Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Opositor sim, dissidente não

Pedro Correia, 12.10.10

 

E lá surge novamente, a propósito da merecida atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiabo, a famigerada palavra dissidente. Que se emprega apenas como referência aos opositores nas ditaduras comunistas. Quem se opõe à dinastia dos irmãos Castro em Havana é dissidente. Quem se opõe à dinastia Kim em Pyongyang é dissidente. Quem ousa enfrentar a bota cardada de Pequim, que esmaga impiedosamente os defensores de direitos humanos, é dissidente. Mas a que propósito vem o palavrão? Dissidente, esclarece-me o Cândido de Figueiredo que tenho à mão, "é aquele que diverge da opinião geral". Parte-se portanto do princípio que a "opinião geral" se conforma com os ditames da ditadura, havendo uns quantos excêntricos que pensam de outra maneira, em evidente fuga à normalidade.

Lamento, mas não uso a palavra. E rejeito o conceito. Lula da Silva e Dilma Rousseff foram opositores à ditadura militar brasileira - ninguém jamais ousou chamar-lhes dissidentes. Nelson Mandela foi um combatente contra o apartheid - não era um dissidente do regime racista sul-africano. Álvaro Cunhal e Mário Soares, entre tantos outros, militaram na oposição ao salazarismo - não eram "dissidentes" do salazarismo.

Liu Xiabo é um opositor incómodo e tenaz da ditadura chinesa. Chamar dissidente a este preso de consciência é já uma forma de ceder aos seus verdugos, diminuindo-lhe a estatura cívica e moral. Nenhuma palavra é neutra na batalha das ideias.

22 comentários

Comentar post

Pág. 1/2