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Delito de Opinião

Pobre Huck

João Campos, 07.01.11

 

(via O InsurgenteA ideia, ao que parece, não é nova - mas, como todas as ideias estúpidas, foi prontamente recuperada: foi publicada uma nova edição do clássico de Mark Twain Adventures of Huckleberry Finn, na qual a palavra nigger, nas suas 219 ocorrências ao longo do texto, foi substituída pela palavra slave. Como se fossem sinónimos. A ideia, de acordo com o seu mentor, o académico Alan Gribben (especializado na obra de Twain), é tornar o livro "mais adequado para as salas de aula", e, pasme-se, para "melhor exprimir as ideias de Mark Twain no século XXI". Isto excede o politicamente correcto - é um disparate a roçar o grotesco.

 

E não deixa de ser irónico numa época em que tudo o que é rapper se trata amigavelmente por "nigger", "nigga" e afins. O politicamente correcto parece ser imparável, e não poupa nada. Seja. Não há motivo algum para parar em Twain: The Catcher in the Rye, de Salinger, anda a pedi-las há mais de cinquenta anos. Como é possível, neste moderníssimo século XXI, um adolescente de dezassete anos como Holden Caulfield usar todo aquele calão? E, pior, fumar? Nem pensar nisso: alguém que tire o cigarro da boca do pobre Holden e, como a palhinha de Lucky Luke (outra vítima famosa do politicamente correcto) é capaz de ficar um tanto ou quanto deslocada na Nova Iorque dos anos 50, dêem-lhe pastilhas. Sem açúcar, claro, para não estragar os dentes.

 

Fica a sugestão. E deixo a sugestão aos leitores e aos colegas delituosos: que mais livros há por aí com necessidade de serem revistos para "melhor exprimirem as ideias dos seus autores no século XXI"?

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