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O Estado Novo há 50 anos (1961)

por João Carvalho, em 21.01.11

 

II – "OPERAÇÃO DULCINEIA"

O "assalto" ao Santa Maria (1)

 

A 21 de Janeiro de 1961, o paquete Santa Maria chega à Venezuela numa viagem rotineira. Entre os passageiros que embarcam há um punhado ainda insuspeito de activistas, comandados por um grupo luso-espanhol de revolucionários. Está posta em marcha a "Operação Dulcineia". O ousado e inédito golpe centra-se no ex-capitão Henrique Carlos da Malta Galvão (1895–1970). A operação é de natureza política — visa abalar Salazar e o Estado Novo — mas em Lisboa é oficialmente considerada um acto de pirataria. A atitude, porém, não impede que o regime salazarista salte para as primeiras páginas da imprensa ocidental, começando a desfazer-se a ideia enraizada em muitos meios internacionais de que os portugueses aceitam conformados o salazarismo, sem oposição digna de nota.

Aliás, o "assalto ao Santa Maria" só abusivamente pode ser considerado um acto de pirataria, pois colide com as normas do Direito internacional, que consagram um barco como parte do território do país a que pertence.

 

O Santa Maria era o mais luxuoso transatlântico português. Com casco em aço, deslocava 20.906 toneladas, podia navegar a uma velocidade cruzeiro de 20 nós e conseguia atingir 22 nós. Tinha sido encomendado a um estaleiro belga (juntamente com o paquete Vera Cruz), fôra entregue em 1952 e pertencia à Companhia Colonial de Navegação (CCN).

Em tempos de grande emigração, o Santa Maria estava destinado à rota entre a Península Ibérica e as Américas, na qual operava desde 1954 (o irmão gémeo Vera Cruz fazia a ligação com África e, após o início da guerra nas colónias, foi um dos barcos usados no transporte de tropas).

 

O capitão Henrique Galvão está exilado na Venezuela. Tinha sido um sidonista e um salazarista convicto, depois desiludido e conspirador contra o regime. Descoberto, preso e expulso do Exército, conseguira fugir e refugiar-se na embaixada da Argentina, de onde partiu para viver em Caracas com grandes dificuldades financeiras.

Tal como Humberto Delgado (que está no Brasil e com quem coordena a "Operação Dulcineia"), Galvão é um homem muito do agrado dos opositores não-afectos ao PCP. O grupo revolucionário que concebe o golpe em alto mar auto-intitula-se Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação (DRIL).

 

A data tinha sido adiada várias vezes — com o paquete a chegar e a partir outras tantas — quer pela falta de fundos para comprar armas no mercado negro (poucas, usadas e sem critério) e adquirir as passagens para viajar no paquete, quer pela saúde de Henrique Galvão, que teve problemas cardíacos com alguma gravidade.

O DRIL reúne também espanhóis anti-franquistas, o que justifica a sua designação. É uma operação conjunta de revolucionários de ambos os países, mas os acontecimentos vão fazer sobressair o pendor português e esvaziar o peso da parte espanhola. O comando recrutara elementos em Caracas com muito esforço, mas já só restavam duas dezenas de homens. A favor, apenas uma maqueta do navio que encontraram numa agência de navegação venezuelana, agente da CCN.

 

O Santa Maria tinha partido de Lisboa a 9 de Janeiro, com o comandante Mário Simões da Maia e com destino a Miami. Trata-se de mais uma viagem regular: a 20 faz escala no porto de La Guaira, em Caracas (Venezuela), segue no dia seguinte para a ilha de Curaçau (Antilhas Holandesas) e daí ruma a Port Everglades, na Florida (EUA). Deixara de aportar em Cuba desde que Fidel Castro passara a dar guarida a opositores portugueses.

A cumprir os tempos, o paquete acosta em Caracas e os activistas instalam-se a bordo pelo final da tarde do dia 20, com as armas desmontadas e espalhadas pela bagagem, graças a um funcionário aduaneiro subornado. Só não embarca o rádio-especialista, que é procurado pela polícia venezuelana e detido à última hora.

 

O navio deixa o porto venezuelano à noite. Entretanto, Galvão não quer que o seu nome seja visto na lista de passageiros com antecedência e, para não levantar suspeitas, segue de avião nesse dia para Curaçau (acompanhado por José Frias de Oliveira), a quem se juntam mais dois na manhã seguinte, atrasados em Caracas com a documentação.

Às 9 horas do dia 21, quando o paquete está a ser amarrado na ilha e nenhuma notícia alarmante circula, Galvão tranquiliza-se e prepara-se para embarcar com os três homens que estão em terra com ele. O Santa Maria deixa Curaçau ao fim da tarde. A acção está combinada para depois da meia-noite, a fim de ter lugar com as luzes apagadas e já em águas internacionais.

(continua)

Imagens

· Viagem e "Operação Dulcineia": infografia (AR/Visão)

· Reprodução do bar da 3.ª classe do Santa Maria

· Logótipo com pavilhão da CCN

· Folheto publicitário da CCN datado de 9 de Setembro de 1957

 para a linha da América Central no primeiro semestre de 1958

· Maqueta do Santa Maria

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8 comentários

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De ariel a 21.01.2011 às 12:14

Uau, uma narrativa cheia de "suspense"...!!

:)))
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De João Carvalho a 21.01.2011 às 14:11

Para continuar, tinha de ser.
:o)
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De Ana Vidal a 21.01.2011 às 22:29

Venha a continuação, estou em pulgas...
Grande relato.
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De João Carvalho a 22.01.2011 às 02:05

Curiosidade feminina...
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De Pedro Correia a 22.01.2011 às 01:34

De facto esta série promete, compadre. Diário de alguns dos principais acontecimentos de 1961. Muito bem.
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De João Carvalho a 22.01.2011 às 02:06

Espero que vás gostando, compadre.
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De macarvalho a 30.01.2011 às 10:37

Ainda agora comecei e já estou em suspense.
Efectivamente, merece que seja contada em episódios e promete!
Excelente descrição histórica.
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De João Carvalho a 30.01.2011 às 19:20

Mas é suposto a História não ter mistério...

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