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Notas avulsas da noite eleitoral

por Pedro Correia, em 24.01.11

 

 

1. Registou-se, como previ, a maior taxa de abstenção de sempre numa eleição presidencial: 53%. Houve menos um milhão de portugueses a votar nestas presidenciais, em comparação com as de 2006. Um sinal inequívoco do divórcio dos cidadãos em relação ao sistema político.

2. Houve 270 mil portugueses a votar branco ou nulo, o equivalente a 6,3% dos eleitores. Isto apesar de os votos brancos ou nulos serem irrelevantes para a contabilidade final em eleições presidenciais. Outro sintoma inequívoco de distanciamento.

3. Muitos portugueses não puderam hoje votar por motivos de ordem burocrática totalmente inadmissíveis. A culpa não pode morrer solteira. Espera-se, pois, a demissão do ministro da Administração Interna e do presidente da Comissão Nacional de Eleições ainda hoje.

4. Manuel Alegre, sem o apoio oficial do PS nem do Bloco de Esquerda, obteve há cinco anos maior percentagem (20,7%) e mais 300 mil votos do que agora (19,8%). José Sócrates e Francisco Louçã, em vez de somar, subtraíram.

5. O eleitorado do centro é decisivo. Por isso a radicalização à esquerda da candidatura de Alegre foi totalmente incompreensível. O desastre eleitoral estava à vista: eu bem avisei.

6. Fernando Nobre, sem aparelho partidário, foi o candidato genuinamente apartidário com maior sucesso nas urnas nestes últimos 30 anos. Com 14%, duplicou a percentagem obtida em 1986 por Maria de Lurdes Pintasilgo. Revelou-se, de facto, a maior surpresa desta noite eleitoral.

7. Numa altura em que os partidos muitas vezes são parte do problema e não da solução há hoje cada vez mais espaço para candidaturas de cidadania, emergentes da sociedade civil.

8. No duelo muito particular que mantém com o BE, o PCP não se saiu mal: aguentou o essencial do seu território. Mas o candidato comunista, Francisco Lopes, obteve metade da percentagem de Nobre, recolhendo menos 130 mil votos do que o seu camarada Jerónimo de Sousa em 2006. Com a máquina comunista a apoiá-lo enquanto Nobre não tinha máquina alguma.

9. Também sem máquina de espécie alguma, José Manuel Coelho obteve 4,5%. Mais que isso: conquistou maioria em três concelhos da Madeira, incluindo o Funchal, em ano de eleições regionais. E superou Lopes em Vila Real. Vale a pena analisar este fenómeno, que na região autónoma ultrapassa o mero voto de protesto.

10. Durante semanas, escutámos comentadores televisivos falar apenas em dois candidatos. Cavaco e Alegre. Como se mais nenhum existisse. Estes comentadores - muitos dos quais já tinham ignorado Alegre nas presidenciais de 2006 - também saem derrotados. E de que maneira.

11. Defensor Moura, esmagado nas urnas, fez um discurso de puro ódio pessoal contra Cavaco. Não cumpriu as regras mínimas do fair play democrático.

12. Destaque para o bom senso revelado por Pedro Passos Coelho. Os sociais-democratas "não vão à boleia desta eleição presidencial", acentuou o presidente do PSD, apresentado como "presidente da Assembleia Municipal de Vila Real" num comício de Cavaco. Fica-lhe bem esta prudência.

13. O melhor discurso da noite foi o de Alegre. Felicitou o vencedor e assumiu a derrota com humildade democrática. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos.

14. José Sócrates igual a si próprio com esta frase notável: "Todo o Partido Socialista esteve ao lado de Manuel Alegre."

15. Cavaco Silva, com menos meio milhão de votos que em 2006, pareceu totalmente fora de tom no seu amargo e crispado discurso da vitória: "Nunca vendi ilusões aos portugueses nem prometi o que não podia cumprir." Ninguém tenha dúvidas: esta é uma declaração de guerra contra Sócrates. Começou um novo ciclo na política portuguesa.


