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Os filmes da minha vida (21)

por Pedro Correia, em 28.10.10

 

NUNCA HOUVE UM ANO ASSIM

  

Foi um ano mágico para Hollywood. A sisuda Greta Garbo soltou pela primeira vez umas sonoras gargalhadas em Ninotcha, de Ernst Lubitsch – um filme que passou logo a ser conhecido pelo slogan publicitário: “Garbo ri.” John Wayne protagonizava o “primeiro western adulto”, como lhe chamou Peter Bogdanovich – era Cavalgada Heróica. James Stewart ascendia ao estrelato num papel inesquecível em Peço a Palavra (Mr. Smith Goes to Washington), de Frank Capra, pelo qual a exigente Associação de Críticos de Nova Iorque lhe deu o prémio de melhor actor. O produtor David O. Selznick trouxe de Estocolmo uma actriz muito jovem e muito tímida, a quem os jornais, com aquelas fórmulas demasiado fáceis a que gostam de recorrer, não tardaram a chamar “nova Garbo”. À beira do fim do ano, o mesmo Selznick estreou aquilo a que os mesmíssimos jornais se apressaram a intitular “filme da década”: E Tudo o Vento Levou.

O ano era 1939 – não houve outro assim na meca do cinema. Um ano em que as obras-primas se sucediam numa vertiginosa sucessão de estreias. Foi o ano em que William Wyler – ainda com o dedo de Selznick – mostrou ao mundo que o universo romanesco de Emily Brontë era filmável, dirigindo Laurence Olivier e Merle Oberon em O Monte dos Vendavais. O ano em que George Cukor (que liderou as filmagens de E Tudo o Vento Levou antes se incompatibilizar com o protagonista, Clark Gable) rodou Mulheres, só com papéis femininos. O ano em que Bette Davis, ferida no seu amor-próprio por não ter sido escolhida para o papel de Scarlett O’Hara, rapou as sobrancelhas para protagonizar Isabel de Inglaterra, de Michael Curtiz. O ano em que Henry Fonda fez de Abraham Lincoln em A Grande Esperança, de Ford. O ano em que Humphrey Bogart se firmava definitivamente no cinema, ao lado de James Cagney, em Heróis Esquecidos, de Raoul Walsh. Um ano em cheio para Judy Garland, que passou De Braço Dado (Babes in Arms, de Busby Berkeley) com Mickey Rooney e foi visitar O Feiticeiro de Oz (de Victor Fleming, o realizador de E Tudo o Vento Levou).

 

Ford rodou o seu primeiro filme a cores (Ouvem-se Tambores ao Longe). Marlene Dietrich parodiou a personagem que a tornou célebre, a Lola d’ O Anjo Azul, num western genial – A Cidade Turbulenta, sob a direcção de George Marshall. George Stevens realizou um modelar filme de aventuras com Cary Grant e Douglas Fairbanks Jr – Gunga Din. Grant, grande isco de bilheteiras, protagonizou Paraíso Infernal, de Howard Hawks, contracenando com uma estreante chamada Rita Hayworth. Ingrid Bergman, a tal caloira sueca que afinal era superior à Garbo, comoveu as plateias pela sua actuação em Intermezzo, de Gregory Ratoff. Carole Lombard casava com James Stewart em A Vida Começa Amanhã, de John Cromwell. E Bette Davis, recuperadas as sobrancelhas, fez chorar as pedras da calçada em Vitória Negra, de Edmund Goulding.

“Foi um ano extraordinariamente vigoroso para o cinema americano”, viria a sublinhar Bogdanovich, ele próprio nascido em 1939. A indústria cinematográfica americana estava no auge, a guerra desencadeada por Hitler ainda não ultrapassara o solo europeu, a máquina de sonhos estava bem oleada (nesse ano estrearam-se 476 filmes norte-americanos), estúdios como a MGM gabavam-se de ter mais estrelas sob contrato do que as existentes no firmamento. “Imaginem um realizador do calibre de Ford – mesmo que houvesse algum – hoje estrear três filmes por ano. E ninguém deu grande importância a isso nesses dias misericordiosamente naturais. Era apenas uma ‘missão cumprida’, como diria Ford.”

