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Delito de Opinião

Convidado: EDUARDO LOURO

Pedro Correia, 28.01.11

 

Figuras e representações

 

Em meados dos anos 30 do século passado Peter Drucker (1909-2005) – ilustre economista e grande teórico da gestão moderna – trabalhou numa sociedade financeira da City londrina liderada por Ernest Freedberg, então já quase octogenário, a roçar o excêntrico e um banqueiro dos antigos. Que, imagino, o impressionou fortemente, ou não lhe tivesse dedicado todo um capítulo das suas memórias (Memórias de um economista – Um homem entre dois mundos, edição da Difusão Cultural), onde descreve as mais variadas peripécias e histórias de impressionante sagacidade e de ímpar instinto empresarial.

Li estas suas Memórias há já há alguns anos – mais de uma dúzia – e uma dessas histórias nunca mais me saiu da cabeça. Conto-a, de memória, em poucas linhas:

Um dia apareceu-lhe um tipo, recomendado pelo vice-governador do Banco de Inglaterra, com uma proposta de parceria irrecusável. Para além desse cartão de visita era portador de insuspeitas referências e trazia já em carteira os maiores bancos da City. O Sr Freedberg, contra a opinião de todos os seus sócios – extasiados por um negócio fantástico que por nada queriam perder – recusou a proposta. O homem é um aldrabão, sentenciou!

Passados três meses o tipo desapareceria com meio milhão de libras sacados aos tais maiores bancos da City. Logo perguntaram ao Sr Freedberg como é que tinha intuído a aldrabice do homem. Explicou que era óbvio: o tipo vinha preparado com respostas para todas as perguntas, coisa que os homens honestos não fazem nem precisam de fazer.

 

 

 

Os tempos mudaram e hoje já ninguém pensa assim. Ninguém quer pensar assim.

Hoje exigem-se respostas prontas para todas as perguntas. Prontas, na ponta da língua, mas também as melhores respostas, num formato alcunhado de desempenho em que o que conta é a imagem. É da imagem que se projecta, e da sua capacidade de impressionar, que hoje se faz a vida. Que se faz ou não faz vida!

Hoje percebe-se que, muito mais importante do que o que se é, é a impressão que se deixa. É a importância do imediato, do sound byte. O drama da oportunidade única e imperdível – e logo a primeira – para causar uma boa primeira impressão!

Percebe-se que, por isso, tenha surgido uma nova indústria de transformação de pessoas, afastando-as do que são para as aproximar daquilo que querem parecer que são. Uma indústria que, a partir da opinião do Sr Freedberg, mais não seria que uma fábrica de aldrabões: necessariamente uma actividade muito pouco abonatória.

Prolifera em todas as áreas de actividade mas é na política que encontra o ambiente mais favorável. Que a democracia – o pior dos sistemas à excepção de todos os outros, na sábia opinião de Churchill –, vivendo de simbolismo e de representação, promove sem paralelo projectando muitas vezes o pior de gente medíocre no melhor da melhor gente.

 

 

 

Aí esteve a campanha das presidenciais a ilustrar tudo isto, transformando gente sem ideias e sem qualquer tipo de interesse em candidatos ao mais alto cargo de representação da pobre democracia portuguesa. Passeando pelo país como meros animadores de rua – uma palhaçada aqui, uma graçola ali ou um pé de dança acolá – e brindando-nos com autênticos tesourinhos deprimentes: os impropérios de um, que brinca com um submarino na mão, os saltos para cima do tejadilho do carro de um outro, de mãos dadas com uma senhora que só tem uma reforma de 800 euros, sempre a abanar a cabeça ao jeito daqueles cãezinhos que decoram o vidro traseiro de muitos dos carros que enchem as nossas estradas ao fim de semana. A pretensa superioridade moral dos que acham não ter nada a ver com este filme mas que tentam, sem êxito, seguir o mesmo guião, ou a pretensa superioridade ética dos que acham que nada têm a explicar. Ou a demagogia pura e dura que ofende a nossa inteligência ou ainda a desfaçatez de quem, estando dentro, quer fazer crer que está fora…

Pena que não sejamos todos como o Sr Freedberg! E que não possamos evitar que eles nos fujam, se não com os nossos milhões, pelo menos com um bocadinho da nossa esperança.

 

Eduardo Louro

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