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Desfile de saudade

por João Carvalho, em 04.12.10

Passei o dia a ler e a escutar muita gente a pronunciar-se sobre Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. Pessoas conhecidas e cidadãos anónimos, pessoas que privaram com eles e outros que nunca os viram viver. Durante o dia, enquanto lia e ouvia o que pude, senti frequentemente a tentação de pensar que estamos perante um "sebastianismo" revisto e actualizado. Afinal, os portugueses sempre tiveram uma espécie de necessidade de encontrar um salvador, um mito que não místico, alguém que a memória consiga rever em carne-e-osso, alguém que partisse antes de poder partir, alguém a quem confiar as dificuldades colectivas, sabendo ao mesmo tempo que não voltará — o que alimenta ainda mais esse lamento sofrido tão português.

Mas não me parece bem isso. Acredito mais que assisti a uma saudade, à saudade de Sá Carneiro. A certeza de que Portugal seria necessariamente diferente, sem se saber em que medida, e a saudade de um homem que marcou um tempo já em si marcante. A saudade de um sonho, também — ou sobretudo. Um sonho que nunca se realizou, mas que era possível sonhar e de que é possível ter saudade. Creio que foi a isso que assisti. Admito que o sonho não teve morte em dia certo a horas certas. Porém, morreu. Ficou esta saudade que hoje vi desfilar.


23 comentários

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De Pedro Correia a 05.12.2010 às 00:42

Muito bom, o teu texto. Julgo também que não existe nenhum sebastianismo na recordação de Sá Carneiro e Amaro da Costa, dois políticos que se destacaram pelo seu brilhantismo e pela convicção que deixavam transparecer em todas as suas intervenções públicas. Há aqui sim, como acentuas, bastante saudade. Aliás, muito compreensível. A saudade de um tempo em que tudo parecia possível.
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De João Carvalho a 05.12.2010 às 05:42

É exactamente isso que me parece, compadre.
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De Nicolina Cabrita a 05.12.2010 às 03:08

Tanto quanto recordo, a primeira vez que votei dei o meu voto à AD mas, curiosamente, Sá Carneiro sempre me suscitou «mixed feelings» e nunca consegui explicar bem porquê.
Concordo com o João. Também me parece que há marcas de sebastianismo na evocação de Sá Carneiro. E parece-me ainda que, independentemente da importância que teve na nossa História recente (aspecto que o Pedro tratou com a habitual mestria, no primeiro texto desta «série»), o registo que melhor corresponde à ideia que guardei da pessoa em causa talvez seja o do muito interessante texto do José Navarro de Andrade. Muito provavelmente, tudo o que acabei de escrever são disparates. Em qualquer caso, gostei muito de ler o que hoje publicaram sobre este tema. Parabéns aos três.
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De João Carvalho a 05.12.2010 às 06:27

Grato, Nicolina, pela parte que me toca das suas palavras.

Não quis dizer exactamente que seja um novo "sebastianismo", porque julgo ter descoberto uma nuance que estabelece a diferença: a saudade — daquele(s) homem(ns) e, sobretudo, daquele sonho — parece-me descrever melhor o verdadeiro sentimento.

Já agora, repare que o Rei-criança, cujos conselheiros deviam ter impedido que partisse para a guerra e ainda mais que fosse para a frente de batalha, nunca suscitou saudade, mas apenas o medo pela instabilidade que se instalou e que só o regresso dele teria resolvido sem perigo para a nação.

Mais a mais, ao tempo de D. Sebastião já havia artilharia e, por isso, já nem os comandantes iam (e nunca mais foram) às frentes de batalha, onde se cruzava e concentrava o fogo dos artilheiros: ficavam atrás para dar instruções de acordo com a evolução do confronto.

A artilharia tinha alterado definitivamente os cenários de guerra e a decisão solitária daquele monarca imberbe e impreparado — que queria cobrir-se de uma glória de tempos passados e que ningém soube impedir — foi um dos maiores e mais arriscados disparates da nossa História e Sebastião não podia deixar saudades.
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De Nicolina Cabrita a 05.12.2010 às 17:03

Tem razão, o Rei-criança não deixou saudades. Mas há saudade no «sebastianismo», uma «saudade de nós» (um «nós» que é povo, nação), isto é, um desejo colectivo de voltar atrás no tempo, a um período mais feliz da nossa História. Ainda que Sá Carneiro tenha sido uma personalidade com inegáveis qualidades (neste aspecto muito diferente do D. Sebastião), e por isso tenha deixado saudades, neste caso há também a saudade de um tempo, de um sonho, como o João bem refere no seu texto, e nesta medida, creio que existe, igualmente, uma «saudade de nós», que é o ponto de contacto que me parece existir entre estes dois momentos históricos.

