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O Estado Novo há 50 anos (1961)

por João Carvalho, em 04.02.11

 

VII – COMEÇA A GUERRA COLONIAL

"O assalto às prisões de Luanda"

 

A 4 de Fevereiro de 1961, uma conjugação de acontecimentos em Luanda volta a abalar o Estado Novo. Desta feita, o abalo é para durar: formalmente, marca o início da longa guerra que Portugal vai travar nas colónias africanas, a que o regime vai chamar Guerra do Ultramar (para dar sentido ao fim da designação de "colónias" e à sua consagração, irrelevante, como "províncias ultramarinas"). A data é tão importante para Angola que o aeroporto de Luanda, depois da independência, vem a receber o nome de Aeroporto 4 de Fevereiro.

O conjunto de acções vulgarmente apelidado como "o assalto às prisões de Luanda" refere-se ao ataque concertado levado a cabo naquela cidade a 4 de Fevereiro, por militantes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), contra a Cadeia de S. Paulo, a casa de reclusão militar, uma esquadra ou posto policial, as instalações da Emissora Oficial de Angola (Emissora Nacional) e outras repartições públicas.

 

A iminência de uma guerra inevitável já é sabida em Lisboa, naquela altura. Esse dia 4, de resto, não parece que tenha sido escolhido ao acaso: apesar do desfecho do "assalto ao Santa Maria" em terras do Brasil, na véspera, ainda muita gente espera que Henrique Galvão acabe por conseguir levar o paquete até Angola e, por isso, há uma quantidade de repórteres de vários países em Luanda, prontos a cobrir esse caso.

Tudo indica que é a possibilidade de ampla cobertura internacional que despoleta a acção do MPLA, interessado em ganhar visibilidade. A decisão tem de ser tomada rapidamente, para assim aproveitar a presença favorável de diversos órgãos de comunicação social estrangeiros.

 

É impossível escamotear a ligação entre a acção em Luanda e a revolta prolongada e mal pacificada na Baixa do Cassange, onde os negros que trabalham na cultura do algodão da poderosa Cotonang (luso-belga) se manifestam desde o início do ano contra as condições impostas e os salários. Ainda em Janeiro, à greve dos indígenas no Cassange contrapõe-se a força de militares e polícias mobilizados para essa região e que os perseguem por ar e por terra. Os tumultos agudizam-se e o regresso à normalidade — apenas aparente — dá-se à custa da chacina de muitos revoltosos e seus familiares, fuzilados entre os supostos cabecilhas da revolta.

A Baixa do Cassange é influenciada pela região vizinha do ex-Congo Belga, país já independente desde 30 de Junho do ano anterior, onde também se estendem  as imensas plantações de algodão que exploram mão-de-obra intensa e com obrigações que são praticamente impossíveis de cumprir. Com a deslocação de efectivos militares e policiais para controlar os protestos no Cassange, Luanda é uma cidade pouco segura nesse momento. A segurança precária e a presença de jornalistas estrangeiros são os aspectos determinantes, mas o primeiro objectivo do assalto às prisões consiste em soltar dirigentes do MPLA que estão presos.

 

Além de diversos atacantes mortos nesse 4 de Fevereiro, do lado oposto perdem também a vida um cabo do Exército e sete agentes policiais. O funeral destes em Luanda culmina em mais violência: previamente armados, vários elementos da população branca perseguem os indígenas pelas ruas da cidade e arredores, matando muitos deles (há quem fale em três mil mortos).

Estas feridas abertas juntam-se às hostilidades mais antigas. De acção em acção, de resposta em contra-resposta, estão traçados os contornos de uma guerrilha que opõe, numa visão grosseira, colonos e negros ou brancos e indígenas, sujeitos a um estatuto oficial que não concede igualdade de cidadania às duas partes. Lá no fundo, cresce e persiste a vontade de libertação, consubstanciada no direito à autodeterminação reivindicado pelos líderes, muitos deles possuidores de preparação intelectual e académica obtida em território continental — na velha Metrópole, que acorda tarde para a necessidade de ter quadros superiores no seu Ultramar.

 

A guerra colonial há-de estender-se à Guiné, em 1963, e a Moçambique, em 1964. Vai durar longos anos e, em certa medida, como que acaba por fornecer uma inesperada legitimidade ao salazarismo, que sai reforçado ao aproveitar para unir os portugueses, tanto quanto possível, em torno de uma causa nacional de relevância óbvia. Por outras palavras: há muito que não há uma causa que justifique o prolongamento do regime e essa defesa do solo pátrio vem dar um novo fôlego (apenas interno, que não externo) à manutenção do Estado Novo. Tratando-se de operações de guerrilha, é de fraca precisão tentar saber quem ganha ou quando e onde se ganha. Só se sabe que Portugal apresenta o maior esforço de guerra europeu no pós-Guerra e que, à época, as antigas colónias africanas pertencentes a países da Europa estão a obter a sua independência a bom ritmo.

