Um governo em ponto morto
À falta de notícias, no final de um dos piores anos de que há memória em Portugal, o Governo fez um enorme espavento a propósito da inauguração de um novo troço ferroviário na vetusta e maltratada linha do Algarve que permitirá - diz a propaganda governamental - reduzir em dez minutos a ligação entre Lisboa e Faro. O acto envolveu convites a jornalistas, reportagens televisivas e a inevitável declaração do ministro das Obras Adiadas. Está em curso uma "reforma estrutural" na área dos transportes, proclamou António Mendonça, que procura roubar a Helena André o título de pior ministro do segundo governo Sócrates.
Tudo isto se passou no domingo. Bastaram 48 horas para se saber que a "reforma estrutural" a que aludia Mendonça afinal afocinhou nas imediações do Poceirão. Sem passar cavaco ao ministro que dizia uma coisa muito diferente em Lisboa, o Governo português informava os responsáveis da Comissão Europeia, em Bruxelas, que decidiu atrasar todas as linhas de TGV, incluindo a ligação de Lisboa a Madrid.
Nunca um comboio 'rápido' demorou tanto a sair da gare. Entretanto, na véspera de Mendonça se vangloriar do tal novo troçozito de linha férrea, os espanhóis inauguravam em grande estilo a nova ligação em alta velocidade entre Madrid e Valência, cidades que passam a estar a hora e meia de distância. Há crise lá e cá. Mas eles aceleram para sair dela enquanto nós continuamos em ponto morto.