A meu ver acresce à diferença que aponta, ainda uma outra:
Após a morte de Sebastião, tínhamos saudades da independência. Agora é profundamente mais triste: temos saudades de um tempo em que a honra era importante na vida das pessoas, incluindo na vida pública...
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De João Carvalho a 05.12.2010 às 21:04

Mais uma vez, Nicolina, estamos de acordo. E não só no essencial, mas na leitura de muitos detalhes.
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De Adão de Oliveira a 05.12.2010 às 10:48

Excelente texto e óptimos comentários.

Que saudade daqueles tempos!

Não cheguei a ter oportunidade de votar no seu PPD ou na sua AD (em Dezembro de 1980 tinha apenas 17 anos), mas participei em várias campanhas eleitorais - que entusiasmo (desinteressado quanto a clientelismos), especialmente por parte dos jovens! Foi por causa de Sá Carneiro que aderi à JSD e fui dirigente local e foi devido à politiqueirice em que se entrou pouco depois que saí.

Dizem alguns que Sá Carneiro buscava o confronto. Penso que ele sabia o que queria, definia o seu rumo (e como era difícil definir rumos naqueles tempos...) e se isso levasse ao confronto, não fugia dele.

A ideia com que fiquei de Sá Carneiro é que era um verdadeiro líder, com grande determinação e carisma.

Quando voltarmos a ter um homem assim na política, voltarei a interessar-me e a envolver-me, a nível nacional. Por agora, só vejo gente mal formada (ou formada à pressa...) e "copinhos de leite".

Cumprimentos.
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De João Carvalho a 05.12.2010 às 11:31

A sua saída, meu caro (como a retirada de tantos outros desiludidos), pode também ter contribuído para a gritante falta de formação generalizada que temos hoje na política. Isto sem lhe atribuir qualquer culpa, evidentemente. Mas talvez valesse a pena reunir uns tantos e repensar as coisas, porque alguma volta o País terá de dar e por algum lado terá de começá-la.

Agradeço as suas palavras e o testemunho que aqui veio deixar sobre um período em que eu já tinha mais de 20 anos. Espero que volte mais vezes e que nos deixe a sua marca.

Retribuo os cumprimentos com um abraço.
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De Adão de Oliveira a 06.12.2010 às 02:14

Caro João Carvalho: Agradeço a amabilidade das suas palavras.

Sabe, já "regressei" por duas vezes, em dois momentos concretos, a pedido de candidatos oposicionistas ao poder instituído no meu concelho (Marco de Canaveses), mas com a condição de ficar nas listas em lugares não (ou dificilmente) elegíveis. Prefiro assim, para não suscitar dúvidas quanto às minhas intenções.

Mas parece que o eleitorado (o povo) gosta de ser enganado e opta conscientemente por quem sabe que o engana (diziam, na campanha das últimas autárquicas, ao candidato que eu apoiava e à sua entourage, que ele era demasiado honesto para presidente da câmara!) - desde quando começou o povo do meu país a considerar que ser honesto é um defeito? E o que é isso de ser "honesto demais"? Enfim, ao que isto chegou...

Não duvido que muitos dos que se afastaram há largos anos fazem falta, por conhecerem bem o que se passou nos primeiros anos pós-revolução, pela capacidade que revelaram na luta (desinteressada) por um país mais desenvolvido e por uma sociedade mais fraterna e mais justa e porque não querem e não precisam de "tachos".

Também acho que "talvez valesse a pena reunir uns tantos e repensar as coisas", até porque "alguma volta o País terá de dar e por algum lado terá de começá-la".

Mas por onde, caro João Carvalho? Eu, que continuo a considerar-me social-democrata, nas últimas legislativas votei no MEP...

Devido à vida profissional e familiar que tenho, a minha disponibilidade é muito pouca, mas se aparecerem uns tantos, vamos à luta!

O João alinha?

Aceite um abraço.
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De João Carvalho a 07.12.2010 às 00:04

Subscrevo o que diz. E alinho. Tanto alinho que estou com uma perna em algo que está a surgir e onde tenho amigos em quem confio cegamente. É do Porto, é do Norte, é regionalista. Não sei se vai ser bom e sei que não vai ser perfeito; mas já mexe e é criado de raiz, o que me basta para ter esperança e alimentar sonhos.

Para já, é onde estou. Deve saber do que falo.

Retribuo o abraço, com apreço.
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De Adão de Oliveira a 07.12.2010 às 17:09

Julgo tratar-se do Partido do Norte, não é verdade? Está mesmo confiante em que valerá a pena? Aonde posso obter informações acerca desse movimento?

Cumprimentos,
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De João Carvalho a 07.12.2010 às 17:49

Nada posso garantir, mas tem a vantagem de estar a nascer e começar a agregar sensibilidades políticas diversas (incluindo políticos do Porto e região igualmente desiludidos). Falei no PN aqui
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1836621.html
e aqui
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/2207494.html
graças ao Joaquim Pinto da Silva (em Bruxelas), de quem sou amigo há muito. Encontrará nesses posts o link para as primeiras informações.

