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O Estado Novo há 50 anos (1961)

por João Carvalho, em 22.01.11

 

III – "OPERAÇÃO DULCINEIA"

O "assalto" ao Santa Maria (2)

(continuação)

A 22 de Janeiro de 1961, pouco passa das 0 horas, o paquete Santa Maria navega em águas internacionais rumo a Miami, com o arquipélago das Antilhas Holandesas já para trás. A bordo, no sossego da noite, ainda ninguém desconfia da "Operação Dulcineia", entre os mais de 350 tripulantes e cerca de 600 passageiros: conforme fontes oficiais, à saída de Vigo o navio leva 371 tripulantes, incluindo 22 oficiais, um médico português, um médico espanhol e nove marinheiros espanhóis; quanto a passageiros, à saída da ilha de Curaçau há 237 espanhóis, 189 portugueses, 87 venezuelanos, 44 holandeses, 34 norte-americanos, quatro cubanos, dois brasileiros, um italiano e um panamiano.

Ainda ninguém desconfia, mas a operação está prestes a entrar na sua fase decisiva. O objectivo do golpe é tomar posse do paquete e dispor dos três dias que a viagem levaria até Miami, talvez até quatro se telegrafarem a dizer que estão atrasados por uma avaria no motor. Isso permite-lhes navegar fora da rota sem levantar suspeitas, pelo que só andariam a ser procurados a partir do sexto dia, provavelmente, altura em que já hão-de estar distantes. Contam chegar de surpresa à ilha de Fernando Pó e à Guiné Equatorial, colónias espanholas onde podem arranjar armamento, canhoneiras, lanchas de desembarque e dois ou três aviões, e seguir depois para Angola, para obter apoio e aí proclamar um governo revolucionário capaz de derrubar o governo de Lisboa e de fazer de Portugal um Estado federado.

 

Passa da meia-noite e as armas já estão montadas e distribuídas. Todos os elementos do grupo se reúnem discretamente no deck superior, mas Henrique Galvão e José Fernandéz Vásquez (o líder da parte espanhola, também conhecido por Jorge Soutomaior) desentendem-se quanto a alguns detalhes da acção. Soutomaior tem a seu cargo a chefia militar do golpe desde o início e Galvão, mentor da operação e com a chefia política, cede na discórdia entre os dois. No espaço do convés usado para lazer dos passageiros da 1.ª e 2.ª classe, estabelecem dividir-se em dois grupos de assalto: o do líder português é destinado às instalações do segundo convés, onde estão as cabinas do comandante, do imediato e de outros oficiais; o do líder espanhol fica com o encargo de neutralizar a sala de transmissões, a ponte e a casa do leme.

É pouco provável que Galvão já saiba da morte de João Villaret em Lisboa, ocorrida na véspera. Fica a ler um livro, até dar ordem para avançar. É 1 hora e 45. As várias posições são ocupadas e o pessoal de serviço dominado. Apenas o grupo espanhol, ao ocupar a ponte de comando, depara com a resistência de um dos pilotos e gera-se um curto tiroteio, que termina com a morte do piloto e deixa mais três feridos em estado crítico. As comunicações são rapidamente interrompidas para impedir que o barco seja localizado, mas o plano tem de ser alterado: rumam à ilha de Santa Luzia (então possessão britânica nas Pequenas Antilhas) para desembarcar os dois feridos mais graves a precisar de cuidados hospitalares, acompanhados por cinco tripulantes. Está comprometida a possibilidade de atingirem a costa de África sem ser descobertos. Os desembarcados não perdem tempo a informar Lisboa do sucedido.

 

Quando o paquete se afasta de Santa Luzia, as comunicações são retomadas, por ser escusado manter o silêncio. Passageiros e tripulantes podem contactar as famílias. Nessa altura, considerando que o Santa Maria já é uma parcela livre do território português, Henrique Galvão muda-lhe o nome para 'Santa Liberdade', num dístico branco escrito a vermelho e colocado no castelo da proa (onde também é colocada uma bandeira do DRIL).

Ao tomarem conhecimento do caso, as autoridades portuguesas criam um gabinete de crise e desenvolvem contactos diplomáticos, no sentido de obter ajuda aérea e naval para localizar o navio. Londres disponibiliza-se e Washington (onde John Kennedy acabara de tomar posse no dia 20) coloca aviões e barcos de guerra na busca.

 

O plano falhado não é a derrota. Galvão adapta-se e reage à altura da situação, para tirar partido dela. Contacta a France Press e a United Press e consegue falar através da NBC, para atrair a atenção da opinião pública internacional: dá a conhecer o "sequestro político" do paquete, declara-se disposto a desembarcar os passageiros e tripulantes no primeiro porto neutro que lhes garanta a segurança e diz que actua em nome do general Humberto Delgado, «presidente-eleito da República Portuguesa, privado dos seus direitos de forma fraudulenta pelo governo de Salazar» (Henry A. Zeiger, The Seizing of the Santa Maria). É então que Kennedy põe termo à busca, visto que não se trata de pirataria, mas de um acto político contra uma ditadura. O próprio Delgado, no Brasil (onde Jânio Quadros está a poucos dias de substituir Juscelino Kubitschek de Oliveira), assume a liderança da operação e sublinha que esta é exclusivamente política. Só em Madrid, naturalmente, vinga a tese do "assalto de piratas".

Os EUA vão limitar-se a assegurar que os passageiros norte-americanos chegarão a bom porto sãos e salvos, mas o Santa Maria ainda vai passar alguns dias a despistar muitos perseguidores sem precisar de consumir muito combustível, alimentos e água. Entre a costa americana e a costa africana, sem alargar excessivamente a sua navegação, continuará a ser procurado em diferentes regiões e a queimar muitos cérebros em terra consumidos com os mais variados palpites.

(continua)

Imagens

· O Santa Maria durante a operação: o nome de 'Santa Liberdade'

e a bandeira do DRIL colocados na ponte de comando

· O paquete visto de proa

· João Henrique Pereira Villaret (1913–1961)

· Henrique Galvão a bordo do Santa Maria durante a operação

· Jânio da Silva Quadros (1917–1992)

 e John Fitzgerald Kennedy (1917–1963)

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