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Sá Carneiro trinta anos depois

por Pedro Correia, em 04.12.10

 

Francisco Sá Carneiro desempenhou um papel histórico no actual regime: reconciliou a direita portuguesa com a democracia. Esta foi uma missão para a qual estava vocacionado, por uma espécie de sentido messiânico, e em que viria a ser bem sucedido nos dois últimos anos da sua vida, desenrolados de forma vertiginosa, numa desesperada corrida contra o tempo. O facto de ter rompido com o regime anterior ao 25 de Abril após uma fracassada tentativa de levá-lo por rumos reformistas, como viria a suceder em Espanha, conferia-lhe uma legitimidade que poucos tinham na sua área política, dados os compromissos estabelecidos com a ditadura.

O combate decisivo para a implantação da democracia no alucinado Verão quente de 1975, contra a esquerda revolucionária, fora liderado por Mário Soares, com quem Sá Carneiro sempre estabeleceu uma rivalidade que nunca viria a ser superada, apesar da cordialidade pública que exibiam. Desafiado nesta espécie de confronto íntimo com Soares, o fundador do PPD/PSD sentiu ainda mais pressa em entrar na História, o que viria a suceder. Tinha qualidades para o efeito, bem reveladas na sua singular trajectória de uma década no palco da política: visão estratégica, uma inegável capacidade de comunicação e aquele atributo tão indispensável quanto indefinível que à falta de melhor certos politólogos costumam chamar carisma.

Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, a partir de uma sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. Teve razão desde o início ao defender a autonomia regional, o afastamento da tutela militar e o fim do virtual monopólio da economia pública no Portugal pós-25 de Abril. E superou o teste da governação, após duas maiorias conquistadas nas urnas, embora ninguém saiba até que ponto poderia vir a ser vítima dos próprios impulsos se o destino não o tivesse colocado na fatal rota de Camarate, faz agora precisamente 30 anos.

Não teve razão, com alguma frequência, quando deixava a emoção sobrepor-se à implacável lógica cartesiana. Foi, nomeadamente, o que sucedeu no seu desenfreado combate contra o Presidente Ramalho Eanes que lhe consumiu as energias nos últimos meses de vida. A derrota nas presidenciais de 1980, a que já não assistiu, confirmava que tinham razão aqueles que em vão procuraram dissuadi-lo de transformar o popular Chefe do Estado em adversário principal.

 

Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.

Graças a ele, a democracia portuguesa não ficou amputada.  

Ficámos todos a dever-lhe isso.

 

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77 comentários

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De Pedro Coimbra a 04.12.2010 às 11:28

Nunca mais me esqueço do dia, Pedro.
E dos que lhe vieram imediatamente a seguir.
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:01

Também eu não, Pedro. Por motivos de toda a ordem. Inclusive pessoal.
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De Pedro Salgado a 04.12.2010 às 20:34

A memória da locução de Raul Durão, da interrupção da novela "Dona Xepa" e música fúnebre ainda está bem presente. Morreu um grande político que não queria que um PPD de centro esquerda se transformasse no PSD de direita que hoje é. Certo é, também, que se Sá Carneiro fosse vivo Cavaco Silva não teria metade do protagonismo que tem hoje...
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De Pedro Correia a 05.12.2010 às 00:49

Sá Carneiro partiu cedo. Mas com a missão que lhe cabia já cumprida. O essencial estava feito. Reconhecer isto é a melhor homenagem que podemos prestar-lhe 30 anos depois.
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De lucas a 05.12.2010 às 15:05

e estou quase certa que desgosto teria este sr. ao ver o presidente de portugal que o "partido" elegeu....
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De Pedro Correia a 05.12.2010 às 21:18

Bem, o actual Presidente de Portugal foi o ministro das Finanças de Sá Carneiro. Pelo menos naquela altura havia sintonia entre eles.
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De João Carvalho a 04.12.2010 às 12:01

Muito bem, compadre.
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:02

Obrigado, compadre. Senti hoje o impulso de escrever estas linhas.
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De jonasnuts a 04.12.2010 às 12:26

Em destaque, na Homepage do SAPO.
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:02

Muito grato, Jonas. cada vez mais.
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De Anónimo a 04.12.2010 às 12:58

30 anos depois continua por desvendar este estranho acidente , o problema da nossa justica nao e so de agora mas sim de a muitos anos atras , se descobrem o que convem..........
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:03

'A' muitos anos 'atrás' a nossa justiça era, digamos, pouco letrada.
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De Pinto de Souza a 04.12.2010 às 20:49

"30 anos depois continua por desvendar este estranho acidente" "morreu" "acidente"

"mas meus Senhores temos que chamar os nomes correctos às coisas "foi assassinado"

Pelo que sei um destes dois comentadores tem razão!

Fiz o SMO-serviço militar obrigatória com um mancebo de Camarate. Que por ser de lá, era apelidado de Camarate.

