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Uma obra de referência

por Pedro Correia, em 17.11.10

 

Nenhum outro político português do século XX foi tão idolatrado e tão odiado como António de Oliveira Salazar (1889-1970). Isto explica, em boa parte, que 40 anos após a sua morte ainda não existisse no mundo editorial português uma biografia exaustiva, elaborada em moldes académicos e destituída de paixão política, sobre a rota singular deste homem que se manteve quatro décadas no poder e moldou como nenhum outro a sociedade portuguesa. Ao ponto de até expressões que utilizamos hoje no vocabulário comum terem sido cunhadas por ele. Expressões como "rapidamente e em força" ou "em política o que parece é".

Em Salazar, muito do que parecia não era: eis uma das revelações contidas na minuciosa biografia do antigo ditador redigida por Filipe Ribeiro de Meneses, um investigador português há longos radicado na Irlanda e que para o efeito beneficiou de um bolsa norte-americana. Esta obra demonstra, melhor do que qualquer outra, como foi sinuoso o percurso de Salazar e até que ponto a sua notável longevidade política resultou de um conjunto de circunstâncias fortuitas, aliadas ao seu raro talento de sobrevivente a todas as crises.

Salazar inicia a actividade política nas franjas direitistas da I República - regime a que nunca aderiu mas que implicitamente caucionou ao candidatar-se por duas vezes a deputado. Numa dessas ocasiões chegou a ser eleito e marcou presença numa sessão parlamentar. Ao contrário do que viria a ser difundido pela propaganda do Estado Novo, essa experiência foi muito curta pelo simples facto de a legislatura ter chegado abruptamente ao fim devido à "noite sangrenta" que culminou com o assassínio do chefe do Governo, António Maria da Silva, e de dois heróis do 5 de Outubro, Machado Santos e Carlos da Maia.

 

Ribeiro de Meneses tem sido criticado por ter aludido numa entrevista à filiação democrata-cristã de Salazar. Esta frase foi retirada do seu devido contexto: nos anos 20, o futuro ditador era efectivamente um democrata-cristão assumido, que tinha como principal matriz inspiradora a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, e aceitava - embora com evidente relutância - as regras do jogo democrático e a liberdade de imprensa. Eram frequentes, aliás, os seus artigos de opinião nos mais diversos jornais, o que contribuiu para a boa fama de que gozava este académico coimbrão junto das elites de Lisboa quando eclodiu o golpe de 28 de Maio de 1926. Um golpe militar que marcou, enquanto tal, o regime que acabaria por durar até 25 de Abril de 1974. Ao contrário dos restantes ditadores europeus da sua época, Salazar não conquistou o poder: recebeu-o dos militares, primeiro em parcelas delegadas, depois de forma generalizada mas nunca com carácter absoluto. Foi um poder que resultou de um pacto e se sujeitou a regras tácitas - desde logo, a de haver sempre um militar no Palácio de Belém, como vértice político supremo, ainda que apenas com carácter simbólico (embora a Constituição de 1933 lhe outorgasse o poder discricionário de demitir o presidente do Conselho de Ministros).

Isto explica a relutância - sempre mal explicada, até à presente obra - de Salazar em aceitar o cargo de Presidente da República a que os seus apaniguados procuraram conduzi-lo em datas tão diversas como 1949, 1951 e 1958. Um desses presidentes militares, Craveiro Lopes, viria a conspirar abertamente contra ele e até o afável marechal Carmona terá inspirado uma intentona falhada para o depor, em 1947. Da revolta da Madeira conduzida em 1931 pelo general Sousa Dias até à "Abrilada" de 1961 encabeçada pelo próprio ministro da Defesa, general Botelho Moniz, Salazar encontrou sempre oposição em segmentos significativos das forças armadas.

 

 

Talvez o maior mérito de Salazar, de Filipe Ribeiro de Meneses, seja o de demonstrar - com recurso a um impressionante número de fontes históricas, além do inesgotável arquivo pessoal do ditador - que a rota trilhada pelo fundador do Estado Novo esteve longe de ser linear. O homem que em 1928 foi apresentado aos portugueses como mago das finanças e capaz de "pôr as contas em ordem" (como de facto aconteceu) teve na década de 30 vários adversários à sua direita - do monárquico Paiva Couceiro aos nacionais-sindicalistas de Rolão Preto, que viriam a ser ilegalizados em 1934, numa manifesta afirmação de autoridade do novo regime. Nem nunca navegou nas águas do Integralismo Lusitano.

É o exercício do poder, cultivado na maior solidão, que o empurra progressivamente para um conservadorismo sem retorno, sobretudo após a Guerra Civil de Espanha, logo seguida da II Guerra Mundial, em que mantém um complexo jogo de neutralidade entre as potências em conflito.

Outro dos méritos desta obra é confirmar, contextualizando-as devidamente, as divergências que vários notáveis do regime foram mantendo com o seu mentor - por vezes contestado sem qualquer ambiguidade até com assinalável contundência. Armindo Monteiro (ministro dos Negócios Estrangeiros), Marcelo Caetano (ministro das Colónias e da Presidência) e Daniel Barbosa (ministro da Economia) foram alguns desses colaboradores que dele se distanciaram, utilizando expressões muito críticas na correspondência que lhe dirigiram e que nestas páginas se recupera.

 

É, paradoxalmente, a última das três guerras - a de África, travada nas frentes de Angola, Guiné e Moçambique - que dá o último fôlego, mais ilusório que real, ao regime salazarista na sua última década. Uma guerra travada contra os 'ventos da História', de algum modo condenada ao fracasso desde o momento inicial e que acaba por acentuar ainda mais as distâncias entre Salazar e os militares. O regime está exangue quando o antigo "homem providencial" cai da cadeira, no Verão de 1968. Também a Igreja o abandonara já: era patente o divórcio entre Salazar e as elites católicas desde o exílio forçado do bispo do Porto, em 1958, e a fraudulenta eleição presidencial do mesmo ano, em que Humberto Delgado - outro general, saído das fileiras do regime - ousara corporizar a voz da nação, desafiando a imobilidade da ditadura.

Salazar abandonou o poder sem deixar discípulos: o seu sucessor, Marcelo Caetano, havia sido nas três décadas anteriores um dos mais persistentes dos seus críticos. O regime a que se convencionou chamar Estado Novo não podia sobreviver ao seu fundador: foi afinal um longo interregno sem precedentes nem continuação.

De tudo isto nos fala Ribeiro de Meneses com a serena autoridade do investigador sério. Esta biografia tardia assinada por um 'estrangeirado' nascido em 1969, já com Caetano no lugar de Salazar, vem colmatar uma grave lacuna na historiografia portuguesa e torna-se desde já uma obra de referência, como os anos posteriores inevitavelmente confirmarão.

 

Em cima: Salazar com o presidente norte-americano Dwight Eisenhower no palácio de Queluz (Maio de 1960)

A meio: retrato de Salazar, pelo pintor Eduardo Malta

 

Publicado na revista Ler

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