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Um segundo prémio para Liu Xiaobo

por Pedro Correia, em 08.12.10

 

O Governo chinês anunciou que boicotará a cerimónia de atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo na próxima sexta-feira, em Oslo. E conta, para o efeito, com a solidariedade de 18 países, que também estarão ausentes. Países que, tal como a China, têm um currículo exemplar em matéria de respeito pelos direitos humanos. Fica uma amostra, não exaustiva mas muito elucidativa: Afeganistão, Arábia Saudita, Cazaquistão, Cuba, Egipto, Irão, Iraque, Marrocos, Paquistão, Sudão, Tunísia, Vietname. Como de costume, o Partido Comunista Português está bem acompanhado.

Contar com a hostilidade aberta destes países constitui um segundo prémio para Liu Xiaobo, condenado em Dezembro de 2009 a 11 anos de prisão, na República Popular da China. Que "crimes" cometeu este antigo professor de Literatura, justamente apelidado de "Havel chinês" pelo Libération? Foi signatário do documento Carta 08 - inspirado na Carta 77, assinada por Václav Havel e outros intelectuais durante a ditadura comunista na Checoslováquia - e publicou seis ensaios políticos na Internet em que assumia a defesa aberta de um sistema democrático. Sempre por meios inteiramente pacíficos. Foi quanto bastou para ser acusado de "subversão" - a mesma acusação que a ditadura salazarista reservava aos opositores que mandava encarcerar. Como justamente acentuam duas das mais prestigiadas personalidades contemporâneas - Havel e o arcebispo Desmond Tutu - num recente apelo público à libertação incondicional de Liu, a "brutalidade usada [pela China] para esmagar toda a dissidência dentro das suas próprias fronteiras demonstra que são [ali] necessárias reformas substanciais se o país pretender assumir um papel de liderança na comunidade internacional".

Entretanto, Hugo Chávez aplaude a repressão chinesa. Ahmadinejad faz o mesmo. O ditador tunisino Ben Ali também. E o Rei Mohammed VI, de Marrocos. E o inevitável Raúl Castro, entre outros. No fundo, não poderia haver melhor homenagem ao novo Nobel da Paz.


31 comentários

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De João Carvalho a 08.12.2010 às 01:31

As ditaduras dos nossos dias também andam agora muito sensíveis... hum... aos mercados. E o actual mercado chinês é uma tentação.
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De Anónimo a 08.12.2010 às 01:49

Sakharov e Nobel da Paz ao dissidente Assanger! O Ocidente está a chumbar a sua prova de fogo. Não nos devemos orgulhar de estar a rumar a um fascismo mais soft que essas 18 ditaduras solidárias, pois não?
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De Pedro Correia a 08.12.2010 às 12:46

Essas três linhas de comentário que escreveu ter-lhe-iam valido uns anitos de 'pildra' na China. Pense duas vezes antes de voltar a falar em «fascismo 'soft'», seja lá o que isso for.
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De Anónimo a 08.12.2010 às 17:32

É precisamente essa atitude que você exala: o de ver no Outro algo muito pior, que ofusca os males de que padecemos.
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De Anónimo a 08.12.2010 às 21:24

Há políticos que pedem a cabeça do fora-da-lei; as instituições, umas mais secretas que outras, já actuam na no mundo real e na internet para deterem o movimento que está em marcha. Se o caso wikileaks transporta um pequeno acto revolucionário, o simbolismo associado à caça ao homem é muito preocupante, pelo menos para quem se quer viver em democracia.

Mas isto sou eu, comunista, com muito orgulho, e por isso alguém que apenas nos quer a viver numa sociedade totalitária, aos seus olhos, um homem da imprensa que até está nomeado para um prémio de blogger.

