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O Estado Novo há 50 anos (1961)

por João Carvalho, em 02.02.11

 

V – "OPERAÇÃO DULCINEIA"

O "assalto" ao Santa Maria (4)

(continuação)

A 2 de Fevereiro de 1961, o Santa Maria dá entrada e fica ancorado no porto de Recife. Há centenas de jornalistas a cobrir o caso, o que chama a atenção da comunidade internacional para o regime político instalado em Portugal. Paralelamente, quem está também no Recife é Humberto Delgado, que chegara ao paquete na véspera, no barco de pesca alugado por repórteres da Time e da Life. A presença de Delgado e a maneira como ele quer sobressair gera grande desaguisado entre os rebeldes espanhóis, já crispados pela evidente liderança portuguesa da operação.

Dias antes, o francês Dominique Lapierre, jornalista do prestigiado semanário francês Paris Match, está nos EUA quando se sabe do caso na sede da revista. Recebe dez mil dólares (montante então apreciável) e instruções para voar para o Recife, a fim de obter toda a história da "Operação Dulcineia" da boca do próprio Henrique Galvão — e em exclusivo.

 

Ao chegar ao Recife, com o paquete ainda a movimentar-se ao largo da costa, Dominique Lapierre calcula que encontra aí um milhar de enviados especiais em reportagem e fica aflito. "Pela primeira vez vi um jornalista chinês!" — diz ele mais tarde. Acompanhado pelo fotojornalista da Paris Match Gil Delamare, percebe que tem de improvisar: aluga uma avioneta e toma parte entre os poucos que vão com antecedência ao encontro do paquete. Delamare até se lança do pequeno avião para fazer as primeiras fotografias e é recolhido da água pelos norte-americanos. Deste modo, já faz tempo que estão instalados a bordo quando começam a subir ao barco muitos outros repórteres.

Lapierre tem apenas de continuar a ser imaginativo para ganhar a confiança de Henrique Galvão e obter o exclusivo para a revista. Entrara disfarçado de bombeiro e não perde tempo ao avistar Galvão. Estende-lhe a mão e dispara: "Tem aqui dez mil dólares para a sua causa." É assim que combinam encontrar-se numa cabina previamente destinada ao jornalista, onde este recebe do "pirata" português o relato pormenorizado da operação e a garantia do exclusivo (o que interessa a ambos, afinal). "Foi um exclusivo mundial" — conta Lapierre. "Falou um francês sublime durante toda a noite. Via-se que era um fidalgo."

 

Salazar mandara agentes da PIDE e membros da Legião Portuguesa para o Recife: não podem actuar, mas podem ser úteis. Durante a noite daquela entrevista, alguns homens da PIDE estão já a bordo e mantêm-se à escuta do lado de fora da porta da cabina até às tantas da madrugada. No final, quando os dois saem para comer qualquer coisa, Lapierre mostra receio pelo perigo de serem surpreendidos pelos agentes, mas Galvão tranquiliza-o com ironia: "A polícia secreta de Salazar tem horários de funcionário público."

O jornalista há-de recordar essa e outras passagens da conversa que mais o impressionaram, entre as quais a descrição do momento em que Henrique Galvão tinha mudado o nome do paquete. «Os passageiros estavam a tomar o pequeno-almoço quando ele falou aos microfones e disse: "Tenho a honra de vos informar que não estão mais no Santa Maria, mas no 'Santa Liberdade'."»

 

Os passageiros começam a mostrar-se nervosos e a tripulação está a ficar tensa. Já é dia 3 e ainda se sucedem as negociações entre os rebeldes e as autoridades norte-americanas (com o vice-almirante Allen Smith à cabeça) e brasileiras. Henrique Galvão está a assegurar que o desembarque e a entrega do navio hão-de correr pelo melhor. Sobretudo, apesar da impaciência de muitos passageiros, está a fazer render o tempo, não só para que o novo governo brasileiro entre plenamente em funções, mas também para deixar que continue a haver despachos noticiosos e reportagens para toda a parte.

