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Voto, não voto, muito, pouco ou nada

por Ana Vidal, em 23.01.11

 

Lá fui votar, que remédio. Por muita vontade que tenha sempre de render-me à sabedoria do Pessoa, ainda não consegui livrar-me do mui burguês sentimento de culpa quando não cumpro um dever (lá chegarei um dia, espero, ando a trabalhar nisso com o meu analista). Dizia eu, então, que lá fui votar. A Lisboa, ainda por cima, porque é lá que voto ainda apesar de já não viver na capital. Pois, mas não votei. Cheguei ao Palácio da Justiça e estranhei a confusão generalizada no enorme hall de entrada: longas filas de pessoas, impacientes e desorientadas, de cartão na mão à procura da sua secção de voto. Não esperava encontrar tanta gente numas eleições em que se previa um record de abstenção, e muito menos esperava dar de caras com aquela confusão. E logo eu, que tinha deixado o meu cartão de eleitor em casa. Mas não há perigo, pensei, eu sei que a minha secção é a 4ª e sei de cor o meu número de eleitor, pelo menos os 3 primeiros dígitos. E também tenho o BI, há-de chegar. Lá fui, confiante e fugindo ao suplício das filas para a calista iformação da Junta de Freguesia. Erro meu, má fortuna: o meu nome tinha sumido das listas da minha mesa habitual. Nada feito. Que não, não consta, temos pena. Experimente perguntar ali. Onde? Ali, onde estão aquelas três mil quinhentas e noventa e sete pessoas à espera de vez. O quê, entregar-me ao altar do sacrifício por conta da incompetência do simplex? A hesitação não durou mais do que um milésimo de segundo. Querias! Responsável ainda vá que não vá, mas masoquista? Nunca. Virei as costas ao peso da responsabilidade e saí, feliz e aliviada. E é assim que, muito contrariada, aqui venho publicamente agradecer a José Sócrates o tratamento de choque, que me curou de uma burguesite aguda e me poupou muitos e preciosos euros no psi. Quem diria?

 

PS1: Desculpa, Pessoa... eu sei que é humilhante desprezar as tuas lições e acabar por aceitar as do Sócrates. Ainda se fosse o outro...

 

PS2: Acabei por descobrir que houve muitos casos como o meu pelo país fora. Lá vão mais alguns psiquiatras para o desemprego...


11 comentários

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De Fernando Sousa a 23.01.2011 às 23:46

A sorte acabou por a livrar do dever, e, por via disso, do sentimento de culpa que acompanharia a falta. Numa conversa inacabada há dias disse-lhe que por decência não iria argumentar sobre isso. Agora já lhe posso dizer que o direito ao voto precede o dever de votar, um direito disponível, que podemos exercer ou não. Isto porque entretanto se criou um complexo sistema de culpabilização colectiva que por sorte não a apanhou. Ainda bem. Além do mais poupou dinheiro.
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De Ana Vidal a 24.01.2011 às 00:02

É verdade, Fernando, é um direito antes de ser um dever. Acontece que eu sempre disse aos meus filhos que quem não exerce esse direito/dever não pode depois reclamar dos resultados. Mas começo a entender que a abstenção pode ser também uma atitude crítica. Hoje comprovei isso mesmo, e não me sinto minimamente culpada por ter saído sem votar. Mas não poupei dinheiro, porque fui lá na mesma.
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De Rui Rocha a 24.01.2011 às 00:05

Bem-vinda aos utentes satisfeitos pelas múltiplas funcionalidades do cartão de cidadão. A propósito, ouvi há pouco uma frase muito boa: a escolha nestas eleições era entre cumprir o dever cívico ou ir votar. Desta vez ainda fui votar. Mas, para a próxima, se tiver que esperar uma hora ao frio, cumpro o dever cívico.
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De Ana Vidal a 24.01.2011 às 00:11

Estou a ouvir neste momento a Maria João Avillez (na SIC Notícias) a relatar mais casos destes, incluindo o dela própria. Foram muitos, pelos vistos. É caso para dizer "É o simplex, estúpido!"
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De Ana Vidal a 24.01.2011 às 00:12

Essa do dever cívico está bem vista. Mais uma acha para a fogueira da minha cura milagrosa...
:-)
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De Fernando Sousa a 24.01.2011 às 00:21

Precisamente. Tenho feito uma reflexão semelhante sobre a abstenção como outra forma activa de participação na política. Este é o tipo de debate que raramente ou nunca se tem, nem mesmo aqui no DO, por via da criminalização de todo aquele que tem um pensamentozinho que seja fora do quadro permitido. Precisamos de ser beliscados para termos a certeza de existir. Isto é de facto dramático e assustador. Quanto ao dinheiro que gastou, pense no que poupou nos psis. Agora tentemos viver sem vergonha os próximos anos - e ainda não sabemos o que mais virá...
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De Ana Vidal a 24.01.2011 às 00:27

O psi era brincadeira, Fernando. Mas já me faltou mais, lá isso é verdade. E com o que aí vem, o melhor é começar a poupar para isso...
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De Fernando Sousa a 24.01.2011 às 00:42

AHAHAH!... Sei que era brincadeira. Apenas alinhei nela porque o quadro é deprimente... politicamente falando.
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De Ana Vidal a 24.01.2011 às 00:49

:-) Deprimente política e financeiramente falando... os psis vão ter muito que fazer, mas vão ter de trabalhar a preço de saldo.
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De Luís Lavoura a 24.01.2011 às 10:23

Tanto quanto percebi, a Ana teve o seu nome retirado das listas eleitorais apesar de continuar a ter Bilhete de Identidade (e não Cartão de Cidadão). O que é uma situação de que nunca tinha ouvido falar. É mesmo assim?
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De Ana Vidal a 25.01.2011 às 02:24

É mesmo assim, Luís. E também não conheço outro caso igual, mas deve ter havido mais eleitores que mudaram de secção de voto. Se tiveram ou não a mesma falta de paciência que eu tive, isso também não sei.

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