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Delito de Opinião

O impasse

Paulo Gorjão, 01.11.10

Depois de terem dado por encerradas as negociações com o PSD, o PS e o Governo abriram de novo o processo que, poucas horas depois, culminaria no acordo que amanhã irá permitir a viabilização do Orçamento do Estado. Há apenas um ponto em que os diversos observadores -- jornalistas e comentadores -- estão em sintonia: o acordo resulta não da vontade genuína de José Sócrates, mas sim das diversas pressões a que uma vez mais foi sujeito. A partir daqui, o consenso desmorona-se. Alguns observadores atribuem ao Presidente da República o papel principal no processo, enquanto outros destacam a influência de Angela Merkel. Quem tem razão? Qual foi a variável determinante?
Muito provavelmente nunca o saberemos, até porque a pessoa que poderia esclarecer a dúvida -- José Sócrates -- não estará particularmente interessado em mergulhar neste assunto. Em todo o caso, se tivesse de escolher entre uma explicação endógena (Aníbal Cavaco Silva) e uma exógena (Angela Merkel), diria que -- uma vez mais -- a Chanceler alemã foi o actor determinante. Não é a primeira vez que os telefonemas e as conversas com Merkel fazem com que Sócrates reveja as suas  posições. Em sentido contrário, é menos claro em que ocasiões é que o papel de Aníbal Cavaco Silva -- numa questão determinante como esta -- foi crucial e obteve resultados.
Como é óbvio, a questão é seguramente mais complexa. Sócrates terá respondido à conjugação dos diversos estímulos -- alguns até poderão não ser conhecidos -- e não apenas a uma pressão exógena. Sem a conjugação dos diversos factores de pressão teria sido eventualmente possível resistir. Isto dito, com base na informação que é pública e que surgiu na comunicação social, diria que a última gota de água -- aquela que que fez o copo transbordar -- foi introduzida por Merkel e não por Cavaco Silva. A Chanceler alemã terá sido o actor-chave neste processo.
A ser verdade esta leitura, não deixa de ser particularmente preocupante constatar o total bloqueio político em que nos encontramos. Nesta fase o sistema político é incapaz de encontrar soluções endógenas que permitam ultrapassar os bloqueios. Este impasse, como se sabe, nunca terá uma resposta antes de Maio. Para terminar com uma nota mais optimista, diria que felizmente ainda existem factores de natureza exógena que nos permitem ir desbloqueando os impasses nas situações mais graves. Mas isto, claro, não é forma de vida razoável, nem é uma solução sustentável no tempo.