Por fim, chega a hora de desembarcar os passageiros e, a seguir, a tripulação. O navio é entregue às autoridades do Brasil, que o devolvem aos representantes de Portugal: um comando e elementos da Legião Portuguesa entram a bordo nessa noite. Por seu lado, Galvão e Delgado sentem-se satisfeitos: acreditam ter provocado os estragos possíveis ao salazarismo e alertado a comunidade internacional para a realidade política que vigora em Lisboa. Pela mão de Lapierre, uma conhecida revista francesa vendida em muitos países está prestes a confirmar isso mesmo.

(continua)

Imagens

· O Santa Maria ancorado no porto de Recife

· O paquete (duas fotos) ao largo da costa de Pernambuco

· 'Santa Liberdade': os rebeldes conservam o novo nome até ao fim

· Recife: Galvão em dois momentos das negociações a bordo

(o vice-almirante Allen Smith à esquerda)

· Momentos (duas fotos) do desembarque dos passageiros

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20 comentários

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De ariel a 02.02.2011 às 12:24

Dizer que "A polícia secreta de Salazar tem horários de funcionário público" só mesmo por ironia arrogante, João, Humberto Delgado que "o diga"..., enfim fanfarronices de caserna.

:)))
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De João Carvalho a 02.02.2011 às 12:47

Não se esqueça: Galvão disse-o no Recife, onde os agentes não podiam actuar, pelo que a ironia lhe foi perfeitamente possível..
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De ariel a 02.02.2011 às 13:39

Claro João, é exactamente esse o ponto...
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De João Carvalho a 02.02.2011 às 18:22

E a luz fez-se!
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De Luís Bonifácio a 02.02.2011 às 21:57

Não sei se os agentes seguiam os horários da função pública, mas os sensores não sabiam ler francês. As duas edições da Paris-Match circularam livremente por Portugal. As minhas estão bem guardadas!
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De João Carvalho a 02.02.2011 às 22:43

Lá isso é verdade. Conserve-as bem, meu caro.
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De Pedro Correia a 02.02.2011 às 23:55

Hum... Quanto quer por elas, Luís?
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De Luís Bonifácio a 03.02.2011 às 00:23

Não vendo por preço algum caro Pedro
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De João Carvalho a 03.02.2011 às 00:39

Faz muito bem, Luís. O Pedro brincava, está claro (não custa nada tentar).
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De Pedro Correia a 03.02.2011 às 01:20

Estava a brincar, claro (mas não custa tentar, como o João diz...)
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De Luís Bonifácio a 03.02.2011 às 00:21

Pode ler aqui a reportagem

http://novafloresta.blogspot.com/2008/08/no-apaguem-memria-os-censores.html
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De João Carvalho a 03.02.2011 às 00:47

Muito grato. Já lá fui buscar essas páginas da 'Paris Match'.
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De Pedro Correia a 02.02.2011 às 23:54

Se fosse em Portugal, nos tempos que correm, o Dominique Lapierre (que mais tarde ficaria célebre também pelos seus livros 'Oh Calcutá' e 'Paris Já está a Arder'?, entre outros) teria que dizer adeus a este exclusivo mundial ou corria o risco de ser sancionado pela Comissão da Carteira, que lhe apreenderia burocraticamente o título profissional por ter obtido declarações de Henrique Galvão mediante pagamento.
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De João Carvalho a 03.02.2011 às 00:49

Seguramente. E a ERC ficaria reunida aí por uns bons três meses a analisar a 'Lisboa-Match'.
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De Pedro Correia a 03.02.2011 às 01:21

Aposto que no final daria 'match' nulo.
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De João Carvalho a 03.02.2011 às 02:35

Já agora, deixo aqui o meu anúncio: dia 3 termina "o assalto ao Santa Maria" e dia 4 "começa a guerra colonial".
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De macarvalho a 06.02.2011 às 11:15

Tenho seguido estes posts e devo dizer que com muito interesse.
Este momento, para além do interesse histórico e da manifesto estrago ao regime, já que salta para as capas dos jornais internacionais e das revistas da época, é para Henrique Galvão, perfeitamente clarividente, o estrago suficiente e possível.
Ser capa do Paris Match, é um feito!
Desconhecia tantos pormenores, que recheiam todo esta epopeia.
Humberto Delgado, mostra, desde sempre, como é perito em colar-se aos grandes momentos, já perfeitamente a salvo.
Falhou uma vez ... faltou-lhe a estrelinha da sorte nesse dia!
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De João Carvalho a 06.02.2011 às 11:51

Tens razão no que dizes.

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