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La grande bouffe

por Ana Vidal, em 27.10.10

E de repente rebenta a bomba: Catroga e Teixeira dos Santos abandonam a meio os bailados nupciais, depois de um curto e atribulado namoro. É a ruptura, o divórcio litigioso antes mesmo do casamento que nunca passou, afinal, de uma ténue promessa. O circo mediático monta a tenda num ápice e esfrega as mãos de contente com a profusão de notícias frescas que tem pela frente. Multiplicam-se os directos, as entrevistas, as esperas em corredores entrecortadas de palavras ocas para encher chouriços enquanto não chega o carrasco ou a vítima, conforme o ponto de vista. Peroram os comentadores e analistas de circunstância em todos os programas de todos os canais de televisão, antevendo o implacável tsunami que nos espera a todos, caso não seja aprovado um orçamento igualmente implacável, que evitará o mal para nos fazer morrer da cura. Muda-se os cenários para tudo parecer ainda mais apelativo e catastrófico, e até o habitualmente sereno jornal da 2 alinha na esquizofrenia geral e passa a usar um formato agressivo de concurso, com o convidado sentado e a pivot de pé atrás de um balcão, como se estivesse a servir-lhe umas bejecas e um prato de tremoços. A Bolsa cai, as bolsas esvaziam-se a uma velocidade estonteante. As empresas públicas anunciam, revirando os olhos de santidade, as suas pias medidas de contenção, depois de terem abastecido as despensas e as garagens nos últimos anos, a preparar os tempos difíceis. Antecipa-se emoções para as oito da noite - como se o país suspendesse a respiração, todos os dias, até essa hora - prometendo conferências de imprensa e debates sortidos ao gosto do freguês. Cada político puxa dos galões para acusar os outros - quaisquer outros, desde que não lhe toque alguma responsabilidade - de todos os males que nos assolam, como se a peste negra tivesse chegado de improviso, sem nos ter acinzentado primeiro até ao tutano. Tira-se dividendos políticos (há quem os tire financeiros também, com toda a certeza) enquanto o circo não pega fogo, ou melhor, enquanto não fica tudo em cinzas. Os monárquicos aproveitam para gritar aqui d'el rei que a república é que tem a culpa de tudo, enquanto a república afina estratégias eleitorais no meio do caos, baralhando ainda mais os confusos figurantes deste carnaval tragicómico. E o tuga, exausto e saqueado, que já não acredita no Pai Natal nem na Branca de Neve vai para muito tempo, corre a pegar no comando da televisão para refugiar-se na Casa dos Segredos e meter na veia, embalado pela voz maviosa da Júlia Pinheiro, a doce anestesia de mais uma dose escaldante de meia dúzia de criaturinhas suburbanas entregues às hormonas e à perversão de outra Voz que as transforma em marionetas inconscientes, pobres ratos às voltas numa gaiola forrada a pelúcia. E assim nos vamos afundando alegremente, ou já nem isso.

 

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24 comentários

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De Rui Rocha a 27.10.2010 às 18:44

Mas não, mas não. Vamos safar-nos, vai ver. Agora até temos um super-herói nacional. É verdade: a Mulher Elástica não vale nada perto do Santos Inflexível!
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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:06

O Santos Inflexível é o novo Dom Sebastião do burgo? Valha-nos Alcácer-Quibir...
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De Nicolina Cabrita a 27.10.2010 às 19:00

Na mouche! (texto e filme)
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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:08

Já nem as mouches mudam, Nicolina, quanto mais a m****!
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De JB a 27.10.2010 às 19:05

“O quinto império”

Em português, as palavras são um simples meio de simpatia, ou o seu contrário. As pessoas perdem assim horas em conversas inúteis, só com o fim de garantir a sua estima recíproca (95)
Como bom português, sentia-se fascinado pelo desastre e caminhava para o abismo (118)

Dominique de Roux (1977, Paris)
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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:18

A atracção do abismo é muito nossa, de facto. Afundamo-nos primeiro em palavras, depois no buraco propriamente dito. Mas sempre à espera de um qualquer milagre que nos salve.
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De Francisco Castelo Branco a 27.10.2010 às 19:20

e o pior de tudo é que o Benfica tambem nao ganha....
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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:19

Valha-nos o sentido de humor, Francisco!
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De Francisco Castelo Branco a 28.10.2010 às 12:57

neste momento tem de ser, não podemos ajudar á depressão nacional, certo?
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De Ana Vidal a 29.10.2010 às 01:26

Certíssimo.
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De Essa agora a 27.10.2010 às 20:33

Já ninguém com dois dedos de testa consegue suportar o massacre das caras e vozes da trafulhice, chamem-se elas Sócrates, Teixeira dos Santos, Vieira da Silva, Francisco Assis, Lacão (esse génio!) ou qualquer outra m****.
O País está farto.
Temos de fazer qualquer coisa rapidamente. Vamos a isso?

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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:21

Essa agora...vamos a quê, exactamente?
:-)
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De macarvalho a 27.10.2010 às 21:06

Ana, continuo fielmente sua fã.
Um retrato rigoroso da nossa realidade, que me deixaria a rir, não fosse a tristeza que me invadiu faz tempo e não fosse tudo isto muito sério.
Também pelos seres que me rodeiam, que por acaso, estão no governo e nos deixaram neste estado e neste Estado.

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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:22

Em Estado de coma, Macarvalho: de "coma hoje, que amanhã pode já não haver nada"...
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De macarvalho a 28.10.2010 às 19:32

Como sempre, a sua nota de humor, desta vez, de humor negro ... impagável, de qualquer jeito.
Há quem esteja a andar ligeiro, apanha hoje que o amanhã pode não ser para ti.
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De Ana Vidal a 29.10.2010 às 01:29

Ora nem mais. Há sempre quem se abasteça com calma, antes que chegue a tropa dos esfomeados.
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De artur mendes a 27.10.2010 às 22:11

A nossa História é fatal como o destino:

Com a perda iminente da "teta" da UE...

não tenhamos dúvidas: --Portugal saberá encontrar outro meio de "proxenetismo"... foi assim com as indias, áfricas e brasis...
....
Quiçá... um protectorado "made in USA"...
Ou... (Sócrates saberá) venuzuelano!!!!
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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:24

Acabou o tempo das vacas gordas, Artur. E até das magras, parece-me.
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De Sara a 27.10.2010 às 23:25

Excelente texto, como sempre. Odeio apenas o termo "suburbana", como se a ignorância e a parolice estivessem confinadas a áreas geográficas.
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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:25

E eu tenho de dar-lhe razão, Sara: é injusta a classificação, até porque a ignorância e a parolice já alastraram e invadiram todo o burgo.
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De Pedro Correia a 27.10.2010 às 23:33

Uma fabulosa pintura impressionista do Portugal contemporâneo. A minha vénia ao seu talento, cara colega.
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De Ana Vidal a 28.10.2010 às 01:28

Obrigada, Pedro. Até eu estou impressionada... não com a pintura, mas com o modelo. Nunca vi um tão mau, tão esfarrapado e tão faminto como o deste quadro. E ainda vamos nos esboços.
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De artur mendes a 27.10.2010 às 23:55

Exma Srª D. Ana Vidal...

O seu texto é maravilhoso... feio... feio... é o "Lapis Azul"... deito-o p'ro lixo !
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De Ana Vidal a 29.10.2010 às 01:32

Qual lápis azul, Artur? Não tenho a certeza se o percebi bem, porque não costumo usar tal coisa.

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