Em termos de beleza o pobre rapaz tinha sido dos últimos a escolher. Por essa razão, todos os colegas militares lhe diziam:

"Camarate, quando vires alguém mais feio que tu mata que é bicho"

Há 30 anos, ao tomar conhecimento do sucedido disse para mim:

"O Camarate não deixou escapar a oportunidade !"
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De Pedro Correia a 05.12.2010 às 21:19

Ninguém pode dizer hoje com absoluta certeza «foi acidente» ou «morreu assassinado». Algo sem dúvida lamentável, passado todo este tempo.
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De w4apz7v a 08.12.2010 às 22:21

Certeza, certeza, só quando a Justiça deixar-se deixar...-que se esclareça DE VEZ, este crime mal investigado!
Porém, há que não esquecer José Esteves, Leo Rodrigues, etc..Sobretudo o primeiro que, ainda recentemente, ao abrigo do caricato da prescrição(..) se deliciou a confirmar que foi ele quer trouxe a bomba, mas "não foi quem a colocou"! Nem a água é tão cristalina...
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De Pedro Correia a 09.12.2010 às 23:19

Pois. A verdade é que a justiça ficou de braços cruzados. À espera do prazo de prescrição.
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De rui a 04.12.2010 às 13:03

morreu porque nao fazia parte da moçonaria
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:03

Com 46 anos, de facto, já não fazia parte da 'moçonoria'.
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De tativic a 05.12.2010 às 18:53

Morreu, não por isso, mas sim, porque teve a infelicidade que o DESTINO lhe reservou: Tombar ASSASSINADO, "por arrasto", já que o crime não foi arquitectado contra ele, mas sim contra Amaro da Costa, que era quem ia servir-se do
Cessna, para se deslocar, mais cedo ao Porto, para o Comício de encerramento; Sá Carneiro, devido ao Conselho de Ministros se ter prolongado, apanhou a "boleia da morte"! Até nisto, os assassinos têm sorte: MATARAM, de uma vez, não UM como era suposto acontecer, mas SÓ os dois maiores políticos da altura, quiçá, dos maiores do século XX.
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De Pedro Correia a 09.12.2010 às 23:20

De facto, se alguém era visado só poderia ser mesmo Adelino Amaro da Costa, então ministro da Defesa.
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De abeldeoliveira a 04.12.2010 às 14:24

Fala-se em "morreu" "acidente", mas meus Senhores temos que chamar os nomes correctos às coisa "foi assassinado".
Muitos como eu depositavam Nele muitas esperanças de que tudo faria (e tinha estaleca para isso) pelo crescimento do nosso País, mas havia forças adversas que tudo fizeram para o travar definitivamente.
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:05

Morreu? Claro que morreu. De acidente não falei, nem ousaria fazê-lo com a mesma certeza que usa para dizer que SC foi assassinado.
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De Anónimo a 04.12.2010 às 14:36

Sá Carneiro não morreu nem nunca morrerá nas nossas memórias.
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:06

Como se comprova, 30 anos depois.
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De deda a 04.12.2010 às 14:47

trinta anos depois da partida deste grande lider.Um homem que marcou a historia dos lideres na nossa democracia.Agora pergunto sera que portugal estaria assim se ele fosse vivo?Concerteza que nao.Fica uma memoria de um grande lider.
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:07

Infelizmente, a História nunca se escreve com "ses". Esse o domínio da ficção.
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De emília lopes a 04.12.2010 às 14:50

Eu tinha 25 anos nessa data, nunca me esqueci desse fim de tarde! Senti medo, muito medo, porque o político em quem eu depositava as minhas esperanças para o futuro do meu país tinha sido alvo de «assassinato» por cobardes, mesquinhos, traidores, pessoas más.....O pior é que ainda hoje sinto medo e insegurança!
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:09

Com a natural diferença de escala, o choque da morte de Sá Carneiro equivaleu para os portugueses ao da morte de JFKennedy para os americanos. Por isso muita gente se lembra ainda do momento exacto em que escutou a notícia da morte dele.
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De Luís Lavoura a 04.12.2010 às 15:10

Esqueceu-se de mencionar que foi no seu tempo conhecido como "o homem dos golpes de rins", tantas e tão espetaculares foram as mudanças de orientação e política que imprimiu aos seus fieis seguidores no PPD. E de mencionar que só mesmo os fieis o seguiram, porque as suas contradições incessantes fizeram muitos abandonar o PPD.
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De Pedro Correia a 04.12.2010 às 16:13

Desvalorizar os sucessos eleitorais - três seguidos, em legislativas e autárquicas, em 1979 e 1980 - de Francisco Sá Carneiro, o primeiro político de direita a ascender ao poder em Portugal por genuíno sufrágio popular - parece-me um clamoroso erro de análise da sua parte. "Só mesmo os fiéis o seguiram?" Tomara o PSD que perdeu as legislativas de 2009 ter o pior resultado registado pelo PSD de Sá Carneiro nesse biénio.
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De w4apz7v a 04.12.2010 às 21:18

Lamento desdizer algumas das suas estranhas-ou talvez não- afirmações:
1º.-essa dos "golpes de rins" deve ter lido em algum guião de judo ou parecido; tal adjectivação é de seu ÚNICO conhecimento;
2º.-O que chama de "fiéis seguidores" do PSD, são aquilo a que se chama, APENAS, a maioria do Povo Português;
3º.-os "muitos" que abandonaram o Partido, (21), e que, não tendo "arcaboiço" para ombrear com Sá Carneiro, não se sujeitaram a ser eternas figuras secundárias; então formara uma associação-não um Partido-a que denominaram de ASDI; foi parto prematuro, com morte anunciada! Para mal dos pecados de"alguns" Sá Carneiro foi, sem dúvida, a par de Salazar, um dos maiores Estadistas Portugueses, do século XX
Morreu por arrasto, porque um Ministro sério-e seu amigo-quis acabar com ilegalidades e abusos!

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