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Toda a tristeza é reaccionária*

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.09.10

Qualquer análise da situação política, que queira revelar um mínimo de bom-senso e sentido das realidades, terá de partir de duas constatações. A primeira é a de que os dois principais partidos se têm comportado muito mal, em especial os seus líderes. A segunda é a de que a situação do país obrigaria a que o PS e o PSD fossem capazes de encontrar internamente soluções de governabilidade a curto e médio prazo, coisa para a qual, entre outras, se têm revelado profundamente incompetentes.

O uso do bluff como arma política já se viu que traz resultados ainda mais nefastos do que aqueles que o bluff de que se fez uso visava acautelar, coisa de que nem Passos Coelho nem José Sócrates, inebriados com a luta política, ainda não se aperceberam. Os líderes do PS e do PSD transformaram o dia-a-dia do país num imenso jornal de parede maoista, agravando a situação de descontrolo interno e a transmissão para o exterior de uma imagem de total incapacidade, ineficácia e desgovernança, com reflexos directos e imediatos nos nossos credores e mutuantes externos.

Não vou perder tempo a analisar as declarações confrangedoras dos directórios de cada um dos dois maiores partidos, uma vez mais assinalando a indigência dos seus principais dirigentes e porta-vozes, pobreza que é já do domínio do absurdo e que se revela na incapacidade desses partidos para contrariarem o rumo dos acontecimentos e levarem as respectivas direcções a rectificarem posicionamentos anedóticos, como se os congressos fossem os únicos momentos na vida de um partido político em que se podem corrigir trajectórias, analisar estratégias e promover mudanças.   

Fez bem, por isso, o Presidente da República ao convocar os líderes do PS e do PSD para conversarem em Belém. Esta é uma oportunidade de ouro para Cavaco Silva, mais do que relançar a sua recandidatura, que não é isso que está em causa, chamar à razão José Sócrates e Passos Coelho. Neste momento o país tem de estar primeiro, não sendo de todo aceitável o desconchavo retórico de que os líderes do PS e do PSD têm dado mostra. Como cidadão sinto-me envergonhado pelo que tenho visto e ouvido de um lado e do outro, directamente ou por interpostos porta-vozes.

É inaceitável, para qualquer pessoa decente e qualquer que seja o posicionamento político de cada um e o critério que seja seguido na análise, que a despesa do Estado não esteja a ser reduzida para valores consentâneos com as dificuldades que atravessamos. Só isso justifica que o conselho de administração de uma empresa como as Águas de Portugal se tenha atrevido a pensar comprar ou alugar mais umas centenas de viaturas novas para os seus colaboradores.

Como é inaceitável que o ministro Teixeira dos Santos continue a afinar o seu discurso pelo diapasão do primeiro-ministro, em vez de acontecer o inverso. Não devia ser necessário dizer isto, mas é cada vez mais necessário que tal seja dito sob pena de nos transformamos todos nuns autómatos das lideranças medíocres dos partidos do arco da governação.

Se o exercício da cidadania é compatível com a militância partidária, se esta é uma forma daquela se realizar em toda a sua plenitude, então é imperioso que sem rodeios, sem medos, sem receios da pequenez de alguns, sejamos capazes de dizer alto e bom o que nos vai na alma. Não se veja nisso um exercício egocêntrico ou uma manifestação de rebeldia quando o nosso primeiro dever de cidadania é o de expressarmos com lealdade, vigor e clareza o nosso posicionamento perante as dificuldades, apontando caminhos e soluções.

As questões técnicas relativas ao orçamento deixá-las-ei para quem domina as minudências da matéria. Aqui, visto que nesta altura já todos terão entendido aonde quero chegar, limito-me aos aspectos políticos, sendo certo que com isso não quero dizer que não tenha opinião sobre aqueles. Uma coisa é ela ser descartável, outra é não a ter.

Gostaria, por isso mesmo, de esclarecer-vos que entendo ser dever do Governo apresentar um orçamento suficientemente sólido e credível que, sem onerar ainda mais os portugueses que pagam impostos, consiga acalmar os nossos credores, incutindo-lhes confiança e, ao mesmo tempo, de uma vez por todas, dê uma machadada no défice, reduzindo de forma drástica a despesa pública. Sem sofismas, sem subterfúgios, sem espertezas saloias.

Perante as posições recentemente assumidas pelo PSD, cuja mediocridade dos respectivos dirigentes (é triste, muito triste ter de dizê-lo) impede que o partido possa ser considerado alternativa neste momento de crise – olhando para Passos Coelho dir-se-ia que Pedro Santana Lopes ou Manuela Ferreira Leite foram estadistas –, impõe-se que José Sócrates e o PS dêem uma resposta – sem bluff – aos problemas do país. Este não é um tempo para o PS se deixar envolver em escolinhas, em cursos de línguas por correspondência ou novas mini-tecnologias. É tempo de arregaçar as mangas e mergulhar na realidade, aproveitando o saber dos seus quadros e o élan que Manuel Alegre lhe pode conferir neste momento. Para recuperar a confiança, endireitar as contas e cumprir as suas obrigações para com os portugueses.

Não se trata de entrar numa batalha em defesa do estado social – o estado social tem mecanismos de defesa e reacção que dispensam neste momento novos apoios e declarações de circunstância -, mas antes de conferir credibilidade à governança e à imagem externa de Portugal.

Se o PS não encontra no PSD um interlocutor competente e sério para ajudar a resolver os problemas do país, é bom que encontre outras alternativas. E não que entre no jogo do seu opositor. Os portugueses não lhe perdoariam que numa altura destas se entretivesse a discutir seleccionadores de futebol, mudanças de embaixadores petulantes ou guerras de sacristia. A resolução dos problemas do país não pode em momento algum ser confundida como uma guerra de “jotinhas”.

Talvez por saber disso é que Paulo Portas, numa excelente entrevista ao Expresso, aliás a anteceder uma outra que dará a um canal de televisão na próxima terça-feira - o ser 28 de Setembro não a confundirá com a triste maioria silenciosa que acabaria exilada em Macau no "segundo terço da transição" do território para a China -, com peculiar sentido de oportunidade (não é o mesmo que oportunismo, coisa que ele também tem), se “esqueceu” de esclarecer se o CDS estava disponível para viabilizar o OE, limitando-se a dizer que “é importante ver que neste momento o PSD é identificado com normas constitucionais abstractas e o CDS é identificado com políticas públicas concretas, como a segurança, justiça, agricultura, impostos, saúde ou educação”.

Quando estamos prestes a celebrar os cem anos da proclamação da República, gostaria de vos dizer que dificilmente encontraria mais actualidade nas palavras de qualquer outro do que em Fernando Pessoa. Seria bom que amanhã, quando estas linhas forem lidas, os leitores não se esqueçam que “foram escritas num época da Pátria em que havia minguado a estatura nacional dos homens e falido a panaceia abstracta dos sistemas. A angústia e a inquietação de quem as escreveu, porque as escreveu quando não podia haver senão inquietação e angústia, devem ser pesadas na mão esquerda, quando se tome, na mão direita, o peso do seu valor científico”.   

Espero que José Sócrates tenha lido a mesma entrevista que eu li. Com a mesma atenção. E que tenha reflectido um pouco nela. Neste momento não está em causa a compra de submarinos. Além de que sempre será melhor abrir as portas para resolver os problemas do país do que fazer uma espargata para acabar crucificado nas presidenciais.

 

O País é maior do que o PS. E vale a pena.

 

* - Fernando Pessoa, Sobre a República

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