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Estrelas de cinema (5)

por Pedro Correia, em 09.11.10

 

 

CINEMA 'FEELGOOD', COM BILHETE POSTAL

*

Depois dos livros de auto-ajuda, que hoje ocupam secções inteiras nas livrarias e nos tops de vendas, eis que chega agora também um filme de auto-ajuda: Comer, Orar, Amar. Com tópicos banalíssimos sobre a “felicidade” e o modo de atingirmos a “paz interior”. E a dose necessária de correcção política, fazendo equivaler todos os quadrantes geográficos e todas as culturas: a terapia começa com umas rezas na católica Itália, prossegue com meditações conduzidas por uma guru fashion na Índia e – de chorrilho de banalidades em chorrilho de banalidades – culmina com os ditames de um curandeiro numa aldeola de Bali. O mundo unido num abraço ecuménico ao serviço da felicidade universal e da multiplicação dos cifrões em Hollywood.
Julia Roberts, a estrela de turno, tem aqui dois registos de representação: sorri quando está feliz e esconde o belo sorriso que bem lhe conhecemos desde Pretty Woman quando se sente tristonha. É uma gama de emoções superior à média actual da “indústria” cinematográfica, que movimenta muito box office e transforma certos críticos em meros divulgadores de sinopses, fazendo equivaler receitas de bilheteira a qualidade cinematográfica.
Comer, Orar, Amar é tão esquemático e rudimentar enquanto filme como a receita “terapêutica” que propõe aos espectadores mergulhados num vazio espiritual: uma sucessão de bilhetes postais que não evita o cliché, antes o procura deliberadamente. Do dolce far niente na luminosa Roma, com refeições de sonho e sempre bem regadas, ao americano de meia idade angustiado por “culpas” várias que procura a redenção entre os deuses hindus, seguindo a rota inaugurada pelos Beatles nos anos 60. Mas o cliché máximo é atingido com a entrada em cena de Javier Bardem, interpretando um playboy brasileiro curtido ao sol da Indonésia, numa espécie de caricatura de si mesmo. Ao som de Bebel Gilberto, neste filme que não perde uma oportunidade de exibir um estereótipo, Bardem cumpre o que lhe pedem: devolver o sorriso a Julia Roberts. Na praia, entre coqueiros.
Quando isso acontece, como todos sabíamos que iria acontecer, já se percebeu que o próprio Bardem – depois de filmar com Almodóvar, Joel Coen e Woody Allen – não leva este papel minimamente a sério. E, por uma espécie de mecanismo de sabotagem interna, quase introduz uma espontaneidade neste filme que nunca a tem. Julia sorri no final, como também já sabíamos desde o início que iria suceder. E nós também sorrimos, claro: não procurámos a sala de cinema para outra coisa.
Chama-se a isto, no jargão contemporâneo, cinema feelgood. O cinema autêntico é outra coisa.

 

Comer, Orar, Amar (Eat Pray Love, 2010). De Ryan Murphy. Com Julia Roberts, James Franco, Richard Jenkins, Viola Davis, Billy Crudup, Javier Bardem.


18 comentários

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De Helena a 09.11.2010 às 17:32

Se tivesse optado por colocar aqui uma fotografia do Javier, em vez da Julia, podia dizer que gostei mais de ler o seu artigo do que de ver o filme, que até foi bem chatinho (valeu-me a banda sonora para manter a pestana aberta). Como não pôs e a Julia nem se está a rir, bem, ficam quites. :)
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De Pedro Correia a 09.11.2010 às 18:58

Ó Helena, acederia a qualquer pedido menos a esse. De resto, esta cena da Julia R. a comer gelado é das poucas que não considero péssimas neste filme.
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De tarokid2003 a 09.11.2010 às 18:16

O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.
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De Pedro Correia a 09.11.2010 às 18:58

Boa sorte para o projecto. Corrijo: para o projeto.
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De Ana Vidal a 09.11.2010 às 23:21

Já percebi que é mais uma xaropada cheia de batotas, e não me espanta. Já não tencionava vê-lo, mas depois do teu texto é que não vou de certeza. Só tenho algumas dúvidas quanto à tua isenção a propósito do Bardem, que deve ser o melhor do filme e faz parte das vistas...
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De Pedro Correia a 09.11.2010 às 23:23

O melhor deste filme não estava lá, Ana. A Penélope, claro.
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De Pedro Correia a 10.11.2010 às 10:46

Bem espreitei, mas não a vi. Raio de filme este.
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De Pedro Correia a 11.11.2010 às 00:12

Penelope ugh ou Bardem ugh?
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De Luís Bonifácio a 11.11.2010 às 01:19

Penélope Uhg como Actriz, mas na posição em que trabalha é fixe (Se bem que há muitas mais bonitas que ela).
Gosto de Bardem como actor (mas não neste filme), mas no resto estou como o Macário Correia está em relação a uma mulher que fuma.
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De Teresa Ribeiro a 10.11.2010 às 00:12

Ana, não vejas, não. Nem o Bardem nos salva. À excepção do reparo que fez sobre a Penélope, concordo com o Pedro em tudo o que disse.
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De Ana Vidal a 10.11.2010 às 02:41

Acredito, Teresa.
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De Pedro Correia a 10.11.2010 às 10:46

Haja alguém que me compreende, Teresa.
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De Pedro Coimbra a 10.11.2010 às 08:43

Dois grandes actores que aprecio imenso - Javier Bardem e Julia Roberts.
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De Pedro Correia a 10.11.2010 às 10:45

Uma actriz que aprecio às vezes - Julia Roberts.
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De Luís Bonifácio a 10.11.2010 às 23:54

Uma M_ _ _ _ de filme. Cujo custo foi integralmente pago pelo Turismo de Itália, India e Indonésia e que ainda por cima o cinema teve o desplante de cobrar entrada.

Pior que isto só o Vicky, Cristina, Barcelona
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De Pedro Correia a 11.11.2010 às 00:14

Desconhecia o 'pormenor' do patrocínio das entidades turísticas desses países. Depois de saber isso senti-me tentado a mudar a classificação para bola preta. Ugh.

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