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As revoluções JÁ levam muito tempo

por Fernando Sousa, em 01.02.11

O grito de liberdade que alastra no Norte de África e vai no Médio Oriente é galvanizador. É impossível ficar indiferente. Multidões pedem reformas políticas, sociais e económicas ! Mas onde irá desaguar a onda é um mistério. Anos depois da conferência de Viena sobre a Declaração Universal de Direitos Humanos - a quem ninguém ligou peva, literalmente - as teses relativistas, defendidas, entre outros, pela generalidade dos países árabes, cedem perante as universalistas. Mas por muito que isto signifique um avanço promissor ao encontro de tudo o que há de mais fundo e comum no homem, há que pensar. O grito mais sagrado das democracias modernas – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – andou até nas ruas de Xangai, durante a Guerra do Ópio, mas não pegou - como se sabe e vê. Os russos saltaram do feudalismo para o comunismo, o futuro-mais-que-perfeito, e tiveram de recuar com a implosão da URSS, desaguando nessa coisa informe que agora têm que é o regime Medvedev-Putin. Pelo contrário, todos os sobressaltos dos países da América Latina, desde as independências, têm um enquadramento cultural, quase diria um alinhamento, bem claro. É bem possível que as revoluções, para produzirem alguns efeitos imediatos, mesmo contando com os passos que dão atrás, tenham de assentar numa matriz e caminhar por etapas, que é o que me escapa nestas aparentemente em curso. Todos os fenómenos políticos têm ancoradoros históricos nas culturas e nas mentalidades, não bastam as motivações. Quais são os destes? Pergunto, porque não sei.

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13 comentários

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De Manuel Lage a 01.02.2011 às 22:21

Eu também não sei. O único comentário que posso fazer é: Vamos aguardar.
E que pena nós não estarmos agora no Cairo, em Alexandria, Suez, lá. Perceberíamos melhor.
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De Fernando Sousa a 01.02.2011 às 23:06

Como na Jamba, Manel? Mas aí sabíamos onde estávamos, quem era quem e o que queria - mal ou bem. Até ali as coisas bem mais claras. E era África, repara. Abraço grande.
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De Rogerio Pereira a 01.02.2011 às 22:36

Continuemos pois... observadores. Temo que as noticias sejam as mesmas que tivemos por aqui, algum tempo depois dos cravos de Abril...
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De Pedro Correia a 01.02.2011 às 22:59

Caro Fernando: sinto nestes dias, no mundo árabe, uma vontade muito forte de varrer de vez os regimes despóticos que têm feito sofrer aqueles povos há várias gerações. Se dos despojos do antigo Império Otomano, um pouco mais a norte, nasceram sociedades democráticas (incluindo a própria Turquia), percebe-se mal que na ala sul do que foi esse império quase só subsistam ditaduras. Encontro muitos paralelos entre o que se passa hoje ali e o que sucedeu há duas décadas na Europa de Leste. E mesmo no Extremo Oriente, onde regimes ditatoriais, como o das Filipinas e o da Coreia do Sul, deram lugar a democracias sólidas. Acompanhei bem estes dois casos e pude concluir que todos os vaticínios pessimistas então formulados foram (felizmente) desmentidos pelos factos.
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De Manuel Lage a 01.02.2011 às 23:21

Vamos aguardar. Poucos dias... Mas alguns.
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De Fernando Sousa a 01.02.2011 às 23:25

Percebo o que dizes, Pedro. Mas eu vejo a Turquia como um caso excepcional em toda a sua história, desde a queda de Constantinopla até hoje, um recanto diferente, um ponto de encontro de civilizações e portanto de tensões. Além disso - e concordarás - a democracia turca tem uma componente militar, que é o preço que paga para a ter. Dos regimes da Europa de Leste penso que estão suficientemente perto da matriz europeia para terem uma história para contar. Misturando os dois casos, repara como os primeiros entraram na UE e no esforço que os turcos têm de fazer para cá chegar. Quanto aos exemplos do Oriente não consigo separar as democracias que têm das que foram obrigadas a ter por força de quem no fundo manda lá - e sabemos quem. De resto estou de acordo contigo.
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De Pedro Correia a 01.02.2011 às 23:45

Claro. De qualquer modo, se o Egipto evoluir para uma solução à turca já dará um passo muito grande na direcção certa.
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De Fernando Sousa a 02.02.2011 às 02:51

Absolutamente de acordo, Pedro. Abraço
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De Francisco Castelo Branco a 02.02.2011 às 01:13

o problema disto tudo é o poder cair em mãos erradas e aí é que não há manifestações para ninguem
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De Fernando Sousa a 02.02.2011 às 13:41

É de facto o risco maior, tanto quanto é verdade que as poucas mãos certas no país, desde logo ElBaradei, teriam sempre de governar com um apoio parlamentar que desse garantias mínimas aos gritos de liberdade que se ouvem nas ruas. E donde viria este?
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De Francisco Castelo Branco a 03.02.2011 às 00:29

Viria da rua.

A oposição juntava-se agora mas depois cada um iria para seu lado, até nova confrontação nas ruas...

este povo é muito corrupto e não sabe viver em democracia. Tem sido assim ao longo dos tempos...
isto é mais um episodio
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De Pedro Coimbra a 02.02.2011 às 04:08

São casos diferentes.
Mas têm traços comuns - grandes desigualdades sociais, grandes disparidades na distribuição da riqueza, regimes tiranos (de cariz policial na Tunísia e de cariz militar no Egipto), classes médias com um grau de instrução muito superior ao que tinham até há bem pouco tempo, com acesso rápido à informação.
Outro grande traço de diferença - na Tunísia não há um líder; no Egipto há ElBaradei.
Mas vamos estar atentos ao que vem a seguir.
Estas mudanças não são necessariamente para melhor.
E os exemplos dessa realidade são tantos que nem vale a pena enumerá-los.
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De Fernando Sousa a 02.02.2011 às 13:54

É verdade, Pedro. Só sublinharia um pormenor: para já, o que está a acontecer nestes países são levantamentos, revoltas, não revoluções. A onda de indignação popular terá certamente consequências. Terá efeitos nos regimes. Mas não vejo que tenha contornos aptos a mexer, para já, com as bases das culturas políticas locais, mesmo nos países mais ocidentalizados do Norte de África. Além disso alterações radicais mexeriam com interesses regionais e outros. Penso que temos de olhar para o que está a acontecer como o xadrezista numa simultânea.

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