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Manuel Alegre e a gelatina política

por Rui Rocha, em 09.01.11

Manuel Alegre retomou ontem a actividade eleitoral. Constato, com satisfação, que aparenta estar recuperado da febre dos pântanos. É um bom sinal para a democracia. A vantagem para o debate que resulta de se ter estancado o derrame de lama é a de evidenciar o gelatinoso substrato político de Alegre. Na verdade, o candidato apoiado em regime de time-sharing pelo BE e pelo PS afirmou que o actual Presidente da República não pode lavar as mãos de uma eventual intervenção do FMI. E não pode, naturalmente. Mas, então que dizer do actual Primeiro-Ministro? Se Cavaco Silva não pode lavar as mãos, Sócrates não pode tomar banho. Durante, pelo menos, uma década. E Alegre não se pode enxugar do facto evidente de ter Sócrates na manga. Alegre, contudo, consegue fazer pior. Do alto da torre de um castelo situado em ParaLádeAlfaCentauro, declarou a sua oposição à entrada do FMI em Portugal. Como se, na verdade, tal circunstância estivesse na dependência da vontade do bardo lusitano. A oposição de Alegre vale tanto como a aversão que eu possa ter ao movimento de rotação da terra. Rigorosamente nada. Alegre promete, por isso, o que não pode cumprir. Mas, imparável na sua cruzada, Alegre afirmou ainda: 

Na Irlanda, onde o FMI já está presente, milhares e milhares de funcionários foram despedidos. Houve cortes de salários mas também de pensões, houve diminuição do salário mínimo e só falta cortar a cabeça aos irlandeses. É isso que querem em Portugal os irresponsáveis ou os imaturos que abrem as portas ao FMI?

Ora, isto já não é só inconsistência ou falta de visão da realidade. É, sobretudo, uma absoluta irresponsabilidade. Desde logo, porque a intervenção externa é praticamente inevitável. Se esta vier a acontecer, como tudo indica, que credibilidade teria Alegre para acompanhar o processo na qualidade de Presidente da República? Não me custa imaginá-lo a receber o Sr. Strauss-Khan ataviado com uma armadura e empunhando uma fisga... E que credibilidade teria para apaziguar movimentos de contestação social que viessem a descambar em violência, como aconteceu na Grécia e na Irlanda? E depois, com que fundamento se pode hoje afirmar que é melhor para o país continuar a pagar juros elevadíssimos que comprometem definitivamente o futuro? Juros que representam em cada ano, só por si, 10% do PIB? Juros que já implicam em Portugal (confesso que desconheço o ponto de situação em ParaLádeAlfaCentauro) desemprego, despedimentos e cortes de salários e de pensões. A única justificação para tal é a de continuarmos a beneficiar da subida honra de sermos governados por José Sócrates. Acontece que, infelizmente, para esse peditório já demos. Muito mais do que devíamos. Manuel Alegre pretende que a abstenção fique à direita, o que constitui um belo exemplo de maturidade democrática. Mas, o que seria realmente útil é que evitasse situar a irresponsabilidade na esquerda que diz representar.

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23 comentários

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De Gonçalo Correia a 09.01.2011 às 15:35

Brevemente, o FMI estará bem perto de si!
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De Rui Rocha a 09.01.2011 às 15:36

E teremos Alegre a defender a fronteira para o impedir de entrar, não é Gonçalo?
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De Gonçalo Correia a 09.01.2011 às 15:42

Exactamente, Rui. Declamando um poema contra o "vil" invasor, "empunhando uma fisga..."
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De Rui Rocha a 09.01.2011 às 16:01

Uma perfeita história quixotesca, bem ao gosto de MA. Na qual lhe está reservado o papel de Sancho Pança.
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De Anónimo a 09.01.2011 às 17:00

" E que credibilidade teria para apaziguar movimentos de contestação social que viessem a descambar em violência, como aconteceu na Grécia e na Irlanda? "

É curioso que não mencione a Islândia, onde foi precisamente da contestação social que emergiu a necessidade de fazer um referendo, e a posição que saiu claramente vitoriosa foi um redondo NÃO PAGAMOS, por parte do povo. O apaziguamento de classes na Irlanda e na Grécia resultou no retrocesso de duas décadas de poder de compra.

Por isso, esse apaziguamento de classes que você, a burguesia e a imprensa financiada pelos grupos económicos quer, é um VÓMITO.

