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O Europa e os Estados Unidos gostam de afirmar-se campeões da democracia. Trata-se, todavia, de uma proclamação com validade limitada no espaço. A mesma voz que enaltece os valores da liberdade ocidental tem apoiado velhos regimes autocráticos instalados na margem sul do Mediterrâneo. A submissão das massas populares dos países em causa facilitou, ao longo dos anos, a permanência dessa contradição, permitindo um silêncio complacente nas intervenções públicas sobre o assunto. Com a relação entre Israel e a Palestina a dominar a agenda americana e a Europa sempre incapaz de se articular em torno de uma diplomacia coerente, a democratização dos regimes do sul da bacia mediterrânica podia e devia esperar. Pelo meio, admite-se, alguma pressão diplomática inconsequente, em surdina, no aconchego dos gabinetes. A faísca tunisina veio, no entanto, alterar o estado de adormecimento dos povos vizinhos de tal forma que a questão já não será qual o próximo regime a abanar (ou a cair), mas qual dos regimes autocráticos ou militarizados da região será capaz de sobreviver. Perante a crise egípcia, que parece caminhar resolutamente para o precipício de um banho de sangue, a Europa vai sussurrando a várias vozes uma cantilena imperceptível. A administração americana, por seu lado, opta ainda por uma posição ambígua de apelo à implementação de reformas como contrapartida para estancar a violência. Obama devia saber que a vertigem revolucionária no Egipto não tem ouvidos para ecos longínquos e que as únicas vozes que têm uma remota possibilidade de ser ouvidas são as transmitidas pela Al-Jazeera. E que mesmo em relação a estas é duvidoso que se consigam sobrepor aos gritos que circulam nas redes sociais das mil e uma noites dos jovens egípcios. São estes que já não se contentam com medidas pontuais como subsídios ao preço dos cereais ou com a substituição de um governo para que tudo fique na mesma. O jogo que se iniciou nas ruas de Tunis e que agora se disputa nas do Cairo é um mata-mata. Ou morre o regime (agora ou mais logo) ou morrem milhares nas esquinas da revolução. Por uma vez, a diplomacia ocidental, acostumada aos interesses dúbios, à ambiguidade e à duplicidade, vai ter que tomar partido. Ou está do lado do esmagamento da rebelião pelos actuais detentores do poder no Egipto e nos estados que se seguirem no dominó da revolução, ou está do lado oposto. As meias tintas não são, neste caso, terra de ninguém. Pelo contrário, são o exacto local onde está o pasto que pode alimentar o incêndio do fundamentalismo islâmico. E as colunas de fumo que se levantam dos subúrbios do Cairo são o sinal evidente de que o tempo para decidir é, nem mais nem menos, o que resta até ao jovem militar Samir premir o gatilho da arma que tem apontada a Khalil, o não menos jovem universitário que, empurrado pelo twitter, acabou de chegar a uma avenida do centro do Cairo para lutar pela liberdade.

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