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Delito de Opinião

O dia 24

Paulo Gorjão, 24.01.11

1. O ciclo político mudou substancialmente no espaço de 24 horas. O tempo político vai acelerar e as relações entre o Governo, o Parlamento e o Presidente entraram seguramente numa nova fase. Veremos como se moldará a “magistratura actuante” prometida pelo Presidente. Independentemente disso, formalmente foi a enterrar ontem a “cooperação estratégica”. RIP...

2. Tal como se esperava, Aníbal Cavaco Silva ganhou à primeira volta. Independentemente da percentagem da abstenção, dos votos brancos ou nulos, a legitimidade política do Presidente da República é indiscutível e o seu exercício dos poderes presidenciais não está de forma alguma fragilizado. Liberto do espartilho da reeleição e sem esquecer a frustração que o seu primeiro mandato gerou junto do seu eleitorado natural, dificilmente Cavaco Silva será tão passivo entre 2011 e 2016 como foi entre 2006 e 2011.

3. É errado inferir, a partir do resultado obtido por Manuel Alegre e sem olhar para as circunstâncias envolventes, que a aliança entre o BE e o PS subtrai votos. Noutras circunstâncias, noutro ciclo e porventura com outro candidato, a aliança entre o BE e o PS pode gerar resultados muito diferentes.

4. Em 2016 veremos se a abstenção nas eleições presidenciais tem – como penso que é o caso – uma natureza estrutural e crescente. A confirmar-se que há um desinteresse crescente da parte dos eleitores, então será mais um argumento a favor da eleição presidencial por via parlamentar.

5. Se Fernando Nobre retirar a ilação destas eleições que tem espaço para avançar em 2016, muito provavelmente estará a ser vítima do “Efeito Alegre” de 2011. Cada acto eleitoral tem uma dinâmica própria, dificilmente passível de ser repetida noutras circunstâncias.

6. Habemus futuro líder do PCP? Francisco Lopes passou o teste eleitoral mais difícil para o PCP, sem ter um resultado comprometedor, antes pelo contrário. Com a influência e o poder que detém nas estruturas sindicais e com uma moção de censura no horizonte, em que é mais ou menos conhecida a posição das diversas partes – menos a do PCP –, Jerónimo de Sousa arrisca-se a desempenhar o papel de kingmaker.

7. Por último, e ao contrário do que tenho lido e ouvido, pessoalmente não seria tão peremptório, excluindo a possibilidade de ser Belém quem, a seu tempo e em função das circunstâncias, precipitará a clarificação da situação política. Poderá não ser o cenário mais provável, mas ainda assim é uma hipótese que deve ser encarada como real e possível.

 

P.S. -- José Sócrates foi uma vez mais ao tapete, mas o combate está longe ainda de uma vitória por KO...