(Declaração de interesses: Deus me livre votar em Alegre, que fez nunca questionou as linhas fundamentais dos governos em que participou...)
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De Rui Rocha a 09.01.2011 às 17:10

Confesso publicamente pelo menos dois defeitos, anónimo:
1 - Gosto de pagar o que devo.
2 - Admito toda a forma de contestação social que se situe dentro dos limites democráticos. Da mesma maneira que não apoio a utilização da violência em situações como a que vivemos (e era de apaziaguamento de situações de violência que o post falava).
Quanto ao vómito, tem que passar a seleccionar os alimentos que ingere em função do seu delicado sistema digestivo.
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De Anónimo a 09.01.2011 às 17:21

Portanto, você considera que "deve" alguma coisa por causa da situação do BPN?
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De Rui Rocha a 09.01.2011 às 22:50

Hmm. Bem me parecia que você era da família dos Portantos. Considero que sim. Porque vivo num sistema político tramado que se chama democracia. E os meus concidadãos decidiram escolher José Sócrates em duas eleições consecutivas. E José Sócrates, Teixeira dos Santos e Vítor Constâncio decidiram nacionalizar o BPN. O que foi uma péssima decisão. Para a qual estavam em todo o caso legitimados pelo voto. E porque a democracia é assim. Imperfeita como o caraças, mas difícil de substituir por um sistema melhor. Pelo que, até ver, a única coisa que posso fazer é criticar e votar.
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De Anónimo a 09.01.2011 às 23:03

O voto não pode legitimar tudo. Facilmente o grupo PS se serviu de uma gestão danosa das contas públicas, do mesmo modo que o BPN, para satisfazer contas privadas (e desculpando, como bem disse Paulo Portas, os camaradas de partido que deveriam ir presos porque falharam na supervisão/regulação).

Na Islândia fez-se um referendo e o voto popular decidiu de modo contrário ao que a coligação no governo iria decidir, sabia? Qual acha que é o mais democrático? O parlamento eleito de 4 em 4 anos ou o que usou o plebiscito extra?

Por isso, mais do que criticar e votar, pode lutar para que esta democracia comandada pelo poder económico vá abrindo brechas para decisões populares mais frequentes.
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De Rui Rocha a 10.01.2011 às 13:55

Anónimo,
1 - Situo-me dentro dos limites da Constituição e de quanto lá está previsto em matéria de referendo e plebiscito.
2 - A prazo, creio que decisões como a da Islândia teriam como consequência, entre nós, que passássemos de uma pequena economia aberta a uma pequeníssima economia fechada. Os islandeses optaram por abanadonar os escritórios dos bancos para voltarem a ser lenhadores e pescadores. Veremos, no futuro, se lhes continua a agradar a opção que fizeram. Mas, no caso concreto de Portugal, o orgulhosamente sós tem provas dadas no passado. Nada recomendáveis.
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De Anónimo a 10.01.2011 às 20:37

Meu caro amigo, como é possível deixar implícito no seu "raciocínio" que acha mais democrata um governo que consulta o povo de 4 em 4 anos, do que um governo que, além de se renovar nesse período, consulta o povo quando este sai à rua e exprime um desejo contrário ao seu.

Foi uma acção nobre, a do governo islandês, infelizmente não reproduzida na Grécia nem na Irlanda, afogadas agora pela "ajuda" europeia. Lenhadores e pescadores não se tornaram. Na verdade são um caso de sucesso onde o desemprego não disparou, nem de perto nem de longe, para os indicadores que a Irlanda e a Grécia já exibem.

Não me admira nada que a imprensa europeia não reproduza alto e a bom som o bom exemplo, rebelde, da Islândia. É compreensível, se a Irlanda o tivesse seguido (algo que, segundo uma sondagem, era o desejo de 80% da população) a banca inglesa e alemã ter-se-iam ressentido.
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De Anónimo a 10.01.2011 às 20:59

E uma razão válida para votar de 4 em 4 anos, encontra? Por que não 2? Por que não 20? 4 anos não molda a visão dos políticos a um curto-prazismo que prejudica uma política sustentável, à semelhança do curto-prazismo com que o capital financeiro nos brinda e nos destrói a longo prazo em crises cada vez mais violentas?
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De Anónimo a 09.01.2011 às 17:21

Se todas as dívidas contraídas são para ser pagas, os que emprestam que deixem de avaliar riscos e, consequentemente, de cobrar juros.
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De Rui Rocha a 09.01.2011 às 22:52

Pois. É verdade. Mas, quando você não cumpre, deixam de lhe emprestar definitivamente. E você deve achar que a economia portuguesa sobrevive sem o crédito do exterior.
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De Anónimo a 09.01.2011 às 17:32

E mais, os bancos holandeses e ingleses cobravam juros de 10% ao capital que aplicavam na islândia, porque havia algum risco envolvido. Por que há-de o povo pagar esse risco?
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De Rui Rocha a 09.01.2011 às 22:54

