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Convidado: ANTÓNIO EÇA DE QUEIROZ

por Pedro Correia, em 31.01.11

 

Infortúnios da linguagem

 

Há palavras portuguesas (ou aportuguesadas) que me irritam de duplicidade, outras que me ofendem pela sua sonoridade, outras que me assinalam o seu utilizador como um perfeito cretino – e por aí fora. Não é certamente uma fatalidade nacional, mas é aqui que vivo e é aqui que as sinto activas, saltitantes, a rabear de boca em boca, de jornal em noticiário, de político em intelectual – seja lá o que esses alargadíssimos conceitos queiram abraçar.

Existem duas que se diz possuírem um significado específico mas que têm outro muito mais adequado e compreensível. Fazem parte do léxico político, mas sujeitam-se a transvases popularicados pelo jornalismo enfatuado e desnutrido e pelos seus principais attachés de presse – os analistas profissionais.

O primeiro é um vocábulo de sonoridade ofensiva e, tanto quanto julgo saber, um anglicismo recente.

Procrastinação – que, no fim de contas, é uma actividade muito próxima da auto-castração (por requisito próprio ou a mando de outrem).

Esta coisa horrorosa podia perfeitamente ser substituída de forma muito mais eficaz em termos de comunicação directa com o povo que se quer conhecedor dos seus líderes – e não exactamente escondido da realidade dos factos, esse semáforo das ditaduras – por termos que todos entendemos à primeira. Tais como o absolutamente nacional empata fodas ou mesmo pelo mais nortenho, regional e humilhante, caga na saquinha – adjectivos todos eles consequentes com o espírito da coisa.

Resolvido o problema da política empata fodas (ou caga na saquinha) e respectivas caixas de ressonância, marra-se logo na primeira esquina com a advocacial inverdade – que realmente não quer dizer aquilo que supostamente quer dizer.

Inverdade utiliza-se habitualmente como forma vagamente polida de chamar ao outro barreteiro – gajo que mete garrunços, trapaceiro, que falseia dados ou os manipula com fins ínvios ou inexplicáveis. Um mentiroso puro e simples, portanto.

Mas o que de facto acontece quando alguém recorre à macia inverdade é que no íntimo, acossado pelas acusações, apenas consegue esbracejar mentalmente um alto lá que isso não foi bem assim!... E lá sai a inverdade!...

Poupo-me a mim e aos que ainda não se fartaram de me ler de citar exemplos da flagrância oculta de tão estúpido vocábulo.

Para acabar (que já chateia), lembro um acontecimento que é feliz no seu sentido específico mas que sai cá para fora deturpado de forma exemplarmente nacional. E parva.

O episódio que me tornou a sua visibilidade insuportável gira à volta da magnífica Livraria Lello, no Porto.

Nada que já não tivesse sido constatado pelas mais variadas publicações: a Lello foi considerada pela editora australiana Lonely Planet como a terceira mais bela do mundo.

No entanto muitos jornais, noticiários e edições on-line fizeram as suas chamadas à primeira página, em alegre e levíssimo disparate, afirmando que a livraria portuense tinha sido considerada como a terceira melhor do mundo. Depois, no miolo, a verdade vinha ao de cima como o velhíssimo azeite. Logicamente.

A única coisa que então me apeteceu fazer quando vi isto – na SIC-Notícias, por exemplo, mas também em jornais ditos de referência – foi escrever aos editores todos de Portugal a dizer-lhes que este país nunca em dias da vida poderá ter a terceira melhor livraria do mundo porque as cem primeiras estão e vão continuar a estar em cidades muito concretas que toda a gente sabe, incluindo eles, quais são.

Não lhes escrevi porque para eles não lhes basta a Lello ser belíssima.

Porque são burros e pretensiosos.

 

António Eça de Queiroz


19 comentários

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De Rui Rocha a 31.01.2011 às 13:38

Não posso procrastinar o meu comentário no sentido de sublinhar que não encontro ponta de inverdade neste texto. Da mesma maneira que não é inverdade que, perguntando-se por aí como vão as coisas, invariavelmente ouviremos um 'vai-se andando'. Ao qual responderemos, em bom português, 'então, boa continuação'.
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De António Eça de Queiroz a 01.02.2011 às 03:07

Excelente, é isso mesmo Rui, vai-se andando em continuação!...
O que é terrível é que por vezes somos quase obrigados a dar continuação à continuação. A formalidade retira sentido às palavras, e talvez por isso em Portugal as pessoas não se consigam entender verdadeiramente. Somos (isto é um plágio quase necrofilo-homo-incestuoso!) uns francesitos enfatuados e pomposos muito mal traduzidos para o português!...
Ainda bem que gostou
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De João Carvalho a 31.01.2011 às 14:44