Os próximos tempos prometem ser interessantes: tente situar-se sem ter o Outro com referencial.
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De Anónimo a 08.12.2010 às 21:25

Queria dizer "o Outro como referencial".
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De Pedro Correia a 08.12.2010 às 22:13

Tudo para isso para dizer o quê? Que a China é uma democracia? Confesso que não entendi.
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De Anónimo a 08.12.2010 às 22:33

Não se preocupe, em relação à China - e precisamente por ser comunista - concordamos que é uma ditadura.

E você é um tipo inteligente, pelo que entendeu o que eu disse. Acrescento apenas que sei perfeitamente de que lado estará você, e os da sua laia, assim que o "estado de excepção" passar a permanente.
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De Anónimo a 08.12.2010 às 22:36

E se comentei nesta caixa foi porque não encontrei sítio melhor, já que este blog está envolto num silêncio ensurdecedor em relação caso wikileaks. Joga mesmo bem com o nome DELITO DE OPINIÃO.
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De Pedro Correia a 08.12.2010 às 22:55

"Você e os da sua laia." Que expressão tão elegante. Esse vocabulário só o confirma como uma pessoa que preza e valoriza o diálogo.
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De Anónimo a 08.12.2010 às 22:58

Sim, "laia", sinónimo de "casta", adequado para definir os "jornalistas". De resto, confirma que tem dotes para desconversar.
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De João Carvalho a 08.12.2010 às 23:14

Ó Anónimo, preste lá atenção:
— até ver, Portugal não é a China e as suas amizades, pelo que não há qualquer motivo para V. ter medo e ficar escondido nesse anonimato;
— o caso Wikileaks não está silenciado, toda a gente fala nele, está ainda no adro para durar e virar e V. tem toda a liberdade para se pronunciar, já que lhe parece tão urgente pronunciar-se antes de pousarem as primeiras poeiras;
— finalmente, não abuse na terminologia que emprega nesta casa de pessoas de bem (menos ainda enquanto andar a monte), porque aqui ninguém lhe falta ao respeito (e eu não tenho a mesma paciência que o Pedro Correia).

Ficamos entendidos? Ora ainda bem que sim.
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De Anónimo a 08.12.2010 às 23:52

Assange é procurado internacionalmente por um crime duvidoso (não é sequer "violação" como os media têm feito acreditar, o que de qualquer modo não daria uma busca internacional naquelas proporções); entretanto três políticos em cargos relevantes pediram que fosse assassinado e que lhe fosse raptado o filho.

O silêncio que paira sobre esta poeira, já assentada, é sintoma de uma tomada de posição. Confesso que em relação a este blog esperava uma postura diferente.
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De João Carvalho a 09.12.2010 às 00:10

Ó Anónimo, V. é teimoso, além de ter medo de ser comunista. Eu também gostava que os seus camaradas tivessem posturas diferentes sobre muitas coisas, mas os deuses não me têm ajudado.

Quanto à sua insistência, se lhe dá jeito, pode ficar na sua e leve lá a taça. E diga que é pechisbeque se passar em Pequim, porque eles costumam rosnar a comunistas envergonhados que andam a passear com taças.

N.B. - Só lhe respondi por ter correspondido ao tom mais cordato que lhe recomendei. Mas, para discutir com agentes secretos, já chega. Adeusinho.
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De Anónimo a 09.12.2010 às 00:27

Eu não tenho vergonha de ser comunista. E não estava a falar consigo.
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De João Carvalho a 09.12.2010 às 00:30

Que pena. Agora fiquei triste...
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De Dylan a 09.12.2010 às 10:07

É comovente essa sua defesa ao Assange, só é pena não se saber se o homem está a soldo de alguém...
Mas quando a Wikileaks puser cá fora informações sobre a diplomacia de democracias comunistas quero ver se o seu discurso será o mesmo...
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De Pedro Correia a 09.12.2010 às 12:58

Tudo visto e somado, concluo isto:
Na China, os autores de blogues são ferozmente perseguidos e mesmo assim vários deles assinam com nome próprio. Em Portugal, onde qualquer imbecil pode regorgitar o que entender na Internet, há quem se refugie no anonimato para defender... a China.
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De Anónimo a 09.12.2010 às 13:58

