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Diário irregular

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.01.11

4 de Janeiro de 2011

 

Tal como eu já aqui escrevi, e hoje foi sufragado por gente tão diferente como Miguel Sousa Tavares, Camilo Lourenço, Helena Matos ou Manuel Villaverde Cabral, não é pelo facto do candidato Cavaco Silva dizer qualquer coisa do género “hão-de nascer os homens que sejam mais honestos do que eu”, que ele se torna mais sério, mais honesto do que os outros que nasceram depois dele ou que escapa a que lhe sejam feitas perguntas incómodas.

Se o candidato Cavaco Silva não quiser responder às perguntas é lá com ele. Alberto João Jardim ou Pinto da Costa também só respondem ao que lhes convém. E não ao que a seriedade, a transparência da vida pública ou o respeito pelas instituições obriga. Nisso, Cavaco Silva não se distingue de nenhum desses dois. Desconversa. 

Escrevi, por diversas vezes, o que pensava sobre Cavaco Silva. Quem leu dever-se-á ter apercebido de que a partir do caso das escutas e da óbvia protecção dada a Fernando Lima passei a colocá-lo ao nível de um Rocha Vieira (mais um da Comissão de Honra). Por alguma razão Fernando Lima era também visita assídua em Macau – cruzei-me várias vezes com ele no Mandarim Oriental – e beneficiou do seu apoio e do de Jorge Rangel para publicar o que dificilmente publicaria noutro lado. Um promoveu em Macau os negócios dos "protegidos" – houve quem sendo director de um serviço público fosse nomeado por urgente conveniência de serviço para assinar um contrato, em representação do Governo de Macau, com uma sociedade anónima por acções, da qual também era accionista e administrador, enquanto funcionário público, e acabasse condecorado, logo a seguir, no 10 de Junho pelos bons serviços prestdos (o general Eanes não devia saber disto quando escreveu o prefácio do livro da Gradiva) –, o outro, sendo professor de Economia e ex-primeiro-ministro, acha normal gastar € 100.000,00 (cem mil euros) – uma bagatela que qualquer reformado tem debaixo do colchão para ir ao pão – a comprar acções não cotadas em bolsa de um banco onde pontificavam correligionários do partido, acções que vendeu com um lucro substancial sem que agora considere sequer admissível que se lhe pergunte como as comprou (por sugestão de quem, por intermédio de quem?) e a quem vendeu (pôs anúncio no jornal ou tratou de falar com um gestor de conta "amigo" para lhe arranjar comprador?), embora seja candidato presidencial e Presidente da República, e em que condições (cheque, dinheiro vivo, transferência bancária, e de quem?), remetendo as respostas às explicações que deve dar, a bem da transparência e da seriedade do regime, para textos esotéricos cozinhados no recato do seu gabinete, que religiosamente publica na Internet e que nada esclarecem sobre aquilo que importa, fazendo de conta que os outros, além de cegos, mudos e surdos, são parvos.

Um homem sério não remete para os textos que publicou in illo tempore num qualquer local da Internet a defesa da sua honra, dos seus pontos de vista e das suas convicções. Ou, pior um pouco, para as declarações que depositou no Tribunal Constitucional e que nada esclarecem sobre os negócios que andou a fazer antes de depositá-las, princípio que também aplico a qualquer outro político, chame-se Valentim Loureiro ou Jerónimo de Sousa.

Os desempregados, os pobres e os reformados, cuja defesa o candidato Cavaco Silva reclama em exclusivo, não têm banda larga no Sapo e dificilmente terão acesso a um computador para ler as declarações publicadas no site da Presidência da República. Quando muito irão à Internet para procurar trabalho, saber da melhor forma como recorrer a um subsídio da Segurança Social ou imprimir um formulário para esse efeito.   

Admito que aquilo que o candidato Cavaco Silva disse sobre a gestão do BPN pós-nacionalização, conduzida por alguns dos senhores da sua comissão de honra (eu bem dizia que estavam lá todos), e seguramente que já motivado pela antevisão dos “orgasmos” que os banhos de multidão do companheiro Jardim sempre lhe proporcionam numa deslocação à Madeira, digeridas que estavam as antigas críticas do anfitrião ao “Sr. Silva” (é preciso estômago!), retive as palavras desta noite de Fernando Ulrich sobre as críticas do candidato à acção do Governo no caso BPN: “Eu não sou um apoiante deste primeiro-ministro, mas penso que eles não cometeram tantos erros como os que estão implícitos na sua pergunta” (de Ana Lourenço, na SIC).

Eu também não sou (apoiante do primeiro-ministro, entenda-se, e não sou do Bloco de Esquerda). Nem nunca fui. Apesar de em tempos lhe ter dado o benefício da dúvida e até a minha confiança. Como dou a qualquer homem de bem antes de ver desmentidas as suas palavras pelas "alhadas" em que se mete.

Porém, como entretanto também não andei a comprar nem a vender acções, fosse do BPN, do BCP ou da Mota-Engil, continuo a pensar que tenho direito, como qualquer cidadão, a saber se as acções que Cavaco Silva tinha na SLN/BPN foram vendidas a um “veículo”, a uma offshore de um dos seus “compagnons de route” do cavaquismo, ou se o foram ao Manuel dos Anzóis, reformado, residente na Musgueira, que viu o anúncio da “venda de acções da família C. Silva”, por “motivo à vista”, num painel do Pingo Doce quando buscava “uma companheira para amizade sincera”.

É que a diferença entre mim, contribuinte, que vou pagar com os meus impostos os milhares de milhões do buraco do BPN, e o candidato Cavaco Silva, que como eu vai pagar com os seus impostos os milhares de milhões do buraco do BPN, é que ele ganhou umas dezenas de milhares de euros a comprar e vender acções da SLN/BPN e a seguir nomeou Dias Loureiro para o Conselho de Estado, e a mim ninguém me perguntou se as queria comprar e vender um ano depois com os proventos, que para lhe serem pagos, a ele e a outros como ele – fora da bolsa e pelos valores que foram – nos deixaram agora, a todos, de calças na mão. Ou se achava bem a nomeação de Dias Loureiro para o Conselho de Estado.

Não é por se ter libertado do escândalo antes do escândalo se tornar num caso de polícia que as coisas fazem diferença. Fá-lo-iam se Cavaco Silva falasse verdade aos portugueses em vez de se refugiar nas meias-palavras.

Isto não tem nada a ver com o que se passou em Inglaterra, na Irlanda, com as escutas, com o Freeport, com a licenciatura de José Sócrates ou com os robalos de um sucateiro.

Em causa estão apenas os "activos" de uma candidatura presidencial que em vez de motivarem verdade, transparência e respeito pelos eleitores, geram pesporrência paternalista e dúvidas sobre a capacidade do candidato em distanciar-se dos "veículos" que o trouxeram até aqui.



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