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Tal como certos heróis de banda desenhada, o jornalismo português gosta de se apresentar com uma capa e uma espada. A capa faz-se de imparcialidade e de neutralidade. A espada é a da verdade. Ora, isto não passa de uma encenação e de um embuste. Creio não dar novidade a ninguém, muito menos aos jornalistas, quando afirmo que não existe uma informação neutra. A comunicação faz-se menos pelo valor literal da mensagem do que pela intencionalidade do emissor, pelas variáveis do contexto e pela predisposição do receptor. Não há aspirante a jornalista que não aprenda isto nos bancos da Universidade e que não o constate no primeiro dia de trabalho numa redacção. Por isso, a afirmação recorrente da imparcialidade e da neutralidade não corresponde a um estádio de maturidade do jornalismo, antes revela as suas fragilidades, limitações, impreparações e  dependências. O jornalismo português não é suave. É menos que isso. É um jornalismo que não saiu do armário. Que não se assume. Em Portugal, a liberdade de imprensa parece ser entendida como um direito que existe na medida em que possa oferecer em troca uma aparência de imparcialidade. Ora, isso não é uma liberdade. É um negócio em que os parâmetros limitam à partida o direito de expressão. A liberdade de imprensa é bem outra coisa. Consiste na possibilidade de se tomar posição sobre um tema ainda que esta parta de uma visão do mundo assumida, de um contexto ideológico de base. Todavia, a liberdade de imprensa assim entendia implica uma responsabilidade. A de que esse pré-conceito seja explícito. Que os destinatários da informação possam saber qual o pressuposto de partida em que esta foi produzida. Este ponto leva-nos a uma velha questão. A de saber se a imprensa deve declarar qual a proposta política que apoia num período eleitoral. Como se intui do que já vai dito, inclino-me para uma resposta afirmativa. Mais ainda num mundo em que existe uma óbvia ansiedade pela informação, como refere Wurman. E em que, como afirma Shirky, passámos da escassez de informação para um mundo dominado pela sua abundância. Perante a finitude dos recursos para tratar informação, são necessários referenciais que nos permitam catalogá-la e processá-la. Parece-me ser responsabilidade de quem coloca informação ao dispor da comunidade partilhar com transparência os referenciais em que se coloca. Creio que a democracia também é isto. Todas estas considerações se compreenderão melhor a partir de um caso concreto. Tomo para exemplo a reclamação de Fernando Nobre relativamente ao (não) tratamento que lhe foi dado pelo Expresso. Nobre reclama que na última edição o Jornal não lhe fez qualquer referência. Numa primeira análise, espanta que o mesmo jornal que coloca na edição online a referência ao assalto da casa de Manuel Alegre, não tenha um centímetro quadrado da edição em papel dedicado à campanha de Nobre. Todavia, o que me parece verdadeiramente criticável é que o Expresso não clarifique perante os seus leitores uma opção editorial que parece agora evidente. Ainda posso perceber que se discuta se um meio de comunicação deve ou não apoiar um candidato. O que é incompreensível é que quando apoia, ou na situação inversa, quando o considera irrelevante, não o diga... expressamente. É, antes de mais uma questão de maturidade democrática e de respeito pela liberdade de imprensa e pelos leitores.


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