O nosso país (leia-se: o regime) não quer abdicar dos territórios do velho Império, mas o quadro social muda substancialmente a partir de 1961. Por um lado, a emigração (clandestina ou "a salto") tem mais uma razão de ser: fugir à guerra, o que significa recusar o cumprimento do serviço militar obrigatório. Por outro lado, as famílias portuguesas absorvem um novo ritual: a despedida dos seus filhos, pais, irmãos e maridos que embarcam no cais de Alcântara, o drama do adeus aos soldados que partem. Muitas vezes, é o último adeus.

 

Imagens

· Luanda: o Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro

· Monumento angolano aos Heróis do 4 de Fevereiro

· Placa com palavras de Agostinho Neto alusivas

à fundação do MPLA em 1956

· Primeiro dístico (raro?) do MPLA (integralmente

escrito em francês)

· Funerais em Luanda após o 4 de Fevereiro

· Embarque de tropas no Tejo

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16 comentários

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De zeparafuso a 04.02.2011 às 07:59

Eu sempre disse que o DO ensina. Aprende-se História. DO é cultura. Em frente João. Obrigado pelos ensinamentos e recordações.
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De João Carvalho a 04.02.2011 às 13:25

Grato pelo que veio dizer aqui, Zé.
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De Pedro Correia a 04.02.2011 às 11:48

Adorei aquela placa espírita que alude ao «olhar silencioso de Lenine», falecido em 1924 mas ainda atento ao lenininismo luandense nesse ano de 1977, tão trágico para Angola.
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De João Carvalho a 04.02.2011 às 13:27

Ainda bem que o dizes, porque eu não consegui fazê-lo no texto (sob risco de transformar a história numa anedota).
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De d.a.i a 04.02.2011 às 13:48

Até parace mal dar-te os parabéns, mas está mesmo muito bom. Do meu ponto de vista, vem colmatar episódios que faltam na História. Em relação a este tema, tudo o que leio, anda sempre à volta do mesmo.


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De João Carvalho a 04.02.2011 às 13:54

Os acontecimentos do 4 de Fevereiro, tanto quanto sei, não estão historicamente registados. Uns são apaixonados, escritos na primeira pessoa por quem os viveu ou teve deles conhecimento mais ou menos directo, outros são superficiais e sem grande valor, outros são pouco fiáveis, sem rigor e até contraditórios.
Tive de traçar uma bissetriz e tentar fazer uma modesta análise distanciada, com base em factos envolventes e intuídos.
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De ariel a 04.02.2011 às 14:59

Interessante a escolha do dia 4 se relacionar com o desfecho do assalto ao Santa Maria. O alinhamento dos acontecimentos torna-se evidente. Era muito miúda em Moçambique, mas lembro-me bem das pessoas falarem em surdina na matança em Angola....
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De João Carvalho a 04.02.2011 às 15:40

O ano 1 da guerra ainda há-de voltar, é claro, com outros acontecimentos de 1961.
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De Pedro Correia a 04.02.2011 às 21:20

Os massacres no norte de Angola começaram dia 15 de Março, com a ofensiva da UPA, do Holden Roberto. Março será um mês com muito para referir nesta série.
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De João Carvalho a 04.02.2011 às 21:55

Mesmo muito.
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De fernando antolin a 05.02.2011 às 22:02

1961 culminou o que já se iniciara no então chamado Estado da India,em 1954. E tudo só terminou em 1974. Acho que neste País continuamos a maltratar os que durante treze anos se sacrificaram, de G-3 e camuflado,sim falo dos antigos combatentes portugueses. São olhados envergonhadamente,como párias ou alguém que nos envergonhou. O monumento ali no Dafundo está quase(et pour cause...) escondido. Passo lá sempre que posso.Vou conversar com amigos que lá estão...
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De João Carvalho a 05.02.2011 às 22:25

Como estou longe, peço-lhe que dê um abraço por mim a alguns que lá devo ter, Fernando.

(O Estado da Índia também se foi em 1961.)
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De Daniel Letras a 04.02.2011 às 17:06

É uma sensação estranha estarmos aqui onde tudo aconteceu e ler para aprender como as coisas se passaram.
Sim, porque se o tabu persiste por terras lusas, aqui o tema também não dá para muitas conversas. Os traumas de ambos os países ainda são muitos.
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De João Carvalho a 04.02.2011 às 17:56

Acho que entendo o que quer dizer, Daniel.
Um abraço.
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De macarvalho a 06.02.2011 às 13:19

A ponte de passagem do Recife para Angola está muito bem feita e, continuo a afirmar, de uma clarividência rara.

Aqui, a História tem muito por contar, pois o que assistimos desde há mais de 30 anos é de um período negro que temos forçosamente de esconder, como se de ladrões ou assassinos se tratassem.
E apenas vemos um lado da história.
Quase poderia comparar aos casapianos que parecem sempre estar em vias de serem condenados e os arguidos entretanto acusados, de serem absolvidos.
Parece que foi crime defender o que era nosso e continua a ser crime honrarmos os nossos heróis.

