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O que se festeja amanhã?

por Pedro Correia, em 04.10.10

No meio da maior crise financeira de que há memória, o país político prepara-se para comemorar cem anos de república - com maior espavento do que se comemorasse a própria fundação de Portugal.

Lamentavelmente, não é preciso ser monárquico para chegar a esta conclusão: há poucos motivos para festejar. Dos cem anos do regime que se comemora, apenas 34 - um terço - decorreram em democracia plena. Os 15 anos e meio da I República merecem figurar nos manuais como um período histórico que nenhum português gostaria de reviver: sufrágio restrito, jornais encerrados, sindicalistas presos, perseguições religiosas, atentados bombistas, conspirações permanentes, homicídios políticos (um presidente e um primeiro-ministro assassinados), finanças caóticas. Generalizada degradação da autoridade do Estado. Uma absurda e suicida intervenção na I Guerra Mundial que levou o luto a milhares de famílias portuguesas. Intelectuais de todos os matizes - de Fernando Pessoa ao grupo da Seara Nova - clamando por uma "regeneração nacional" que chegou à bruta, a 28 de Maio de 1926: a incompetência dos políticos dessa época adubou o terreno para 48 anos de ditadura.

Na própria I República houve dois períodos ditatoriais, convenientemente omitidos da historiografia oficial: o "golpe das espadas", de Pimenta de Castro (1915), e o bonapartismo reencarnado por Sidónio Pais, fugaz ídolo das massas até ser morto na estação do Rossio (1917-18).

Woodrow Wilson foi presidente dos EUA durante oito anos (1913-21). Neste período, Portugal teve seis presidentes (Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Bernardino Machado, Sidónio, o monárquico Canto e Castro, António José de Almeida), dois golpes de estado e 27 governos, além de várias "incursões" monárquicas, aliás desautorizadas pelo bom senso do último rei, D. Manuel II, exilado no Reino Unido.

 

É isto que amanhã se comemora, novamente com as finanças exangues. Em vez de festejar, os políticos actuais deviam analisar seriamente a profusão de erros e omissões da I República, um regime que não tardou a devorar os seus heróis, começando por Machado Santos, o "bravo da Rotunda", assassinado na sangrenta madrugada de 19 de Outubro de 1921. Deviam também interrogar-se sobre o terreno que eles próprios adubam nos dias de hoje. Não há regimes eternos, como o estudo da História bem demonstra. Em política, toda a incompetência tem um preço: o pior é que a factura costuma ser paga pelos povos.

 

Imagens:

1. Sídónio Pais, ditador na I República (assassinado em 1918)

2. Machado Santos, herói do 5 de Outubro (assassinado em 1921)

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8 comentários

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De Alberto Matos a 04.10.2010 às 18:21

Há outro aspecto a considerar: os milhões de euros gastos, directa ou indirectamente, com estas absurdas comemorações, numa altura em que o País é chamado aos maiores sacrifícios.
Deve ser a mesma "lógica" que levou a que o gabinete do primeiro-ministro acabasse de adquirir um automóvel de valor próximo dos 140 mil euros...
Quando acordarmos deste pesadelo, vamos todos perguntar-nos como foi possível termos permitido tanto desgoverno. Temo que já seja demasiado tarde.
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De Pedro Correia a 04.10.2010 às 21:40

É tambem isso que procuro abordar no meu texto. As pessoas não estão para comemorações, por motivos tão óbvios que nem é necessário sublinhar. A república tem subjacente um ideal de igualdade. Infelizmente, no Portugal contemporâneo as desigualdades são chocantes: qualquer republicano convicto sente-se certamente chocado com isto.
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De Carlos Pimentel a 04.10.2010 às 18:58

Ó Pedro, se neste post tirasse as palavras república portuguesa e colocasse revolução francesa chegava quase de certeza às mesma conclusões: a revolução francesa foi o terror, foi murat, robespierre, a guilhotina e desembocou na ditadura de napoleão. todavia, a maior parte de nós continua a achar que foi um momento fundamental para o progresso humano, certo? Já sei que vai dizer que a analogia é dos argumentos o mais fraco, mas talvez este comentário lhe faça pensar um pouco mais sobre um acontecimento que, visivelmente, não lhe agrada e onde só encontra o que quer. Assim, e dentro do espírito da coisa, deixo-lhe um abraço solidário: bom 5 de Outubro.
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De Pedro Correia a 04.10.2010 às 21:41

Agradeço-lhe e retribuo o abraço solidário, Carlos.
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De jose-catarino a 04.10.2010 às 23:13

Excelente ponto da situação. Apraz-me chegar ao 5 de Outubro do centenário e ler tantas opiniões coincidentes com a minha, só que muito melhor expressas. Há um ano, quando as escolas foram, na prática, requisitadas para a comemoração, na minha só ouvi duas vozes discordantes: a minha e a duma colega monárquica. No meu caso, faço questão de salientar que não embandeirar em arco com a(s) república(s) que tivemos e temos não significa suspirar por rei, embora tenha de reconhecer que ingleses, dinamarqueses, holandeses, suecos, japoneses, espanhóis até, não estão pior do que nós. Mas o que me irrita mais são as palestras sobre a "ética republicana"...
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De Pedro Correia a 05.10.2010 às 09:51

«Ética republicana» também é uma palavra que me irrita. Como se a ética necessitasse de ser adjectivada...
Os maiores críticos da I República não foram monárquicos, ao contrário do que apregoa a vulgata, mas republicanos. No fundo, ninguém queria uma república daquelas. Nem - como sublinho no meu texto - ninguém hoje gostaria de voltar a viver num regime daqueles. Quanto ao balanço dos cem anos, lamento decepcionar alguns, mas é francamente negativo. Basta anotar que 66% desse período decorreu em ditadura ou em falsa democracia.
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De João André a 05.10.2010 às 12:36

Pedro, a crise parece-me pouca justificação para uma não-comemoração de uma data fundamental. Concordo que haverá gastos a mais, mas nunca deveríamos deixar de comemorar a República, até porque ignorar a data devido à crise seria o mesmo que dizer que o sistema não é importante, apenas a economia o é.

A República tem sido, de facto, muito maltratada ao longo destes 100 anos, mas os seus princípios devem ser sempre relembrados, especialmente por oposição à situação actual (como bem relembra numa resposta a um comentário acima). É uma das datas fundamentais no nosso país (até os monárquicos a assinalam, mesmo que seja no sentido oposto) e a sua razão de ser (ou os acontecimentos que levaram e tiveram lugar no dia 5 de Outubro de 1910) deve ser assinalada. Só que, e isto é o fundamental, sem revisões históricas e sem maquilhagens. A Monarquia caiu por mais que obra e graça de meia dúzia de pessoas. Isso é frequentemente ignorado por monárquicos. Depois deu em ditaduras militares e numa outra, o Estado Novo, que foi a mais longa de sempre da Europa (que eu saiba), coisa que é suavizada por republicanos. O rigor e honestidade, um dos valores republicanos (eu diria humanos, mas que fazer) deve estar sempre presente.
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De Pedro Correia a 05.10.2010 às 22:43

João André, não digo que não devamos comemorar a data - e muito menos ignorá-la. Digo apenas que não devemos comemorar mistificações. É aí que quero chegar. E neste aspecto, ao que deduzo, estamos de acordo.

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