Cumprimentos, meu caro.
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De Adão de Oliveira a 08.12.2010 às 20:14

Já fui ver e também já tinha lido os seus textos aqui no DO acerca do PN.

Vou tentar obter mais informação.

É capaz de valer a pena, até porque a desilusão é grande e generalizada e alguém tem de (pelo menos, tentar) dar a volta a "isto".

Um abraço.
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De João Carvalho a 08.12.2010 às 20:23

Muito bem. Estou também a tentar o contacto de Bruxelas de que lhe falei, mas não tem sido possível. Acho que o ponto de situação está no amadurecimento e consolidação de princípios (ou estava recentemente) e, por isso, ainda não há movimentação capaz para o exterior. Mas vamos manter-nos atentos.

Sugiro-lhe, para maior facilidade, que continue a dispensar-nos a sua visita e que vá deixando aqui e ali a sua presença, para nos contactarmos em textos editados sempre mais no topo do blogue.

Um abraço.
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De Cristina Torrão a 05.12.2010 às 11:45

Eu tinha 15 anos e uma grande pena de ainda não poder votar AD! O entusiasmo também me contagiou, mas nunca cheguei a inscrever-me na JSD, embora o tivesse ponderado. Sempre me assustaram um pouco os compromissos políticos...
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De João Carvalho a 05.12.2010 às 11:57

Estamos sempre a tempo, mas é natural que o compromisso possa agradar a uns e desagradar a outros.
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De Adão de Oliveira a 08.12.2010 às 20:35

Cara Cristina,

Os compromissos políticos, desde que "descomprometidos" (no sentido de mantermos a nossa independência intelectual e económica - ou seja, desde que não dependamos da política para sobreviver), não são, em si mesmos, negativos. Podemos sempre, no momento em que nos sintamos desconfortáveis com o projecto político em questão, desmotivados, desiludidos, etc., "bater com a porta".

É por essa razão que eu defendo que não deviam existir profissionais da política, pois eles, devido até ao instinto de sobrevivência, têm tendência para tudo fazerem no sentido de manter os lugares que lhes permitem usufruir um rendimento, uma remuneração.

Os melhores políticos são e sempre foram aqueles (nem todos, obviamente) que não dependem da política, por terem uma actividade profissional rentável e com provas dadas e que se dedicam à "coisa pública" pelo gosto de serem úteis à comunidade. Não concorda?

Cumprimentos.
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De Cristina Torrão a 09.12.2010 às 12:16

Concordo, caro Adão. Mas mesmo a "política descomprometida" exige muita resistência e capacidade de encaixe. Está-se exposto publicamente e talvez seja essa exposição que me assusta um pouco.

Mas admiro muito as pessoas 'que se dedicam à "coisa pública" pelo gosto de serem úteis à comunidade' e foi com muito interesse que segui o seu "diálogo" com o João Carvalho. Não há dúvida que são necessários novos projectos, que isto tem que "levar uma volta"...
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De João Carvalho a 09.12.2010 às 12:35

Mas é que tem mesmo, caríssima Cristina. Não será fácil encontrar-lhe a ponta, que o novelo está um caos, mas tem de levar uma volta a sério.
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De Nuno Pereira a 05.12.2010 às 21:03

Normalmente quem tem uma morte assim trágica e com contornos ainda pouco esclarecedores, deixa a nostalgia de, se vivesse tudo seria diferente.
Sá Carneiro se fosse vivo, Portugal estaria na mesma situação em que está!
São mais de trinta anos com as mesmas politicas e não seria Sá Carneiro a mudar o que hoje está instalado como um vírus sem cura.
Na era Sá Carneiro tínhamos políticos, com a vertente patriótica que viviam para o país, saído, ainda cheio de estilhaços, de longos anos de ditadura, onde os Portugueses acalentavam todas as esperanças de um país justo e socialmente favorável aos mais desfavorecidos. E como se vê hoje, são os camuflados dos novos políticos que nos governam e como!
Portanto, com ou sem Sá Carneiro, Portugal navega para o abismo sem fim à vista.


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De João Carvalho a 07.12.2010 às 00:10

Entendo e respeito o seu ponto de vista, mas veja bem o que escrevi:
— «Portugal seria necessariamente diferente, sem se saber em que medida»:
— a nostalgia que muito bem refere traduzi-a eu por sonho, porque o momento era realmente de sonhos, com ou sem tragédia.

Como vê, não estamos muito distantes.
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De Nuno Pereira a 07.12.2010 às 18:35

É bem verdade, não estamos muito distantes!
Um abraço.
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De João Carvalho a 07.12.2010 às 19:03

Um abraço, Nuno.

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