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O Estado Novo há 50 anos (1961)

por João Carvalho, em 25.01.11

 

IV – "OPERAÇÃO DULCINEIA"

O "assalto" ao Santa Maria (3)

(continuação)

A 25 de Janeiro de 1961, o Santa Maria já navega há quatro dias conduzido pelos seus sequestradores quando é avistado e contactado pela primeira vez. O alerta é dado por um avião de patrulha dos EUA sobre as Caraíbas. Sobrevoado e intimado para se dirigir a Porto Rico, por haver mais de três dezenas de norte-americanos a bordo, o capitão Henrique Galvão faz saber que recusa ser tratado como pirata e receber ordens de estrangeiros. Porém, já há navios de guerra a interceptá-lo.

Como já pedira à ONU e a Washington o reconhecimento do estatuto de "rebeldes políticos em guerra" e pretende ampliar a visibilidade internacional que o move, Galvão responde que quer dar uma conferência de imprensa internacional a bordo, mas sem jornalistas portugueses e espanhóis.

 

O paquete continua a navegar — com as luzes apagadas à noite, para se confundir com um cargueiro — e não há tensão por parte dos tripulantes e passageiros, que estão a colaborar pacificamente com os seus "piratas": «passam-se filmes nos cinemas, que são bastante frequentados», enquanto «nos salões, com as cortinas corridas, as orquestras do navio tocam e os passageiros dançam», e «o nosso grupo» mantém-se «sempre nas melhores relações com a tripulação» (Henrique Galvão, O Assalto ao "Santa Maria"). É um quebra-cabeças para as autoridades em terra, pois ninguém entende se o navio se dirige para o Brasil, Angola, Cabo Verde ou outro lugar. Portugal aposta em Cabo Verde e mobiliza para aí meios aéreos e navais no dia 26, mas o paquete, a 27, parece rumar ao Recife (Brasil).

No mesmo dia, o poeta angolano e activista político Mário Coelho Pinto de Andrade (1928–1990), presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), emite uma declaração a dizer que a luta pela libertação das colónias é independente dos planos de Galvão e Delgado para pôr fim à ditadura.

 

Henrique Galvão percebe que começa a ser encarado como rebelde quando é informado de que os comandos navais dos EUA pretendem negociar com ele. Vendo-se respeitado de acordo com as circunstâncias, aceita receber um representante em mar aberto e coloca a condição de ser escoltado e protegido. Comunica também a Humberto Delgado que, até aí, a operação está a ser bem sucedida.

Depois de negado um pedido de asilo enviado ao Congo, que manifesta já ter problemas internos que cheguem, o Santa Maria continua a aproximar-se do Brasil, seguido por meios aeronavais dos EUA. Com a falta de colaboração de outros países (excepto a Espanha), Portugal continua a desenvolver palpites e a proceder a buscas em vão, que se prolongam pelo dia 28.

 

Não há dúvida: Washington está a velar pelos 34 norte-americanos a bordo e quer evitar qualquer ataque que os ponha em perigo, eventualmente ordenado por Salazar ao saber do paradeiro do paquete. Portanto, os EUA não estão a informar Lisboa, que demora a ficar ao corrente dos acontecimentos. Entretanto, a 29 e já em águas brasileiras, a audácia de alguns jornalistas leva-os a chegar ao barco em primeiro lugar. Um deles é o activista comunista português Miguel Urbano Rodrigues, repórter do jornal O Estado de S. Paulo, exilado depois de trabalhar no Diário de Notícias e no Diário Ilustrado.

Sempre escoltado pelos norte-americanos, o navio aproxima-se definitivamente da costa de Pernambuco e, a 30, está a posicionar-se em frente ao Recife. Galvão faz contas, pois sabe que precisa de esperar pela substituição de Kubitschek de Oliveira — que actuaria conforme a vontade de Salazar — por Jânio Quadros, cuja tomada de posse está marcada para o dia seguinte. A bordo, a vida continua descontraída: além do menu para o jantar do dia 30, prepara-se uma festa de despedida; não falta quem se tenha colocado ao lado dos rebeldes e já se dá como certo que o desfecho do golpe está para breve.

 

Salazar fica furioso quando toma conhecimento de que o Santa Maria, no dia 31, está ancorado ao largo do Recife e que Galvão recebe a bordo, ainda de madrugada e com honras militares, o vice-almirante Allen Smith, com quem conferencia e que se faz acompanhar por outras individualidades (incluindo o elemento para os assuntos políticos da embaixada dos EUA no Rio de Janeiro e o cônsul no Recife), além de vários jornalistas. Confirma-se formalmente que o estatuto reivindicado pelos rebeldes é reconhecido pelos EUA e pela comunidade internacional em geral.

Galvão ainda não está informado, mas o dia 31 de Janeiro é muito complicado em Portugal e não só por causa do Santa Maria: o governo não reconhecera a eleição democrática da direcção da Casa dos Estudantes do Império e enfrenta uma agitação estudantil, o jornal República é suspenso e, como se não bastasse, estala uma revolta do MPLA na Baixa do Cassange, onde a situação se encontra muito instável desde os primeiros dias do ano.

