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Portugal, Estado Social 2.0

por Rui Rocha, em 29.11.10

 

Muitos não terão dado por isso, mas Portugal é hoje um Estado Social 2.0. É claro que, tal como antes, tudo assenta na rede. De interesses, de compadrios e de cumplicidades que nem às paredes se confessam. Mas, o Estado Social 2.0 é muito mais do que isso. A evolução suporta-se no desenvolvimento de novas Plataformas que aproveitam os efeitos de rede para os tornar mais poderosos. Beneficiando uma certa inteligência colectiva. Desenganem-se. Este país não é para meninos. Nem para velhos. Nem para doentes. Nem para os que praticam o mérito sem rede. É um país para rapazes com acessos e largura de banda. Depois de estar na rede, é preciso ter conta numa das Plataforma disponíveis. Se possível, em várias. É certo que, nesta coisa das Plataformas, nem tudo são rosas. Há por aí laranjas podres. O HiddenFace Book já conheceu melhores dias. No BPN já não há amigos. A Plataforma do Aeroporto tem cada vez menos Otários. Até ver, o TGV é o maior sucesso. Quem não fizer login, perde o Comboio. Tomemos então a Plataforma TGV como exemplo. Por estes dias, a moda é substituir a fotografia por cartoons. Na Plataforma TGV também é assim. Seja. Vamos por aí. O Ministro Mendonça parece um Chapeleiro Maluco? Desorientado e louquinho pela ferrovia… Estão a ver mal! Se olharem com atenção para o boneco, verão que ele é o cocheiro de uma carruagem de interesses. E tem pressa de chegar. Na Plataforma TGV, está também um Coelho Relojoeiro. Fez de um hobby profissão. É o Hobby da Construção. No relógio do Coelho, os ponteiros giram sempre a grande velocidade. Em sentido contrário ao do interesse nacional. À medida que a corda do relógio acaba, a velocidade aumenta. E o tempo está a esgotar-se. A carruagem desenfreada que o Ministro Cocheiro conduz é a da Cinderela. Na Plataforma TGV, o Governo é representado pelo desenho da Fada Madrinha. Está bem gordinha, a fadinha. Há uns tempos colocaram-lhe uma Banda Gástica. Ainda faz uns passes de magia, mas já não tem poderes ilimitados. Um dia destes, vai ser uma Fada Magrinha. O feitiço da Cinderela termina quando soarem as badaladas do FMI. Ou das eleições antecipadas. Ou do Governo de Salvação Nacional. Ou do Congresso do PS. Ou do Carrilhão da Merkel, afinado pelos tacões do Sarkozy. Depois disso, a Cinderela será outra vez uma criada esfarrapada. Caso não tenham reparado, esta Gata Borralheira é o esboço que substitui a fotografia de um país. Incomparável. Com a Grécia, com a Espanha ou com a Irlanda… Até essa meia-noite fatídica, é preciso que o Príncipe fique embeiçado. Que a história de amor não tenha retorno. Que o negócio role sobre carris. Na Plataforma TGV, o desenho animado com mais amigos é um Banqueiro Forreta. Apesar de ainda ser cedo, já lhe mandaram as Boas Festas. Em português do Brasil, que por cá já não havia dinheiro para vales postais: “Oi. Está em linha? Feliz Natau, Mr. Scrooge. Tomara que Papai Noeu ponha um trenzinho em seu sapatinho”. E um par de botas. No Estado 2.0, as Plataformas são trampolins. Quem não salta, não é da malta. Os trampolineiros profissionais saltam mais alto e estão albardados com pára-quedas dourados. Neste Estado Social 2 ponto 0, o sítio certo para estar fica além do ponto. Onde quer que isso seja. Aí as vantagens são sempre multiplicadas por 2. Em contrapartida, aquém do ponto, tendem todas para zero. À esquerda e à direita. Dizem que este Estado Social 2.0 é colaborativo. É verdade. Até certo ponto. Os desempregados, os jovens licenciados, os párias, a classe média, os jornalistas, os desiludidos, os bons e os maus, os entusiasmados e os cansados, os solteiros e os casados, todos têm lugar nestas Plataformas. Cabe-lhes uma única e indispensável missão. Colaborar. Carregar no botão do polegar virado para cima: “Like”. O botão “Dislike”… ainda não foi inventado. Calha bem, porque o botão “Like” é que faz subir os que estão além do ponto. Os colaboracionistas recebem em troca um arremedo de protecção social. Embrulhado, com um laço, em títulos da dívida soberana. Até ao dia em que o Estado desamigar.


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