Dizer que um burro é pretensioso é quase pleonástico. Eheh... Gostei de ler, como gosto da Lello física. Parabéns, sem inverdade e sem não-verdade.
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De António Eça de Queiroz a 31.01.2011 às 20:37

João: tem razão, quase. Porque há burros que não são pretensiosos, o contrário é que não....
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De João Carvalho a 31.01.2011 às 20:53

É isso mesmo, António.
Um abraço.
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De Pedro Correia a 31.01.2011 às 16:37

Estamos perante um novo paradigma. Direi mesmo mais: perante uma janela de oportunidade. Em cima da mesa.
Parabéns, António. Excelente texto.

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De António Eça de Queiroz a 31.01.2011 às 18:04

Muito obrigado pela vossa apreciação, é sempre um prazer escrever para amigos.
Grande abraço
(e um beijo para si, Leonor)
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De Leonor Barros a 31.01.2011 às 20:04

Olá António, gosto muito de o ver por aqui. A casa é sua. Beijinhos :)
Subscrevo inteiramente. Não chega apenas ser bonita, há sempre que ser mais do que tudo, superlativos é connosco. Esta mania de bater records para o Guinness é bem ilustrativa. Há que se ser o melhor nem que seja em bolos-rei, cachecóis ou feijoadas.
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De António Eça de Queiroz a 31.01.2011 às 20:41

É, Leonor, o Guiness é a heroína (pura, sem misturas!) do Portugal dos Pequenitos...
Um ridículo sem solução à vista.
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De Ana Vidal a 01.02.2011 às 17:14

Ui, António, este é um tema muito querido aqui no Delito... sopa no mel, o seu texto!
Não posso estar mais de acordo com o seu vade retro ao discurso barroco (e bacoco) que por aí se usa.. Ontem, por exemplo, ouvi vinte mil vezes pelo menos a palavra "contratualizar"nas notícias. É como se achassem que complicando a forma o miserável conteúdo valesse mais.

Ah, e depois dos últimos acontecimentos da fofoca nacional, parece-me que a sua (e minha) palavra odiada passou a dizer-se "procastrinação"...

Bem-vindo!
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De António Eça de Queiroz a 01.02.2011 às 23:10

Que óptima notícia, Ana, assim pode ser que as coisas entrem um pouco nos eixos!
(pergunta em surdina: há alguma empresa de saca-rolhas cotada em bolsa?... Cheira-me que ainda vai ser um bom negócio)
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De Ana Vidal a 02.02.2011 às 01:11

(resposta em sussurro: cotada em bolsa não sei, mas a abrir escritórios em NY deve haver várias...)
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De Alberto Nogueira a 01.02.2011 às 20:12

Belo texto, Eça, como seria de esperar.
Uma frase que está na moda, anda na boca do mundo político e jornalístico e que me faz saltar a tampa, até porque tem um significado completamente oposto ao que contextualmente se pretende é:
"de encontro a..." quando deveria ser "ao encontro de..."
não entendo como isto é constantemente admissível, ou estarei eu errado?
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De António Eça de Queiroz a 01.02.2011 às 23:19

Alberto, caríssimo irmão d'armas! Ainda bem que gostaste.
Sobre o «de encontro a» ou «ao encontro de» parece-me que a utilização é aleatória para quem as usa. Acham na maioria dos casos que é o mesmo. Por vezes acertam, mas nunca se saberá bem se foi porque calhou assim ou se de facto sabiam aplicá-la correctamente.
Enigmas! é o que é.
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De Alberto Nogueira a 01.02.2011 às 20:22

Outra que não entendo, quando se diz, geralmente em tom coquete: "à séria"!
Não deveria ser "a sério"?
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De João Carvalho a 01.02.2011 às 21:43

Para falar a sério, "à séria" nem chega a ser 'coquete', mas uma expressão brasileira. Se calhar, agora ao abrigo do desacordo e não será um pecado, mas sempre brasileira.
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De Ana Vidal a 02.02.2011 às 01:13

é mais croquete...
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De João Carvalho a 02.02.2011 às 01:35

– ... mas que sejam muito fresquinhos!
– Croquetes não temos.
– Então pode ser dois copinhos de vinho branco.
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De josé paixão a 05.02.2011 às 23:48

Como te entendo tão bem, grande e elequente Eça! E o quanto gosto da tua escrita. Foi bom encontrar-te por aqui.
Um abraço do JPaixão








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