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Elogio da crónica (I)

por Pedro Correia, em 06.11.10

Tenho pena que as crónicas estejam a desaparecer das páginas dos jornais. Habituei-me desde muito novo a ler alguns dos melhores cronistas da imprensa portuguesa – numa época em que a crónica era um género imprescindível. Lia textos do Pedro Alvim, do Rodrigues Miguéis, do Baptista-Bastos, do Carlos Pinhão, do Abelaira, do O’Neill e da grande Alice Vieira sempre com uma ponta de deslumbramento. Era uma prosa diferente da escrita impessoal das notícias: paginada de modo especial e com um tom coloquial que não se vislumbrava noutros locais dos periódicos – estabelecendo um clima de convivência quase íntima com o leitor. Através dos anos, fui mantendo o meu interesse pela crónica, frequentando diversos autores – do Miguel Esteves Cardoso ao Pedro Mexia, passando pelo Manuel António Pina, pela Clara Ferreira Alves, pelo Ferreira Fernandes e pelo António Lobo Antunes. Vou também praticando o género, sempre que posso: é a disciplina jornalística que mais se aproxima da literatura. Tenho pena de vê-la à beira da extinção, substituída pelo comentário anódino e sensaborão ou pela fatigante “análise” política que muitas vezes não é mais do que um mero piscar de olho a “fontes” de circunstância.
Ao menos no Brasil o género está bem vivo e recomenda-se. Há mesmo quem reclame por lá a paternidade brasileira da crónica, que gerou verdadeiros autores de culto – de Rubem Braga a Luís Fernando Veríssimo, de Carlos Drummond de Andrade a Arnaldo Jabor, de Nelson Rodrigues a Millôr Fernandes, de Fernando Sabino a Roberto Pompeu de Toledo. É um prazer ler o português revigorado destas crónicas brasileiras, de ontem e de hoje.


12 comentários

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De macarvalho a 07.11.2010 às 11:17

Também eu tenho saudades da crónica, dos seus autores, do que considerávamos imperdível.
O género, hoje, vai fugindo, quase sem darmos conta. Apenas verificamos que já quase nada encontramos.

E por falar em brasileiros, que tanto valorizam este género literário, lembrei-me de imediato de uma frase que sistematicamente uso, da autoria de Luis Fernando Veríssimo, já aqui citado:
A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo?
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De Ana Vidal a 07.11.2010 às 16:06

De facto, os brasileiros são mestres na arte. Do Arnaldo Jabor e do Millôr Fernandes há também mil exemplos de excelentes frases como essa, extraídas de fantásticas crónicas.
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De Pedro Correia a 07.11.2010 às 16:11

Os brasileiros orgulham-se de terem sido os 'inventores' da crónica enquanto género jornalístico. Desconheço se isso é verdade e tenho até muitas dúvidas que o seja. Inquestionável é o facto de continuarem a ser alguns dos melhores cultores do género.

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