cairo de 2011", também não posso deixar de criticar a colagem que faz destes acontecimentos no Egipto com o pós-25 de Abril. Desculpe Pedro, mas já não é o primeiro post em que menciona isso. Não é possível nem justo fazer este tipo de comparações, desde logo, porque se trata de diferentes culturas e realidades.
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De Pedro Correia a 09.02.2011 às 23:37

Caro Dylan, faz-me sempre muita impressão perceber que alguns democratas não celebram a queda de uma ditadura. Seja ela no extremo ocidental da Europa, no extremo oriental da Ásia, no extremo norte de África ou no extremo sul da América. Seja ela de esquerda - como a de Mubarak, que até era filiado na Internacional Socialista - seja ela de direita.
É sempre demasiado fácil dizer que as coisas não vão dar certo. E depois invoca-se, em abono desta tese, o Irão de 1979. Quem assim procede esquece todas as outras revoltas que deram certo. Felizmente foram muitas nos últimos 35 anos, nas mais diversas latitudes: a larga maioria deu certo. Mas essas não interessa invocar pois lá se esfumariam algumas razões de peso para tanto pessimismo militante.
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De Fernanda Valente a 10.02.2011 às 01:19

A analogia que o Pedro faz entre os dois momentos políticos é realmente bastante criativa e tem grande sentido de humor.
Penso, no entanto, que JPP não estará totalmente errado na apreciação que faz sobre as organizações islâmicas partidárias das doutrinas fundamentalistas, cujo principal objectivo é o de manipular os povos utilizando a religião como instrumento. O efeito dominó de repercussões incalculáveis, culminaria seguramente num volte-face de grande dimensão da geopolítica internacional. Por outro lado, convenhamos que os regimes políticos de ditadura também não se oferecem como solução para o bem-estar dos povos aos quais não são reconhecidos direitos de qualquer espécie.
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De Pedro Correia a 10.02.2011 às 10:20

Obrigado pelo seu contributo para o debate, Fernanda. Claro que JPP poderá não estar "totalmente errado na apreciação que faz sobre as organizações islâmicas partidárias das doutrinas fundamentalistas". Tal como o meu suposto observador norte-americano também poderia não estar totalmente errado nos receios que exprimiria a 28 de Abril de 1974 sobre a possibilidade de se instalar em Lisboa um regime comunista liderado por Álvaro Cunhal. Podemos olhar para a realidade - qualquer realidade - de diversas perspectivas. No final, e apesar das vicissitudades que bem sabemos, instalou-se em Portugal um sistema democrático. Não percebo porque não devemos conceder o mesmo benefício da dúvida aos países árabes. Por não terem tradição de democracia? Portugal também não tinha - antes de a ter.
Por outro lado, quem nos garante que a perpetuação das ditaduras cleptocráticas de Mubarak, Ben Ali e quejandos era o melhor antídoto para a propagação do extremismo islâmico? Como a Fernanda acentua, e bem, os «regimes políticos de ditadura também não se oferecem como solução para o bem-estar dos povos aos quais não são reconhecidos direitos de qualquer espécie». Gostaria de ver JPP e outros exprimir essa ideia com a mesma clareza. Porque não podemos defender a democracia a norte do Mediterrâneo e tolerar a ditadura a sul.

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De Fernanda Valente a 10.02.2011 às 11:36

Um regime comunista não é nem pouco mais ou menos comparável a um regime fundamentalista islâmico; os regimes comunistas cessaram ou transformaram-se em ditaduras geridas por militares - ou pró-militares - com o único objectivo de fortalecer o seu poder recorrendo às práticas economicistas de governação.
Por outro lado, existe uma diferença cultural - sentido lato - acentuada entre os povos do médio oriente e os povos europeus - Portugal incluído -, em que aos primeiros lhes bastará as condições mínimas de sobrevivência - "alimentando-se" essencialmente dos preceitos religiosos instituídos pelo fundamentalismo.
Também os elevados índices do crescimento demográfico não abonam a favor da formação de um sistema de governação assente em parâmetros literalmente democráticos, pelo menos no sentido em que o ocidente os conhece e pratica.
O receio dos EU e da Europa reside precisamente no facto de não se acreditar ser possível instituir um sistema de governo democrático nos países islâmicos, tendencialmente afectos aos regimes totalitários, em que "os direitos e interesses dos individuos se subordinam inteiramente aos da colectividade".
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De Pedro Correia a 10.02.2011 às 11:45

Fernanda, não há ditaduras boas, más e assim-assim. Todas as ditaduras são más. A de Cuba, a da Coreia do Norte, a do Zimbábue, a do Irão - e a do Egipto. Se amanhã a ditadura iraniana caísse, seria um motivo de alegria e de congratulação para todos os democratas. A Fernanda não festejaria? Como o é hoje a queda da ditadura egípcia. Não podemos ser democratas até metade da baía do Mediterrâneo e 'compreender' a ditadura na outra metade.
Certos povos e certas culturas não estão preparados para a democracia? Esse foi o argumento invocado durante quase meio século por Salazar para justificar a ditadura portuguesa. Simetricamente, invocou-se esse argumento para justificar a ditadura soviética. Afinal, mal ou bem, Portugal e a Rússia vivem hoje em democracia, que segundo Churchill é o pior dos sistemas excepto os outros todos.
E não me diga, por favor, que é impossível «instituir um sistema de governo democrático nos países islâmicos». Que é a Indonésia senão um país islâmico - por sinal o maior país islâmico do mundo?
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De Fernanda Valente a 10.02.2011 às 14:34

«não há ditaduras boas, más e assim-assim»

Assim como também não se poderá chamar de democrático a um regime em que o governo é directamente eleito pelo povo, mas cuja participação é unicamente extensiva ao acto eleitoral em si. No tempo de Salazar, o povo também exercia o seu direito de voto…

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De Pedro Correia a 10.02.2011 às 20:55

exactamente.

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