26 comentários

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De Fernanda Valente a 24.01.2011 às 01:13

«Ninguém tenha dúvidas: esta é uma declaração de guerra contra Sócrates. Começou um novo ciclo na política portuguesa.»

... apesar de não ter equacionado o lançamento da bomba atómica...!
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De Pedro Correia a 24.01.2011 às 01:20

A bomba atómica é sempre lançada sem aviso prévio, naturalmente.
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De Javali a 24.01.2011 às 01:42

Declaração de guerra? Eu acho que é uma declaração de amor. Sócrates mentiu antes e Cavaco nunca fez nada. Por que motivo haveria agora de investir contra a sagrada, infeliz e medíocre estabilidade política que tem defendido até ao momento? Conversa fiada. Cavaco é um homem de táctica - não é fulano para jogadas arrojadas. Só ganhou hoje porque os seus oponentes foram todos ridículos e vazios, para não dizer estúpidos. Basta ver como houve mais gente a abster-se do que a votar em Cavaco. E não me venham com a ideia de que estava muito frio para ir votar. Os tugas só não votam se estiver um dia de ir para a praia.
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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 01:50

O gelo, desta vez, foi provocado pelo crescente divórcio entre os portugueses e o sistema político. Algo que devia começar a preocupar seriamente os políticos. O inquilino de Belém acima de qualquer outro.
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De Javali a 24.01.2011 às 01:29

Como eventualmente já terei referido antes, vivo numa das freguesias da zona da Lousã. Na 5ª feira recebi uma carta informal da Junta de Freguesia (uma folha A4 na caixa de correio a apelar à abstenção) Não obstante a indecência de todo o processo que levou à suspensão das obras do Metro Mondego (e situação com a qual me solidarizo inteiramente), acho verdadeiramente preocupante que uma Junta faça isto. E de forma informal, mais a mais... Para não falar da absoluta falta de ética, isto por acaso é legal? Creio que o fizeram por ignorância (e solidariedade provinciana), mas mesmo assim, tanto não acho correcto como me parece que uma Junta não deve promover o boicote a si própria.
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De Fernanda Valente a 24.01.2011 às 14:57

Aqui está um exemplo do nível de mediocridade existente na grande maioria da classe política portuguesa.
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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 01:52

Gostaria de ver se a junta faria isso numas eleições para a assembleia de freguesia.
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De macarvalho a 24.01.2011 às 02:14

Como se abriu um novo ciclo de esperança, eu tenho esperança que seja isso mesmo.
Aliás, os segundo mandatos são historicamente, mais incisivos que os primeiros.
Para isso, votei.
Constatei que já foi uma surpresa ter conseguido votar.
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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 01:56

Eu também votei sem sombra de problema. Votei de manhã, ao contrário da grande maioria das pessoas, que prefere deixar tudo para a parte da tarde. Entrei, votei e saí. Sem cartão de eleitor. Bastou mostrar o BI e dizer em voz clara e audível às três senhoras escrutinadoras o meu número de eleitor, que tinha confirmado de véspera, via sms, para o nº 3838 (resposta veio 30 segundos depois).
Esta normalidade não devia ser notícia. Pelos vistos é, o que só prova que neste país muita coisa funciona às avessas.
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De Luís a 24.01.2011 às 07:22

E Sócrates esteve impecável, na forma e no conteúdo. Para quem o quis ouvir, voltou a explicar por que se meteu nesta barca condenada ao afundanço: mais ninguém se chegou à frente, Alegre secou as potenciais candidaturas dentro do PS.