 

São ainda palavras de Bogdanovich, que nos lembra a forma como a chamada “imprensa de referência” ridicularizara um ano antes o filme As Duas Feras (Bringing Up Baby), de Hawks. O crítico do conspícuo New York Times chamou-lhe “fita tonta”, desaconselhando os espectadores de a verem por se tratar de “uma perda de tempo”. Foi preciso esperar duas décadas e o reconhecimento de respeitáveis críticos franceses como André Bazin e François Truffaut para que Hawks fosse enfim celebrado nos Estados Unidos como o grande autor que sempre foi e As Duas Feras ser enfim reconhecido em Nova Iorque como uma das mais geniais comédias de todos os tempos. Ninguém é profeta na sua terra...

Quantas obras-primas não passam hoje pelos nossos olhos sem estarmos preparados para as reconhecermos? E quantos críticos, munidos com arsenais de bolas pretas, chamarão hoje “fitas tontas” às obras-primas de amanhã?


12 comentários

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De João Campos a 29.10.2010 às 01:16

Quantas obras-primas não passam hoje pelos nossos olhos sem estarmos preparados para as reconhecermos? E quantos críticos, munidos com arsenais de bolas pretas, chamarão hoje “fitas tontas” às obras-primas de amanhã?

Dos filmes que vi (e de que gosto), esta ideia faz-me sempre lembrar dois: The Night of the Hunter, de Charles Laughton (1955) e Blade Runner, de Ridley Scott (1982). Duas obras-primas que falharam nas bilheteiras e nas críticas, e que precisaram de muitos anos para que lhes fosse feita justiça. Muitas mais haverá.
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De Pedro Correia a 29.10.2010 às 11:10

Podemos juntar a esses, entre tantos outros, todos os filmes de Orson Welles, um dos maiores génios do cinema.
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De João Campos a 29.10.2010 às 11:48

Sim, mas hoje é praticamente unânime que o Citizen Kane é o melhor filme de sempre.
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De Pedro Correia a 29.10.2010 às 11:50

Claro, mas foi quase corrido à pedrada nas semanas de estreia.
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De Pedro Coimbra a 29.10.2010 às 08:27

Que memórias, Pedro, que memórias.
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De Pedro Correia a 29.10.2010 às 11:09

Memórias de um tempo em que o cinema se confundia com a vida e a vida se confundia com o cinema.
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De Ana Vidal a 29.10.2010 às 12:08

Caramba, que ano, de facto! E na tua pergunta final está uma grande verdade: há sempre críticos conceituados que têm de engolir avaliações precipitadas, depois de alguns anos. E há óptimos filmes que passam despercebidos nos circuitos. Vi na semana passada, por mero acaso, um filme de que gostei imenso: "Elegia", com o meu amado Ben Kingsley e a tua amada Penélope Cruz. Nunca tinha dado por ele antes, quando passou no cinema.
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De Pedro Correia a 29.10.2010 às 19:38

Olha, nem eu. Apesar de a minha amada estar no elenco.
(odeio o Bardem)
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De Ana Vidal a 30.10.2010 às 22:09

Entendo-te. Também odeio a Penélope, suponho que pela mesmíssima razão: inveja, pura e dura.
;-)
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De Pedro Correia a 31.10.2010 às 00:25

Inveja? Nada disso. Pura compaixão. A donzela vive oprimida por aquele canalha, aquele assassino que matava pessoas como se fossem moscas no filme dos Coen. Tadinha, a aturar tamanho monstro.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 30.10.2010 às 19:01

Olá, Pedro!
476 filmes num só ano? Incrível... sim, hoje a comparação é terrível, em relação à qualidade pelo menos.
A propósito: adorei este post.
Ana
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De Pedro Correia a 31.10.2010 às 00:26

Obrigado, uma vez mais, pela sua simpatia, Ana. De facto, é um número assombroso: 476 filmes num ano. Quando Hollywood era uma verdadeira fábrica de fazer filmes mas naqueles estúdios havia tempo e espaço também para produzir geniais obras de arte.

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