 

A ira de Lisboa ainda cresce mais a 1 de Fevereiro, por saber que o novo presidente Jânio Quadros faz chegar a Henrique Galvão uma mensagem de boas-vindas e de solidariedade democrática, com a total disponibilidade para conceder asilo político no Brasil a todos os rebeldes. Quadros e Galvão já se conheciam e tinham estado juntos na Venezuela no ano anterior.

No dia seguinte, o paquete dá entrada no porto de Recife. O mentor da arrojada operação entende que esta tem de ficar por ali. Sem dinheiro para reabastecimentos e com asilo político garantido em terra amistosa, basta-lhe assegurar o maior eco possível através da comunicação social internacional. A imprensa britânica, bem informada, já está a influenciar a opinião pública interna e externa com este desafio ao salazarismo, mas pode atrair-se maior atenção graças à presença dos muitos jornalistas enviados a Pernambuco para cobrir o caso. Ignorado pelos governos a que pedira apoio e já muito abalado, o Estado Novo vai sofrer danos maiores nos momentos que se seguem.

(continua)

Imagens

· O Santa Maria sobrevoado em alto mar

· O paquete freguentava o porto do Funchal:

muitos madeirenses viajaram no Santa Maria

· Miguel Urbano Tavares Rodrigues

· António de Oliveira Salazar nos anos 60

· Recife no início da década de 60: ponte de Santo António para as ilhas

· Vista da popa do navio à chegada ao Recife

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12 comentários

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De jose-catarino a 25.01.2011 às 10:25

Tudo tão limpo, tão higiénico, tão correcto! Lembro-me de ter lido relatos bem diferentes, os quais referiam pelo menos um morto na tripulação durante o assalto, dissensões fortes entre os "libertadores" portugueses e espanhóis... Estarei equivocado?
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De João Carvalho a 25.01.2011 às 10:30

Apesar de ser bem visível a "continuação", V. não leu o que está para trás. Estarei equivocado?
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De jose-catarino a 26.01.2011 às 00:27

De facto, não li. Não me apercebi de que era continuação. Sou mau observador. As minhas desculpas.
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De João Carvalho a 25.01.2011 às 12:53

Não espero que se retrate, mas continuo à espera que me responda, José Catarino. Se era apenas isso que tinha a dizer-me sobre o trabalho que estou a desenvolver, meu caro, então não precisava de se ter incomodado, porque estamos conversados.
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De jose-catarino a 26.01.2011 às 00:31

Mais uma vez, as minhas desculpas. Instantes após ter colocado o comentário apressado, telefonaram-me e tive de seguir para o Hospital de Leiria, onde a minha mãe tinha acabado de ser internada de urgência. Passei lá quase dez horas, cheguei há pouco. Exausto. Logo que possa, leio o que me escapou e apresentarei as desculpas devidas.
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De João Carvalho a 26.01.2011 às 11:37

Espero que o meu trabalho de pesquisa suscite um bocado mais do que entendeu comentar.

Espero também que o estado de saúde da senhora sua mãe não seja grave e permita recuperar depressa.
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De ariel a 25.01.2011 às 19:12

Cá estou eu, com uma forte carraspana e embrulhada em cobertores, a seguir esta epopeia. As coisas que eu não sabia....

:)))
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De João Carvalho a 25.01.2011 às 20:02

:o)
Tem a certeza de não ter perdido o capítulo anterior? O próximo (talvez o último sobre o 'Santa Maria') é capaz de ser no dia 2, mas ainda não decidi bem.
As suas melhoras rápidas.
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De ariel a 25.01.2011 às 21:37

Escapou-me, sim, mas já lá fui....
:)))
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De João Carvalho a 25.01.2011 às 21:52

É uma honra contar com esta sua fidelidade. Tenho andado a... cirandar (!) em torno do que é preciso pesquisar.
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De macarvalho a 30.01.2011 às 11:13

Esta reconstituição brilhante daria um bom livro, retrato de uma época, escrita sem a paixão e olhos de então.
Vê-se nitidamente o resultado de uma enorme pesquisa e a sequência isenta dos acontecimentos.

Ao ler este capítulo, lembrei-me de imediato de algo que Churchill tinha dito vários anos antes: Você pode contar sempre com os americanos para fazer a coisa certa – depois de eles tentarem tudo o resto!.

Na minha mente, sempre bailou o nome de Urbano Tavares Rodrigues, associado a este episódio, por conversas ouvidas em casa. Nunca encontrei alguém que de tal se recordasse.
E aqui está ele, agora vejo como aparece e em que circuntâncias.

Parabéns, está excelente e de enorme suspense e interesse histórico. Continuo a afirmar que daria um livro livro.
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De João Carvalho a 30.01.2011 às 16:50

Dito por ti, não há dúvida que tem outro sabor. Mas não daria um livro, porque é feito a partir de várias consultas a coisas já escritas (a que acrescem pormenores que fui sabendo ali e além ao longo da vida).

Já agora: Miguel Urbano Rodrigues (Miguel Urbano Tavares Rodrigues) é irmão de Urbano Tavares Rodrigues, de quem se falava lá em casa. São filhos de Urbano Rodrigues.

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