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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 01:57

Sócrates sabe muito. Mas os portugueses também já sabem tudo sobre Sócrates.
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De Pedro Coimbra a 24.01.2011 às 08:09

Já o escrevi hoje no meu blogue - apertem os cintos que vamos atravessar turbulência!!
Cavaco vai agora lembrar-se, como nunca, dos segundos mandatos de Soares e Sampaio.
Segurem-se!!
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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 01:59

Enquanto PPC for líder do PSD, Sócrates estará descansado. Cavaco detesta PPC, como ficou bem patente nesta campanha presidencial, e prefere que Sócrates se mantenha em São Bento.
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De Carlos Faria a 24.01.2011 às 10:03

Claro que não consigo falar de tudo, apenas algumas notas:
Cavaco pediu que se faça política de rigor, se deixe a mentira e se prefira a verdade à propaganda. Logo disseram que era uma declaração de guerra a Sócrates. Uma prova que os comentadores e muitos jornalistas também convivem mal com a precisão, a verdade e a isenção. Cavaco tem defeitos, mas a política nacional é maximizada pelo oposto daquilo que o candidato reeleito pediu e quem deseja o melhor para o País tem de pedir o que pediu Cavaco para a política Nacional.
O voto e Coelho pode ser de protesto, mas não deixa de ser perigoso, pode permitir que um dia alguém pelo protesto, mas impreparado e sem valores controle o poder.
Felizmente, apesar de um preconceito social cultivado por uma elite que influencia a forma de pensar nacional - a esquerda é mais democrática e melhor para Portugal - a extrema esquerda, que prega a luta de classes e se considera dona da justiça e democracia, não tem aceitação pela grande maioria dos Portugueses.
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De Luís Lavoura a 24.01.2011 às 10:15

"Defensor Moura [...] fez um discurso de puro ódio pessoal contra Cavaco. Não cumpriu as regras mínimas do fair play democrático."

Não concordo. Fair play é para o desporto. A política não é um desporto, é, e deve ser, um campo adversarial, de oponentes, de adversários. Defensor Moura assumiu que é um adversário de Cavaco e, como tal, não o felicitou pela vitória. Fez, em minha opinião (e eu não votei nele), muito bem. Se é adversário de Cavaco, então não pode deixar de afirmar a sua insatisfação por Cavaco ter ganhado.
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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 02:05

Em democracia, Luís Lavoura, há uma regra de ouro: respeito pela vontade popular. Moura ficou em último na eleição em que houve mais voto de protesto, mas nem isso o beneficiou. Os portugueses não quiseram votar nele nem sequer para protestar.
Poderia ao menos ter sido um cavalheiro na hora da derrota. Nada disso: agora percebo melhor por que motivo o PS de Viana recusou mantê-lo à frente da câmara. Não tem categoria mínima para o efeito, como comprovou nesta recusa de dirigir uma palavra de saudação a quem ontem o venceu nas urnas.
Essa atitude adversarial a que você alude deve existir numa campanha eleitoral, mas não depois de os votos serem contados. E deve haver 'fair play' também na política, que não é propriamente um palco de guerra.
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De Pedro Ulrich a 24.01.2011 às 11:01

Caro Pedro, parabens... os seus "rescaldos" das eleições foram anormalmente objectivos, em toda a linha... do mais objectivo que vi, ouvi e li (e foram muitos)...
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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 02:06

Obrigado, Pedro. Faço por isso. Sem esforço, devo confessar.
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De Francisco a 24.01.2011 às 14:03

"11. Defensor Moura, esmagado nas urnas, fez um discurso de puro ódio pessoal contra Cavaco. Não cumpriu as regras mínimas do fair play democrático."

Defensor Moura acusou Cavaco de favorecimento e clientelismo e explicou porquê com informação objectiva - fez um discurso coerente com isso mesmo, como necessariamente todos devíamos esperar.. de todos os políticos.
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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 02:07

Pois, pois. E foi premiado com a taluda: 1,5%. Até o José Manuel Coelho lhe deu uma cabazada.
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De Daniel João Santos a 24.01.2011 às 21:29

o homem mais feliz da noite: Pedro Passos Coelho.
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De Pedro Correia a 25.01.2011 às 02:08

Fez pelo menos a intervenção mais inteligente e arguta da noite, o que já não é pouco.

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