Ser pela democratização de informação - serviço público que devemos à wikileaks e à imprensa associada - implica defender a China?
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De Pedro Correia a 09.12.2010 às 15:10

Ser pela "democratização da informação" inclui o mundo inteiro excepto a China?
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De Anónimo a 09.12.2010 às 15:15

Claro que sim. Não sei porque insiste em pretender que eu e você temos uma opinião diferente relativamente à China.
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De Pedro Correia a 10.12.2010 às 00:04

Se é assim, não sei por que motivo andamos há dois dias a discutir.
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De Anónimo a 10.12.2010 às 01:29

Ando há 2 dias a dizer que, apesar de todo o mundo saber que a China é uma ditadura opressiva, esse facto é o ceguinho em que vocês batem diariamente para evitar falar de leaks.
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De Pedro Correia a 10.12.2010 às 12:21

Você, pelos vistos, é que vem falar disso para tentar evitar que falemos do assunto do dia de hoje - o Nobel da Paz que não conseguiu ser entregue em Oslo a um destacado preso de consciência chinês.
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De Joana Lopes a 08.12.2010 às 10:25

Nem sei como não houve mais países que se rendessem à «real politik» e venerassem a grande China, Pedro...
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De Pedro Correia a 08.12.2010 às 12:47

Digo o mesmo, Joana. Mas é sempre comovedor ver o 'Avante', o democrata Mubarak e o Rei Abdallah na mesma trincheira...

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De Joana Lopes a 08.12.2010 às 13:31

E esta, Pedro?
http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2010/12/na-china-nobel-da-paz-em-contrafaccao.html
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De Pedro Correia a 08.12.2010 às 22:17

Pois, Joana. Conservamos ambos o saudável hábito, infelizmente menos generalizado do que devia, de chamar ditaduras às ditaduras. A todas, não só a algumas.
Por mim, adianto desde já: tenciono continuar assim.
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De singularis alentejanus a 08.12.2010 às 11:57

Para quando a conscencialização de todos nós, em especial europeus, no sentido de que cada peça, roupa, ferramenta ou o que quer que seja, made in China, é estar a contribuir para a exploração de milhões de pessoas naquele país?
O custar pouco dinheiro, porque barato é outra coisa, acaba por não custar, porque o que os estados pagam aos seus desempregados das fábricas que fecharam e que se deslocaram para a China, é um valor bem maior. Para não falar de outros prejuízos indirectos que o desemprego arrasta.
Como é possível que o Ocidente fale em Direitos do Homem e contribua para a manutenção de ditaduras?
O dinheiro não tem cor....é bem verdade. Cambada de hipócritas!!!!!!!!
Depois, para disfarçarem o assunto, manifestam todo o apoio ao actual Nobel da Paz, como se isso contribuisse para a Liberdade e Democaracia.
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De Pedro Correia a 08.12.2010 às 12:55

A oposição à ditadura chinesa, como a qualquer outra ditadura, precisa de nomes e rostos reconhecidos em todo o mundo. Isto facilita e abrevia o combate necessário à democratização da China - como sucedeu, de resto, em vários outros países. Isto em nada prejudica o combate ao trabalho escravo na China, antes pelo contrário. Esta é também uma das preocupações dos opositores ao actual regime de Pequim, como Liu Xiaobo, que paga uma pesada pena de prisão por isso.
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De António Vilarigues a 17.12.2010 às 15:29

Leituras reveladoras (digo eu com o meu mau feitio):
1. Quem escreveu «que a excelência de Bush na luta contra o terrorismo [no Iraque] não pode ser negada»? (http://ocastendo.blogs.sapo.pt/1068544.html)
2. Liu Xiaobo nas suas próprias palavras... (http://ocastendo.blogs.sapo.pt/1078083.html)
A propósito: já leu quais são os critérios de atribuição do Prémio Nobel da Paz?

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