Pequenina como era, dificilmente perceberia como 1961 foi verdadeiramente horrível para o País.
Percebi apenas, e porque mais de metade da família passara e voltaria a passar e a viver em África, que as nossas províncias ultramarinas eram nossas e tinham de ser defendidas. E quão bravo foi esse esforço de guerra, de paz e desenvolvimento, para um País tão pequeno como o nosso.
Também aqui há mais de 30 anos que não se fala do assunto, com uma ligeira excepção, aquando do acordo de venda da nossa participação em Cabora Bassa ao estado moçambicano.
"Esta maravilhosa obra humana constitui um verdadeiro hino à inteligência, um promotor do progresso, um orgulho para os empreiteiros, construtores e trabalhadores desta fantástica realização.... Os trabalhadores moçambicanos e portugueses, fraternalmente, juntando o suor do seu trabalho e dedicação.....! dirá Samora Machel em 1986, sobre a obra iniciada em 1969.

Tens toda a razão quando afirmas que esta guerra que duraria longos anos, confere inesperada legitimidade ao regime e justifica naturalmente o seu prolongamento.
Porque ressurge um sentimento patriótico sem igual, apesar das lágrimas de despedida.
Nunca houve nem haverá semelhante empolgamento de união e patriotismo, que até agora não nos é sequer permitido abordar.
Esse mesmo patriotismo que vejo hoje e desde sempre nos nossos vizinhos espanhois, e que nós perdemos e escondemos há mais de 30 longos anos.
Como somos diferentes ... sem alma e sem garra! Apenas espectadores do nosso próprio destino.

A frase emblemática do regime, o "ogulhosamente sós", caracteriza bem essa época, pressionados pelo mundo inteiro para acabarmos com a guerra em África, também pela ONU, sem aliados e com a certeza que as nossas províncias ultramarinas, ricas em algodão, café, diamantes, petróleo, são o alvo cobiçado de duas super-potências: EUA e Rússia, cada uma delas a financiar os respectivos movimentos de libertação.
Para além disso, com um solo riquísismo, que ainda hoje deixa por perceber como é possível morrerem de fome, quando a cultura brota naturalmente do chão.

Há também um outro ponto onde estamos de acordo: o regime acordou tarde demais para a necessidade de ter quadros superiores no Ultramar.
No entanto, na minha humilde opinião, é difícil estar em todas e muito se fez em várias frentes.
Tenho muito orgulho nessa época e nas pessoas que fizeram História, contra tudo e contra tantos.
Deixamos Obra, deixamos desenvolvimento, conquistamos populações, nunca tão poucos fizeram tanto, só igualados pela época áurea dos Descobrimentos.
Como em tudo, infelizmente, também coexistem o Bom, o Mau e o Vilão. Lá, como cá, como em todo o lugar, no meio de todos nós.

Parece que me alonguei demais ... mas sem mim, não seria a mesma coisa, pois não?


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De João Carvalho a 06.02.2011 às 13:58

Pois não. E nem tudo é o pior do muito mau, nem o melhor do muito bom. As colónias passaram a províncias ultramarinas para perorarmos na ONU que Portugal era um só país, mas com território descontínuo. É evidente que isso não se ajustava à independência que era dada às colónias vizinhas de outros países europeus e ainda se ajustava menos ao estatuto desigual conferido pelo Estado aos metropolitanos e aos indígenas, o que a preparação tardia de quadros superiores entre os indígenas também não ia resolver.

De resto, talvez não fosse importante que o mundo nos pressionasse, mas era relevante que as pressões nos chegassem nas Nações Unidas pela voz dos países civilizados deste meio-mundo a que pertencemos, países grandes e outros pequenos, bem mais pequenos que nós. Ninguém adivinhava que chegaria a globalização, mas toda a gente entendia que o mundo se estreitava decidida e irreversivelmente.

Além do mais, é certo que a defesa dos territórios foi muito bem aproveitada pelo regime como causa nacional, que resolveu o seu alongamento no tempo, mas não é menos certo que, no pós-Guerra, Portugal teve todas as oportunidades para se abrir, à semelhança do resto da Europa para cá da cortina-de-ferro, mas preferiu ficar no "orgulho solitário" (nem a Espanha serviu para desenvolver uma Ibéria moderna). Náo se abriu e o país perdeu o comboio dos novos tempos, que era afinal o veículo do desenvolvimento, da liberdade, da paz e da tolerância que marcou a segunda metade (o terceiro quartel, em especial) do século XX.

Quanto aos heróis da guerra colonial, tens razão: não se justifica o tabu, que até nos empobrece colectivamente. O regime estava caduco e alimentava uma política obsoleta impossível de alimentar no caminho civilizado do pós-Guerra, mas os heróies da pátria merecem muito mais, pelo simples facto de terem respondido à chamada nacional, com um patriotismo que foi partilhado pelas famílias dos vivos e dos mortos.

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