Porque quando pedia emprestado sabia que era esse o juro. Se não concordava, não pedia. Pedir com a intenção de não pagar tem um nome. Mas, como eu esperava que o Benfica perdesse hoje e isso não aconteceu, estou um bocado aborrecido. E ainda digo alguma coisa que não devo.
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De Anónimo a 09.01.2011 às 23:07

O défice da Islândia (e, já agora, da Irlanda) disparou quando teve de tapar os buracos dos bancos falidos. Logo, durante anos não foi o Estado Islandês que contratou o risco e os juros, mas sim a banca irresponsável (e que antes de falir, realizou lucros acima desses juros e os distribuiu pelo cavaquistão lá do sítio, claro está).
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De Rui Rocha a 10.01.2011 às 13:58

Voltamos ao problema da regulação. Que impõe punição dos responsáveis e melhorias no sistema regulatório. Mas, que não pode implicar a aniquilação do sistema bancário. O crédito é fundamental para o crescimento, bem como as transacções financeiras em geral. Importa é que sejam aplicadas regras de transparência. E que o crédito obtido seja aplicado em bons investimentos, que gere riqueza a distribuir por todos.
A propósito, o anónimo é comunista ou anarquista (se me quiser responder, claro)?
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De Anónimo curioso a 10.01.2011 às 15:46

Caro Rui,
Aqui está uma pergunta que também gostava de lhe fazer.
O que é partidariamente o Rui? PSD?
Ou só contestatário?
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De Rui Rocha a 10.01.2011 às 18:30

Anónimo, só lhe perguntei porque no primeiro comentário me etiquetou de burguês. Não me respondeu mas, eu digo-lhe da minha parte: Não encaro a política como o futebol. E não visto a camisola de nenhum partido. Já votei PSD, como votei noutras forças políticas. Sigo a minha consciência e procuro em cada momento aquela que considero a melhor solução. Sei que não as há perfeitas, mas confesso-lhe que tenho muita dificuldade em encontrar nestes tempos uma que me agrade. Por isso, talvez de momento seja mais contestário.
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De Anónimo a 10.01.2011 às 21:03

Não o etiquetei de burguês, apenas declarei que você exprime os mesmos desejos que a burguesia e a imprensa que esta patrocina. O que são coisas distintas.

Não faltam lavradores pobres a votar no CDS, o partido "liberal" que se chegasse ao poder teria de enfiar o "mercado livre" no bolso para subsidiar o voto daqueles.
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De Anónimo a 10.01.2011 às 20:28

Acho que me posso definir como social-democrata, no sentido que essa palavra teve após segunda guerra mundial; logo, estou muito mais perto do PCP ou das correntes mais radicais do BE, do que propriamente do PSD/PS.

O que eu quero dizer é que se eu tenho o meu dinheiro aplicado num banco cujo juro é baixo porque está investido num fundo a 3% de juros e baixo risco, tenho de ser beneficiado em relação a quem o tem a render 10% ao especular na finança irlandesa ou islandesa, já que não obtive 10% antes de a banca estoirar. Fiz-me entender? O bail-out é o convite para que se continue a arriscar como até aqui.

De resto, sou um social-democrata que estudei as contradições básicas do capitalismo, a par de alguma história da economia. É por isso que me rio do descalabro da sabedoria popular actual, toda ela resumida no seu elevadíssimo raciocínio: "ser contra o bail-out é ser pela aniquilação do sistema bancário".

Tenho pouca fé na democracia, quando o poder financeiro se instala na academia, na imprensa e financia os seus partidos políticos. O que sobra? Bloggers relevantes que lutam pela socialização do prejuízo, não entendendo que nem a social-democracia nem o liberalismo se desenvolvem quando as massas perdem o poder de compra.
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De daniel a 10.01.2011 às 23:33

Se a justificação para a necessidade de recorrer a ajuda externa é a impossibilidade de continuarmos a pagar juros altos então entramos verdadeiramente no domínio de alfa centauro não sei das quantas. Porque como qualquer pessoa pode verificar os juros a que o fundo europeu e o fmi emprestam dinheiro são igualmente insuportáveis. Sendo que para esses países os juros nos mercados continuam elevadíssimos. Portanto esse argumento vale zero. Pedir ajuda ao fundo, neste momento equivale a entrar em default. As consequências em termos da credibilidade internacional e das soluções adoptar internamente são basicamente as mesmas. Com uma diferença. Se recorrermos ao fundo qualquer maioria política passa a ter a desculpa que precisa para destruir definitivamente o estado e transformar este país num protectorado ao serviço de todos os interesses menos o do contribuintes. Mais vale deixarmos de pagar e reestruturar a dívida. Renegociar os pagamentos. A entrada do fundo vai destruir a economia nacional por muitos anos. E possivelmente vai destruir a democracia.

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