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Convidado: PEDRO ROLO DUARTE

por Pedro Correia, em 23.11.10

  

O clamor

 

Há uns anos, ao balcão de um conhecido restaurante lisboeta, debatia com o empregado a essência da democracia. Ele saudava – com saudade e em saudação... – Oliveira Salazar, e afirmava que os melhores anos da sua vida tinham sido passados sob a ditadura.

Eu tentava explicar-lhe as vantagens da democracia: o direito de voto, a liberdade de expressão, a fiscalização permanente do poder.

Em vão. À liberdade de expressão, respondeu-me: “de que me serve poder gritar se não tiver o que comer e por isso nem força terei para gritar?”. Ao direito de voto, disparou: “de que me serve votar, se ganham sempre os mesmos desde 1974? Ao menos com o Salazar não havia ilusões de mudança”. E à fiscalização do poder, foi claro na resposta: “quando alguém percebe o erro que eles cometeram ou os abusos praticados, já eles estão longe a administrar empresas privadas ou mesmo públicas...”.

Na simplicidade da argumentação, aquele homem calou-me. Era impossível dar-lhe razão, mas era ainda mais difícil rebater a argumentação.

Tenho-me lembrado dele nestes dias de crise. Nestes dias em que de nada serve a liberdade de gritarmos contra o sistema, de pouco serviu a presumível fiscalização do poder que nos cabe, nestes dias em que está à vista o que do nosso voto foi feito.

No caldo que está criado para desacreditar o sistema, abrem-se as bolhas da intolerância que resultam nos raciocínios simples, lineares, difíceis de rebater. Quando a democracia não responde por si, naturalmente, a quem dela duvida, quem por ela pode responder que não seja ditadura? Foi aqui que chegámos. É aqui que estamos. De uma vez por todas, alguém que nos grite o essencial: que este é o pior dos regimes, com a excepção de todos os outros. É por isso que clamam os democratas. É por isso que clamo e reclamo. Mas também é isso que, como o empregado salazarista do restaurante que frequento, começo a precisar que me provem. Já não chega acreditar.

 

Pedro Rolo Duarte


11 comentários

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De João Carvalho a 23.11.2010 às 13:33

«No caldo que está criado para desacreditar o sistema (...)», este texto é de uma lucidez transparente. Ainda por cima, sou muito sensível à palavra «desacreditar», porque já perdi a pachorra para ouvir a toda a hora a palavra "descredibilizar". Parabéns ao Pedro.
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De José Manuel Faria a 23.11.2010 às 13:39

Excelente. Há "salazaristas" em todo o lado e, curiosamente, os mais pobres.
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De Ana Vidal a 23.11.2010 às 13:54

Olá, Pedro, bem-vindo ao Delito! Com um texto cheio de verdades demolidoras num beco sem saída, mas não há outras melhores nos tempos que correm. Ainda assim, apetece-me dizer como o Álvaro de Campos:"Merda, sou lúcido!"
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De Rui Rocha a 23.11.2010 às 14:35

Murros no estômago!
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De Gonçalo Correia a 23.11.2010 às 14:42

“Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência.” (Lev Tolstói)
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De Sérgio de Almeida Correia a 23.11.2010 às 14:44

Como eu os compreendo. Ao empregado do restaurante e ao Pedro.

Talvez um dia inventem uma vacina. Ou, quem sabe, lavem a fronha à democracia, o que já dispensaria a vacina.
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De Eduardo Louro a 23.11.2010 às 15:16

Completamente encurralados: essa é que é essa! Nós pobres democratas e ela, a democracia!
Nem o voto! Podemos votar? Já não servia de nada, como referia e bem o seu “desafiador”, mas até já isso desaparece: diz que o poder está naquela coisa dos mercados. Ora essa coisa não vai a votos e acha mesmo que isso de votos cria instabilidade, que é assim como que fazer-lhe cócegas. Querem é governos de salvação nacional e a amplas coligações, coisas de fazer de conta! E que garantam a sua estabilidade!
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De João Severino a 23.11.2010 às 15:18

Acreditar até à miséria final...

Parabéns, Pedro, pelo belo texto.
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De Pedro Correia a 23.11.2010 às 16:13

Gosto muito de te ver por cá, Pedro. Esta tua reflexão vem ao encontro de muitas das minhas próprias preocupações. Nunca devemos dar por garantida nenhuma 'conquista', tanto no plano político como no plano social.
Abraço.
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De Tité a 28.11.2010 às 16:03

Pedro,

Infelizmente os poderosos têm uma paciência danada para esperar a hora adequada para nos dar a estocada final. E nós a vê-los passar sem poder contrariá-los.
O povo não é estúpido está é dividido... em classes.

Abraços

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